Uma tarde-noite de sonho!

A semana inteira ela me cobrou: “Papai: sábado já sabe, né? Tem Vascão!”. Minha filha cada vez mais fanática pelo Gigante da Colina agora tem um programa predileto todo fim de semana: ir a São Januário ver jogos do Vasco.

Confesso que hoje eu fui meio preocupado… Aquela coisa de pai, sabe…? Eu não me refiro ao clima político do Vasco, mas sim às últimas atuações nada convincentes do time. Mas como ela, do alto de sua idolatria e de seus 9 anos de idade, mesmo diz: “Ganhamos, não ganhamos? Então está ótimo!”.

Mesmo assim as últimas vitórias contundentes do Ceará em conjunto com o “futebolzinho” apresentado pelo Vasco nos últimos jogos me preocupavam. Como ela reagiria a uma derrota frente ao nosso Caldeirão lotado?

Todo jogo ela insiste em me perguntar: “Tal time (o adversário da vez) é bom?”. Hoje respondi que sim e que seria um jogo difícil. Já tentando preparar a cabecinha dela para um eventual revés.

Ledo engano… O Vasco de hoje foi o melhor que eu vi até agora nesse nosso purgatório pela série B. Totalmente senhor das ações, não se abalou nem com o pênalti perdido. O Ceará simplesmente não incomodou. Ao contrário das últimas vitórias (já chegamos à quarta seguida!!), dessa vez ganhamos com propriedade e sem espaço para dúvidas.

Atuações belíssimas de Douglas (apesar do pênalti perdido…), da dupla pela direita Carlos César e Guilherme Biteco (chegaram levemente a me lembrar Fagner e Éder Luiz…), e do onipresente Guiñazu! É incrível como temos a nítida impressão de que tem pelo menos uns três Guiñazus em campo! Como corre, combate, dá opção de jogo e nunca se esconde o gringo!

Marlon também mostrou algo de bom. Fabrício se firma a cada jogo com o cara que desarma e inicia a jogada de ataque. Kleber começa finalmente a dar sinais de vida! Dakson talvez seja o que, na minha opinião, ainda tenha que ter um pouco mais de precisão nos passes, mas acho que taticamente ele cumpre um papel importante, ao dividir as atenções da defesa adversária entre ele e o Douglas. Com isso, nosso camisa 10 ganha algum espaço para pensar e armar as jogadas de ataque.

O primeiro gol foi assim: um belo lançamento do Douglas, uma penetração perfeita do Marlon, cruzamento e o Kleber na hora certa, no local certo e com precisão abriu a contagem a nosso favor. Para delírio da minha filha! Por conta de suas aulas de educação física na escola em que as meninas agora estão praticando futsal, ela me fez comprar uma chuteira igual à do Kleber (aquela de cores entre o rosa e o azul…). “Gooooollll!! Viu pai?!?!? Foi com a minha chuteira! Foi com a minha chuteira!!! Uh! Pula aê! Deixa o Caldeirão ferver, oi!!”.

No segundo gol, Douglas pareceu colocar a bola com a mão para dentro do gol. No momento que eu vi ele pronto para bater e a barreira, deu para sentir: “Ele vai bater sobre a barreira no canto contrário do goleiro…”. Murmurei isso e logo depois da explosão do gol, minha filha berra para todos ouvirem: “Meu pai falou!!! Meu pai falou!!!! Uh! Pula aê! Deixa o Caldeirão ferver, oi!!”.

No final do jogo confesso que foi emocionante vê-la gritando a todos pulmões: “Olééée´!!! Oooooooléééééé!!!”. Passou um filme na minha mente de minhas tardes de domingo no Maracanã, quando levado pelo meu pai era eu quem gritava igual a um louco, e eram os olhos verdes de meu pai que brilhavam.

Ok. Era contra o Ceará, num jogo de série B e friamente o Vasco não estava fazendo nada mais que sua obrigação por sua grandeza e tradição. Mas e daí?!?! Era a MINHA filha que estava ali!!!

Enfim, foi uma tarde-noite de sonhos em São Januário. Sonhos de um time envolvente, que sufoca, imprensa e não deixa o adversário jogar. Sonhos de uma época que fazíamos isso com qualquer um que ousasse a nos desafiar em nosso gramado sagrado. Sonhos de um tempo em que nossa preocupação era sair correndo dali logo após o jogo para procurar nossos amigos rivais e dar aquela zoada gostosa…

Agora acho que nossa Nau aprumou rumo à série A. A viagem ainda é longa e há muito disse-me-disse fora do campo que pode atrapalhar, mas hoje sinceramente, vendo a empolgação da minha filha, senti muita esperança de dias melhores.

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Por conta da enorme procura da torcida pelos ingressos desse jogo, só consegui entradas para o tal setor “premium” de São Januário.

Vamos combinar? Aquilo não é “premium” porra nenhuma! Uma visão torta do campo em que em alguns momentos eu não sabia se a bola estava indo ou vindo… A parte interna que deveria ter algum diferencial em relação aos demais setores do estádio tinha um carpete verde imundo, um arremedo de loja com estoque de camisas pequeniníssimo, um bar onde não haviam guardanapos, cheio para cacete e com apenas um caixa atendendo. Vendendo a mesmíssima pizza tipo “maçaroca” que vende nas sociais.

Pobre São Januário… Agoniza pelo abandono e pela desfaçatez de quem o administra.

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Nessa semana tive a enorme honra de saber que tenho mais leitores do que os 4 ou 5 que eu supunha ter. Meu querido irmão vascaíno Horácio Jr., vascaíno de quatro costados, se dignou a tecer uma crítica (muito bem feita, por sinal), ao meu último texto intitulado “Vergonha e união”.

Como escrevi para ele no Facebook, agradeço enormemente a deferência e em que pese uma diferença aqui ou acolá em nossas opiniões, muito me alegra poder constatar que há vascaínos comprometidos com o bem maior de nosso clube, e com ideais de elevada honestidade e honradez.

Agradeço pelos seus comentários e espero um dia poder bater um papo mais proximamente (fora do mundo virtual em que nos encontramos!).