Vergonha 2

Papai do Céu me livrou, ontem, de assistir ao vivo o quebra-quebra que a torcida do Vasco aprontou em São Januário. Terminado o jogo e com o estômago embrulhado de ver uma atuação tão pífia e covarde, mudei de canal imediatamente para o jogo do Corinthians e fui tomar um banho para refrescar a mente. Só quando voltei é que as redes sociais e meus amigos flamenguistas, em êxtase, me mostraram o absurdo que estava acontecendo em São Januário.

Tinham total razão em estar felizes.

Acho que o primeiro a ser reforçado é que  a gente (eu também) costuma minimizar episódios de violência e estupidez envolvendo cidadãos com a camisa do Vasco dizendo que “são marginais vestindo a camisa do Vasco” ou “esse não representam o Vasco” etc. Ontem esse argumento de autodefesa, de que somos superiores a esses casos de violência, foi por terra, dada a quantidade de gente que teve participação ativa naquela vergonha. Pior, fizemos isso na frente da torcida da qual sempre debochamos. Os favelados, sem estádio, o time de bandidos. A nossa torcida, tão orgulhosa de “ter estádio para jogar”, resolveu quebrar esse estádio, e justamente na presença do adversário que costuma sacanear justamente por esse motivo. Demos (nós, a torcida do Vasco) um espetáculo deprimente em todos os sentidos. Grande amigo flamenguista, autêntico lacaio das oportunidades, fuzilou: “a Nissan tinha razão”.

Sempre tive medo – sim! medo – de jogos contra o Flamengo. Este foi outro argumento a cair por terra. Claro que o que aconteceu derivou do fato do jogo ser contra eles. Mas dessa vez a violência não teve nenhuma participação do lado de lá. Fomos nós os autores da desgraça. Demos razão aos que descem a lenha em São Januário.

Ontem à noite, outra amiga Flamenguista afirmava que São Januário é um perigo, que o entorno isso, que ruas apertadas aquilo… Vários argumentos que, sabemos, não têm base. Mas como refutar depois daquilo de ontem? Como convencer as pessoas do contrário depois do que vimos?

São Januário vinha tendo um excelente público em suas partidas. Mesmo que não houvesse punição, e claro que haverá, e pesada, quem iria levar seus filhos e mulheres ao estádio nos próximos jogos? De onde o Vasco vai tirar dinheiro para consertar o que foi quebrado e pagar passagens aéreas e hospedagem para mandar seus jogos?

Cai também por terra a minha argumentação de anos e anos com minha mãe. Ela se pela de medo de que eu vá a estádios – mesmo aqui, em Brasilia – principalmente uniformizado. Anos falando que é tranquilo, que não tem problema… O que dizer pra ela depois do que ela certamente verá repetidas vezes na tv? Quantas mães passaram horas de pavor vendo aquilo e esperando seus filhos voltarem pra casa? O que elas dirão quando eles quiserem ir novamente ao estádio?

Acabou a validade do “Mãe, é a torcida do Vasco”.

Uma mãe, de um torcedor de 27 anos, não vai receber seu filho de volta em casa. Morreu num jogo do Vasco.

A vergonha não acabou com o fim do tumulto. o presidente do Vasco deu entrevista, pedindo desculpas (é o mínimo) dizendo que “Isso não é Vasco”.

Infelizmente o ponto central desse texto é exatamente para refutar esse argumento. Isso é, sim, Vasco e enquanto não for encarado como sendo Vasco, continuará sendo empurrado para debaixo do tapete. Aqui em Brasilia saem porradas enormes entre as torcidas de Gama e Brasiliense. Minimizar o problema, reduzindo-o a um grupo isolado de facínoras, não foi solução até agora.

Porém, o presidente fez pior, ao atribuir a revolta de ontem a uma ação orquestrada pela oposição para desestabilizar o seu reinado. É uma ideia tão estapafúrdia, tão desprovida de realidade, que nem merecia ser comentada. Confesso já não ter mais estômago para ver o Vasco ser alvo de chacota.

A torcida do Flamengo berrando “Fica Eurico” para um São Januário emudecido. Retrato da fase em que vivemos.

Parabenizo novamente o Kiko por ter tido coragem para escrever ontem, depois de ter vivenciado aquilo tudo. Repito aqui o que ele disse, misturando com algo que eu escrevi aqui antes. Vem ai eleições. A continuar no rumo perigoso que foi trilhado ontem, com uma batalha campal de frustrações na arquibancada e uma irresponsável politização do episódio, por parte do presidente, caminhamos para um final muito triste como clube.

É hora da oposição fazer uma profunda reflexão de como vai encarar os próximos meses. Vai caber a ela manter a civilidade e evitar que uma eleição de clube de futebol vire uma guerra física. Não podemos esperar tal moderação de quem comanda o clube. Repito minha opinião de que o cidadão em questão deve ser condenado ao ostracismo. E não atacado de frente. É isso o que ele busca. Uma luta em seus domínios.

Deus tenha pena dos Vascaínos e conforte a mãe do torcedor falecido.