Xuru

eu e xuru 1987

Há exatos dez anos completados neste 11 de setembro, eu voltava de viagem de São Paulo.

Na estrada, tentava informações por telefone a respeito de meu amigo Xuru, vulgo Rubens Nunes, bastante doente, repousando em seu apartamento em Copacabana.

Sabia que alguns outros amigos estavam em sua casa acompanhando a situação. Quatro ou cinco pessoas.

Ninguém atendia os celulares.

Não precisei de uma única palavra para saber que o fim havia chegado. Quero dizer, o fim como nós, pobres mortais, estabelecemos por esta bela e desumana Terra. Ninguém teve a coragem de me dar a notícia na estrada e nem precisava: o silêncio era a resposta.

Meia hora depois, Pat me telefonou e disse o que eu já esperava: Xuru estava morto.

Nós nos conhecemos em uma das mais inusitadas do início da história de qualquer amizade: eu chegando ao acampamento do meu grupo de escoteiros – quando o pronome possessivo era compatível – na cidade de Arcozelo, mais conhecida por abrigar a casa de Pascoal Carlos Magno, prócer do teatro brasileiro, tudo numa noite de quinta ou sexta de abril de 1984.

A garotada na birosca da região fazendo um lanche. Os jovens e sonhadores adolescentes conversando. O sorriso das meninas. Eu, que também era um garoto, fui levar minha mochila para uma barraca, quando me deparei com o garoto pequeno, louro, sozinho num cercado de sisal:

– O que você está fazendo aqui?

– Rãraãrãrãrãrã, fui suspenso por indisciplina.

A risadinha nunca mais se calou pelos 21 anos seguintes.

Campos, estádios, bares, a praia, quadras de futebol de salão, padarias, shopping centers, puteiros, campeonatos de botão, a UERJ, a UFRJ, Copacabana, São Paulo.

Ficamos amigos para sempre. Várias vezes me emprestou o dinheiro que não tinha, noutras trabalhei de graça para ele em coisas que costumo cobrar bem. Ele me ajudou a matar um camundongo em casa, eu descascava as laranjas que sobravam do bandejão do Fundão.

Adorava festas, eu as detestava, mas ia por que senão ouvia “Paulón, você nunca vai, deixa de ser mala”.

Era um vascaíno completamente apaixonado. Louco pelo Edmundo. Quantas e quantas vezes o acompanhei em jogos da Cruz de Malta. Seus preferidos eram os de seis e meia da tarde de domingo em São Januário, aqueles com seis ou oito mil pessoas e, para nossa surpresa, o placar eletrônico indicava 700 pagantes. Escalava sua Seleção Brasileira com os nomes de Moroni, Vivinho e Peribaldo.

Nossa última grande estripulia de futebol foi no dia da final entre Flamengo e Santo André pela Copa do Brasil de 2004. Frequentávamos um folclórico bar no Jardim Botânico, o Calamares – o único onde a cerveja acabava uma hora antes da final de um campeonato. Os rubro-negros eram todos, com exceção minha e dele. Fizemos umas bandeirinhas do Santo André de papel, presas em palitos de churrasco. E não é que o time paulista foi campeão, contrariando todos os prognósticos? Pois bem, meia hora depois do fim da partida, pegamos o Astra branco dele e demos duas voltas olímpicas na sede da Gávea com uma bandeira cruz-maltina desfraldada em cima do carro, para depois descermos toda a zona sul da cidade aos risos. Molecagem de garotos incorporados em adultos, dois amigos, um sabendo que o outro navegava velozmente para a morte por câncer.

O grande momento foi num domingo à noite numa birosca perto do Siri da Ilha, provavelmente no ano de 2000. Depois de 250 pastéis, resolvemos tomar drinques saidores. Som alto, música trash, duas garotas interessantes, tudo ficou de lado quando dois menininhos negros bem pequenos, bem humildes passaram vendendo pequenos bichinhos de plástico. Onze da noite, os garotos deviam estar dormindo, descansando, mas trabalhavam à noite para ajudar suas famílias. Naquela noite, tínhamos uma certa grana: havíamos acabado de receber uma grana por um trabalho de pesquisa que realizamos juntos. Um olhou para o outro. Abri a carteira, peguei o dinheiro e comprei as duas caixas de pequenos brinquedos. Os garotinhos ficaram perplexos, atônitos. Pegamos os brinquedos, distribuímos para todas as pessoas da birosca, na rua e o que sobrou deixamos com eles, dizendo para que os dessem a quem vissem no caminho para casa. Um deles começou a chorar, falando que jamais tinha conseguido vencer uma caixa inteira numa noite. Todos nos abraçamos, nós também choramos e fomos embora. Na volta para casa, Linha Vermelha, assaltaram um carro atrás de nós. Corremos como nunca e, mais à frente, avisamos à Polícia, que disparou na contramão:

– Rãraãrãrãrãrã, se Deus existe ajudou a gente hoje. Conseguimos ajudar os molequinhos, chamamos a Polícia, não levamos tiros.

Há exatos dez anos, completados neste 12 de setembro, eu voltava de minha última ida a um dos bares que mais gostava: o Cosmopolita da Lapa. Lá, depois do enterro do Xuru, foi onde a turma de amigos resolveu almoçar. Ninguém dava uma palavra. Não consegui mais voltar.

O que precisava ser dito sobre o meu amigo cabe no capítulo de um livro. Talvez umas trinta páginas. Ele será publicado ano que vem. A dor permanece.

Quando vi o segundo tempo do Vasco ontem e a luta diante da Ponte Preta, pensei na alegria que ele teria – ou teve – depois de tantos dias de sofrimento.

O futebol é um eterno aprendizado. O amor não tem divisão.

Dez anos depois, na vitória ou na derrota, a falta do amigo ao lado ainda é uma lacuna enorme e sem solução.

@pauloandel