Vem aí mais uma rasteira

Certas coisas mudam sem a gente sentir. Às vezes, para melhor. Outras vezes, não. Quando era menino, o bom mesmo era liquidar com os trabalhos de casa e ir para a rua jogar bola, empinar pipa e tudo o mais que a infância permitia. Hoje em dia, a gurizada se conecta até para fazer a lição. Melhorou para as pesquisas. Piorou muito para a distração, já que quando acaba o “para casa” começa a troca de mensagens, os jogos nos consoles e nada de pique-bandeira, queimada e pião.

Ou seja, nem toda mudança vai trazer só vantagens. E nem todo mundo quer mudar. Experimente chamar seu filho para um pique-esconde na hora em que ele está jogando GTA. O moleque vai rir da sua cara. Isso se te olhar.

Como ninguém explicou isso para o Eurico, ele voltou achando que o negócio era o passado. Deu certo no Vasco. Inundou o quadro associativo de mensaleiros, contou com a sorte (ou teria havido alguma influência?) de os árbitros gatunarem um Brasileiro (2011) e um Carioca (2014) do clube e teve o auxílio luxuoso do Roberto Dinamite, que conseguiu mandar o time para a segunda divisão duas vezes – uma delas, em parceria com ele, mas quem se lembra? – em apenas seis anos. Assim, ascender ao trono no reinado de São Januário foi brincadeira de criança.

Nosso Shrek vascaíno julgou que, de volta à casa, era só conquistar o pântano – a federação carioca. Depois, quem sabe, voltar a dar as cartas em todo o reino – na CBF. Para isso, na sua cabeça, rival é inimigo. E ele tratou logo de torpedear Flamengo, Fluminense e Consórcio Maracanã – e este até é… Mirou no programa de sócio torcedor dos dois clubes e meteu bala: meia entrada para todos.

A ideia até que era boa como um conto de fadas, mas escondia uma maçã envenenada. E quem comeu foi a Rainha Má. Faltou a Eurico lembrar que era necessário o apoio firme de seus pares e o respaldo jurídico do “quilo de alimento”. Na primeira pressão, feita especialmente pelo Consórcio Maracanã junto à Casa Civil do Governo do Estado, Rubens Lopes, o Rubinho, espécie de Burro Falante da Federação, roeu a corda e liberou tudo – a meia entrada universal virou história da Carochinha e o ingresso promocional em jogos das 22h se revelou um sapo.

Eurico perdeu. E corre o risco de perder mais. O príncipe encantado da mídia, Eduardo Bandeira de Mello (o riquinho que preside o “mais ajudado”), agora quer vingança, pois xingaram a mamãe dele e o mandaram tomar no… deixa para lá. Pretende fazer duas coisas: lutar para cortar à metade a taxa da Federação (justo, pois hoje está em absurdos 10% da renda dos jogos, o dobro da média nacional) e negociar os contratos de TV no Carioca direto com a Globo, dando um by pass na federação – hoje é a entidade quem negocia e dá o que quer aos times – e nos outros clubes.

Se conseguir, o Lobo Mau vai devorar o vovozinho. Bandeira terá colocado Eurico no bolso, do mesmo jeito que a Patrícia Amorim fez com o Dinamite – só que este sempre foi trouxa e nunca bancou o manda-chuva. Por que, não se iludam, ele vai negociar o dele. E dane-se a parte do Vasco e da federação – e dos demais times. Será o troco no Eurico e no Rubinho. Como ele sai fortalecido do episódio, e como a mídia detesta o Eurico e a Federação, há chances sérias de ele conseguir dar esta rasteira no velho cartolão.

A pergunta que fica é: e agora, vascaínos? Se o presidente do clube não conseguiu antever que a manobra podia dar errado, como é que fica a gestão do Vasco? O respeito voltou mesmo?

Só tenho pena é do torcedor. Vai pagar caro para ver os mesmos jogos ruins do carioca e arrisca a assistir mais um passo da espanholização do futebol: o Flamengo virar campeão de cotas também no Rio de Janeiro.

Que saudade da minha infância…

*****

Não, minha infância não foi fácil. Teve conforto financeiro, mas só fui gritar “campeão” de verdade em 1977, já que em 1970 eu tinha só cinco anos e nem lembro se gritei e em 1974 o título brasileiro não era considerado como é hoje. Foi uma sequência de vices (74, 75, 76) e de decepções tremendas. Escassez de craques. Times botinudos de montão.

vasco 1977 5 posterA redenção foi 1977. Mazarópi, Orlando, Abel, Geraldo e Marco Antônio; Zé Mário, Zanata (Paulo Roberto) e Dirceu; Wilsinho (Fumanchu), Roberto Dinamite e Ramón (Paulinho). Técnico: Orlando Fantoni. Escrevo esse time de cabeça até hoje.

