Três da tarde

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Cercado por jornais e um livro durante a manhã de sábado, conversei com Catalano pelo telefone, hábito quase secular. Tratamos das novas produções, uma ou outra bobagem e o resultado do Brasil na final do Mundial Sub 20,  perdendo para a Sérvia.

Depois, espiando a tevê, vi os gols. Bela jogada de Andreas Pereira contra os sérvios. Passou por três. Golaço. Pena que não deu título.

Andreas?

Nunca tinha ouvido falar e pesquisei. O rapaz tem 19 anos, é belgo-brasileiro, filho de ex-jogador, começou na própria Bélgica, jogou anos na base do PSV da Holanda e agora joga no Manchester United.

Andreas nunca jogou no futebol brasileiro. O talento veio de berço, DNA, outrem. Desde já, torço para que se torne um cracão. E promete.

O estranho é quando estes nomes surgem como novas informações apenas quando chegam à Seleção Brasileira. Caso de agora. Na principal tem o Firmino, que ninguém conhecia antes de estrear com a Amarelinha.

Antigamente todo mundo conhecia as revelações de seu clube. Bastava ir ao Maracanã. Às três da tarde, os juvenis entravam em campo para a preliminar. Terminava às quinze para as cinco, pouco antes do jogo principal. Hoje, os garotos surgem em terra estrangeira, não sabemos de quem se tratam. Viraram juniores. As preliminares são indesejáveis: “estragam a grana”(melhor dizendo, o sigilo dos negócios.

O caso de Andreas é diferente, à parte. Tinha dupla cidadania, optou pela brasileira, sempre morou no exterior. E os jovens que vão embora daqui e nem ficamos sabendo?

Uma excelente reflexão sobre o tema pode ser vista em Mata Mata – Stories about Football, Dreams and Life, dirigido por Jens Hoffmann (Doc, 90 min, cor, HD, Alemanha, 2014). Mergulho profundo na realidade das divisões de base, o mercantilismo do futebol e certa matéria-prima descartável denominada promessa de craque.

No mais, li em algum lugar que o Botafogo só tem 100% dos direitos federativos de três jogadores. O Fluminense não fica distante disso. Vasco, Flamengo, qualquer um. O interesse empresarial fica acima do clubístico. Tudo mundo duro, magalhãezi.

A taça do mundo já foi nossa.

@pauloandel