Um recomeço de verdade

Terminado o campeonato, minha mulher, Vascaína, meio que tentando me consolar, pergunta:

– Mas cair não é um recomeço?

– Minha resposta seria SIM, se não fosse a quarta vez que a gente recomeça…

No entanto, tenho razões para acreditar que esta é sim, uma oportunidade de recomeço. Única, pois dada a situação do clube, se o caminho daqui pra frente não for o correto, a própria existência da instuição Vasco da Gama estará em risco.

Conheço algumas das pessoas que integram a diretoria recém empossada para esse grande desafio. São gente que o Vasco me apresentou. Pessoas das quais tenho as melhores impressões. Gente que não precisa do Vasco para viver e que está ali por legítima vontade de ajudar ao clube que ama.

Não se enganem: Futebol é dinheiro. Não existe nenhum outro tipo de negócio que gire a quantidade de dinheiro das origens mais distintas que um clube de futebol. Isso por si só é a razão para que grandes clubes (com exceções) estejam nessa situação falimentar que temos hoje no Vasco. O futebol é mundialmente uma grande lavanderia de dinheiro, pois na enorme maioria das vezes, uns poucos privilegiados têm controle sobre negociações de jogadores, luvas, empresários, patrocínios, cotas, rendas sem qualquer controle externo…

E ai aparecem negociações feitas com objetivo de darem errado. Jogadores que vêm compor elenco, não entram em campo, não recebem, acionam o clube na justiça, fazem acordo. E nesses acordos, comissões…

Todo esse quadro interessa muitíssimo a gente de muita grana, que deseja lavar seu dinheirinho. E por isso, os clubes são, hoje, objetivo de vida de gente do mais alto poder financeiro que quer ter essa oportunidade. Essa gente não quer o bem do clube. São parasitas.

Mas junto deles, infelizmente, uma outra turma orbita. São os puxa-sacos, os seguidores do “grande líder”. Para piorar, normalmente são pessoas com pouquíssima capacidade técnica, pessoas para as quais o mercado profissional está fechado, e que jamais conseguiriam no mundo corporativo, um carguinho de 20, 30 mil reais por mês. O clube com a presença desses mefistos no comando torna-se então a tábua de salvação dessa gente. Muitos são legitimamente torcedores, mas essa motivação cega e suplanta quaisquer linhas da razão. Cega a ponto dessas pessoas literalmente perderem o senso crítico quanto às atitudes dos líderes que seguem. Alguns desses são remunerados por esse apoio. Se tornam cabos eleitorais pagos para publicar textos e imagens para seus seguidores. São influenciadores digitais da torcida, muitas vezes pagos com dinheiro do próprio clube quando os chefes conseguem o poder.

Ontem, na contramão desses movimentos, a diretoria demitiu uma pancada de funcionários, interrompeu o funcionamento de várias modalidades, fechou sedes. Medidas muito impopulares com o claro objetivo de cortar gastos. Teremos um ano MUITO duro, com uma situação financeira tenebrosa, e a disputa da série B mais cascuda da história, onde brigaremos com vários times de grande tradição, como Cruzeiro, Botafogo, Goiás, Coritiba, Ponte Preta, Guarani, Náutico, Vitória.

O Vasco poderia ter decidido por um outro tipo completamente distinto de comando, que provavelmente tomaria atitudes radicalmente distintas da austeridade com a qual essa diretoria atual começa seu trabalho. É possível que tivéssemos um 2021 mais fácil.

Só que essa conta, que começamos a pagar agora, iria chegar, mais cedo ou mais tarde. E quanto mais adiante o Vasco empurrasse essa luta, maior o abismo.

Sucesso aos amigos. Ao Vasco, tudo.