Vamos ao jogo

Clássico sempre duro, os dois times prometiam no começo e tropeçaram no meio de semana deste Carioca.

Houve um tempo em que o Fluminense costumava prevalecer. Nos últimos vinte anos, o Vasco acerta a maioria das bolas dentro.

Estão longe as grandes finais de 1980, 1984 e até mesmo 2003. Bem longe, assim como a empolgação do Carioca, que acaba deixando quase sempre um gosto de meia-boca em suas mais recentes temporadas. Menos pior do que uma garfada no jogo final.

Minhas lembranças são as do enorme coro de “Vaaaascoooo” no Maracanã lotado, o contraponto da vogal aberta com a fechada, único nos clássicos cariocas. Do outro lado, o pó de arroz fazia nuvem espessa. Roberto Dinamite contra Edinho. Mazzaropi contra Cláudio Adão. Difícil enfrentar Paulo Cezar Caju e Pintinho. Deley e Gilberto equilibravam.

Se me perguntarem qual foi meu Vasco x Flu predileto, volto a 1981. Um jogo que não decidiu título mas se tornou inesquecível.

Oitavas de final do campeonato brasileiro. Mata-mata. Na partida de ida, meio de semana, Vasco 2 x 0. No domingo, o Fluminense só se classificava abrindo três gols de diferença. Massacrou no primeiro tempo: 3 x 0.

Logo no começo do segundo tempo, houve uma confusão na área tricolor e César descontou. O jogo incendiou: os dois foram com tudo à frente em busca do gol salvador. Parecia boxe. Numa arrancada, o mesmo César (pai do Júlio Cesar, lateral que jogou recentemente pelo Botafogo), arrancou pela direita, chutou em diagonal e marcou o segundo.

Ferido de morte, o Flu não desistiu. Mesmo com o resultado na mão, o Vasco ainda queria o empate. Foi uma partida eletrizante. Ao final, esplendor: 3 x 2 Fluminense, Vasco classificado às quartas contra a Ponte Preta. As duas torcidas aplaudindo suas equipes, as adversárias e o jogaço que valeu cada centavo pago – nunca tinha visto aquilo, todo mundo de pé batendo palmas. Ali, aprendi que um jogo de futebol é muito mais do que um título ou uma classificação. Eu tinha doze anos de idade e aquele pode ter sido um dos dias que me trouxe até aqui no futebol.

Muitos anos depois, o belo troco tricolor nos 3 x 2 da Copa União de 1988. Mas eu não estou aqui para aporrinhar vascaínos, e sim para lembrar que adversário não é inimigo, que futebol não existe sem o outro e que respeitar o rival é fundamental – no futebol e na vida.

Amanhã tem um clássico, bem distante de seus melhores momentos. Era jogo para um Maracanã lotado. Será de um Engenhão à meia-boca, com ânimos acirrados e violência estimulada. Difícil pensar num garoto de doze anos testemunhando a peleja e falando desse jogo em 2048, já maduro. Difícil pensar que jogo com quinze ou vinte mil pagantes possa ser chamado de clássico. Tomara que, ao menos no gramado, faça jus à história.

Estranho que Vasco e Fluminense não tenham uma bibliografia conjunta à altura da tradição do clássico. Se o presente não anima muito, o passado foi genial. Na pequeníssima parte que me cabe, vivi para contar. Precisamos de livros.

O mundo do futebol mudou. Sinceramente, eu preferia o de antes.

Quando éramos gigantes, quando éramos reis do sonho e da fantasia que só os clássicos abarrotados permitiam.

Eu nem pensava em lado de arquibancada nenhum: apenas olhava a torcida do Vasco lotada, com suas grandes bandeiras de cruz, e respeitava com meus olhos de menino.

A geral fervilhava.

Venci, perdi, vivi.

@pauloandel