Um time de altos e baixos

Tive a oportunidade de ver o Vasco em campo, em São Januário, por duas vezes este ano, nos jogos contra o Macaé e o Barra Mansa. Ficaram claros, nestas ocasiões, dois problemas: o time ainda precisa de reforços, para não passarmos sustos no Brasileirão, e sofre do chamado “altos e baixos”. Mais baixos que altos, diga-se de passagem.

As duas apresentações, uma antes e outra depois do Carnaval, mostraram um Vasco completamente diferente. Contra o Macaé, o time atuou bem. Contra o Barra Mansa, foi abaixo da crítica. O motivo é simples: os laterais são fracos e os meias vascaínos sofrem certos apagões inexplicáveis. Marcinho e Bernardo, especialmente este último, parecem ter esquecido de que o Vasco é sua última chance de brilhar na carreira. Marcinho, pelo peso dos anos. Bernardo, pela vida extracampo.

A tendência, aliás, é que um deles, Bernardo, perca de vez a vaga para Júlio dos Santos em pouco tempo. Apesar da lentidão crônica do paraguaio, ele deu mais qualidade ao time do Vasco no clássico contra o Fluminense, a melhor partida do clube neste Campeonato Carioca. E o se time não foi brilhante contra o Bangu, pelo menos soube jogar com inteligência e vencer. Louve-se, também as mexidas que o treinador Doriva fez, acertando o time ao longo da partida.

Já Marcinho ainda deve ficar no time por um bom tempo. Arrisco a dizer que, se Júlio dos Santos se firmar, ele e Bernardo vão brigar por vaga no time. O camisa 10 vascaíno é dispersivo e ainda não entendeu o que é passar pelo Pântano Lamacento e depois ir jogar em São Januário. Não é mau jogador. Talvez não seja jogador para o Vasco.

Com a chegada de Dagoberto, emprestado pelo Cruzeiro, resolveu-se, em princípio, o problema do ataque. Agora temos centroavante leve, trombador e atacante de preparação. Com isso, a preocupação da diretoria deve ser buscar mais um meia de ligação para o Brasileiro. E não se esquecer das laterais. Embora sejam bastante esforçados, Madson e Cristiano são, no máximo, bons reservas.  Isso com muito boa vontade.

Só não podemos nos iludir com o Campeonato Carioca. Qualquer time que pegar embalo pode vencer a competição. Prova disso é que o limitado time do Botafogo lidera a tabela invicto e com o melhor ataque.

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A chegada de Dagoberto é uma boa para o Vasco, qualifica um elenco que é visto (não sem razão) como 16716092351_3e02098af9_otecnicamente inferior aos demais times cariocas, e que terá de ser muito reforçado para o Campeonato Brasileiro. A contratação dele me lembrou a de outro ez-cruzeirense, Tostão, em 1972. Aquela contratação, aliás, foi uma mudança de mentalidade no Vasco, após anos de crise, que culminaram até com o impeachment do presidente Reynaldo Reis – que era apoiado, na época, por um jovem conselheiro chamado Eurico Ângelo de Oliveira Miranda.

A chegada de um selecionável após os anos 60, os da pior crise financeira e desportiva do Vasco – na época não havia Campeonato Brasileiro, nem rebaixamento – foi um tônico para o clube. A torcida abraçou o time. E também o fez quando ele parou de jogar e foi preciso bancar o resto do contrato.

Quem sabe Dagoberto não será o ponto da virada do Vasco?

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E por falar em Tostão, nunca entendi a passagem relâmpago dele na Colina. Até que, em 2010, quando eu trabalhava no Hoje em Dia, de Belo Horizonte, tive um almoço com ele no restaurante A Favorita, em Lourdes. Eu e o diretor de redação, Marcelo Cordeiro, queríamos levar sua coluna para o jornal, pois ele havia brigado com o Estado de Minas e estava de saída.

No meio dos rapapés para seduzi-lo, não aguentei. O lado vascaíno falou mais alto, e mandei na lata. “Sou vascaíno e nunca entendi por que você largou o Vasco? Afinal seu problema no olho já era conhecido. O que houve?”, emendei. Ele, pacientemente, me explicou que o problema de visão incomodava, mas o pior era o ambiente do vestiário, dominado pelo grupo do carteado, como ele mesmo chamou. “O Vasco era uma bagunça”, resumiu.

Aceitei a explicação. Mas ele acabou acertando com o jornal O Tempo. Espero que não tenha sido pela minha pergunta.

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Sou jornalista e realmente me envergonho da existência da Flapress. Como eu previ na coluna do dia 5 de fevereiro, a gravíssima invasão do vestiário do Macaé virou piada. O “mais beneficiado” levou um jogo, que vai cumprir no Engenhão. Uma vergonha. Mas pior foi o silêncio sepulcral da Flapress. Condenação à ridícula decisão? Nem em sonho. Todos ficaram felicíssimos.

E nós, torcedores e jornalistas honestos, com cara de babaca. Para o Vasco, o rigor da lei. Para o “mais ajudado”, a pena mínima e a benesse do silêncio.

E há camaradas meus que dizem que a Flapress é só invenção.

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O Vasco perdeu uma torcedora dia 11. Faleceu Anna Maria Salles de Souza, uma das maiores vascaínas que já conheci. Não ligava para futebol. Ligava para o Vasco. Nascida em Manaus, aportou no Rio em um “Ita”, como era costume (cantado no inesquecível samba do Salgueiro “Peguei um Ita no Norte”). Filha de um português e de uma acreana, foi logo devidamente associada ao Vasco. No clube, frequentou bailes de carnaval e a social, quando jovem. Casou-se com um piauiense vascaíno, forjado na Bolsa de Gêneros Alimentícios. Tiveram três filhas e um filho, todos criados na Selva de Pedra, ao lado daquele Pântano Lamacento, do qual a família se tornou sócia. Todos viraram… vascaínos, é lógico. Frequentavam aquela pocilga, mas ninguém se desgarrou das virtudes ensinadas em casa, muitas vezes a tamancadas. Por isso foi fácil conviver por 23 anos com ela, a minha sogra. E, de quebra, ainda tive a chance de leva-la duas vezes a São Januário, para ver o Vasco jogar. Era lindo ver as reminiscências dos tempos gloriosos do Vasco.

Vai com Deus, eterna dona Anna!