Era um futebol sem cota de TV, sem anúncio na camisa, sem grife de material esportivo. Isso era ruim. Mas era um futebol em que o Vasco conseguia proezas como estas:

GOYTACAZ 1 X 2 VASCO , em Campos, diante de 10.277 pagantes
VASCO 6 x 0 BANGU, em São Januário, diante de 11.921 pagantes
VASCO 4 X 0 CAMPO GRANDE, em São Januário, diante de 7.389 pagantes
AMERICA 1 x 0 VASCO, no Maracanã, para 43.989 pessoas
VASCO 3 X 0 OLARIA, em São Januário, com 5.864 pagantes
VASCO 7 X 1 MADUREIRA, em São Januário, com 11.055 pagantes
VASCO 3 x 0 FLAMENGO, em um Maracanã com 134.787 pessoas
VASCO 3 x 0 SÃO CRISTÓVÃO, em São Januário, com 8,294 pagantes
VOLTA REDONDA 0 X 1 VASCO, no Raulino de Oliveira, para 24,509 pagantes
VASCO 1 X 0 FLUMINENSE, no Maracanã, com 96.047 pessoas
PORTUGUESA 1 X 3 VASCO, na Ilha do Governador, com 12.780 nas arquibancadas
VASCO 2 X 1 BONSUCESSO, em São Januário, quarta à noite, com 10.858 assistindo a virada aos 47 do segundo tempo…
VASCO 3 X 0 AMERICANO, em São Januário, para 17.037 pagantes
VASCO 2 x 0 BOTAFOGO, no Maracanã, para 131.741 assistirem à conquista da Taça Guanabara
CAMPO GRANDE 0 x 2 VASCO, em Moça Bonita, para 4.683 pagantes
VASCO 3 X 0 PORTUGUESA, em São Januário, para 11.522 pagantes
BONSUCESSO 0 X 2 VASCO, no Maracanã, para 22.400 torcedores
AMERICANO 0 X 2 VASCO, em Campos, para 11.958 pagantes
FLAMENGO 0 X 0 VASCO, no Maracanã, com 104.560 pessoas
BANGU 0 X 0 VASCO, em Moça Bonita, com 11.690 pagantes
VASCO 5 X 0 GOYTACAZ, em São Januário, para 8.044 pagantes
VASCO 2 X 0 BOTAFOGO, no Maracanã, diante de 79.997 pessoas
VASCO 2 X 0 AMERICA, no Maracanã, para 41.981 pessoas
SÃO CRISTÓVÃO 0 X 1 VASCO, em Moça Bonita, com 11.966 torcedores
MADUREIRA 0 x 2 VASCO, na  Ilha do Governador, para 8.396 pessoas
OLARIA 0 x 3 VASCO, no Maracanã, para 17.394 pagantes
VASCO 0 x 0 VOLTA REDONDA, em São Januário, para 19.154 pagantes
VASCO 2 X 0 BANGU, em São Januário, para 8.908
VASCO 2 x 0 FLUMINENSE, no Maracanã, diante de 89.368
VASCO 0 X 0 FLAMENGO, no Maracanã, para ser campeão numa quarta-feira à noite, com 152.059 pagantes.

Campeão com mais de 1,13 milhão de torcedores nos estádios e média de público de 37 mil torcedores por jogo. Ô saudade…

*****

Hoje tem jogo com o Madureira e se jogarmos com a mesma disposição e disciplina tática com que atuamos contra a Cabofriense, temos tudo para sair com outra vitória de campo. O time ainda se ressente da falta de um centroavante,  embora Thalles volte semana que vem.  Mas era melhor que o garoto tivesse pelo menos uma sombra, já que Rafael Silva não tem cacoete de homem de área. Aliás, com a volta do menino, ficam duas dúvidas: Doriva vai escalá-lo de cara ou irá lançando o garoto aos poucos? E quem sai do time: Montoya, Bernardo ou Rafael Silva?

*****

A gravíssima invasão do vestiário do Macaé, com roubos e agressões, feita por parte da torcida do Flamengo, será julgada na próxima quarta. A expectativa é que os dois times percam dez mandos de campos cada um. Medida absolutamente inócua. Para o Macaé, por não ter torcida mesmo. E para o Flamengo, porque será obrigado a jogar em Volta Redonda ou Juiz de Fora. O que não é problema. A punição ideal seria dar dez jogos com portões fechados aos dois. Zero de receita. Mas jamais vão aplicar tal pena ao Flamengo. A Flapress não deixa de jeito nenhum.