Torneio Octogonal Rivadávia Correa Meyer

Você conhece a história do Torneio Octogonal Rivadávia Corrêa Meyer disputado e vencido pelo Vasco da Gama em 1953? Para muitos, o primeiro de dois títulos mundiais do Gigante da Colina.

No dia 11 de setembro de 1952, a Confederação Brasileiro de Desportos (CBD) informou que a Copa Rio não seria disputada em 1953, devido à antecipação da segunda edição da mesma de 1953 para 1952, a pedido do Fluminense que em 52 comemorava o seu cinquentenário e como havia sido campeão carioca de 1951, gostaria de utilizar o torneio internacional como parte de suas comemorações de aniversário. A FIFA e a CBD aceitaram os argumentos do tricolor que, ao contrário da Copa Rio de 1951 e do Torneio Octogonal Rivadávia Corrêa Meyer de 1953 que foram organizados pela CBD, foi organizado pelo próprio Fluminense. Sugeriu então o Conselho Técnico da CBD que ela (a Copa Rio) fosse disputada de 4 em 4 anos (e não mais de 2 em 2 anos), ficando o certame alinhado à Copa do Mundo, às Olímpiadas e à vindoura Taça Brasil. Porém no dia 25 de setembro de 1952, a CBD divulgou um esboço de calendário para as temporadas de 1953, 1954 e 1955 marcando a “Taça Rio” (Copa Rio) para junho e julho de 1953, o mesmo período em que veio a ocorrer o Torneio Octogonal Rivadávia Correa Meyer, substituindo a Copa Rio.

Em outubro de 1952 houve então acalorado debate sobre manter ou não o mesmo nome anterior (Copa Rio) para o novo torneio intercontinental. Foi em uma reunião na CBD com a participação do presidente da CBD, Rivadávia Correa Meyer, do presidente do Conselho Técnico de Futebol da entidade, Castelo Branco, do presidente da Federação Paulista de Futebol, Roberto Gomes Pedrosa, e de um representante dos clubes da Federação Metropolitana de Futebol (do Rio de Janeiro e cujo nome se perdeu na história). Nesta reunião ficou acertada a substituição da Copa Rio pelo Torneio Octogonal Rivadávia Correa Meyer, comprovando que o planejamento era incluir quatro clubes brasileiros (dois de RJ e dois de SP) e quatro clubes estrangeiros, sendo que os clubes brasileiros seriam classificados de acordo com sua posição no Torneio Rio-São Paulo de 1953 e os estrangeiros seriam clubes (preferencialmente campeões) de Inglaterra, Escócia, Portugal, Espanha, Itália, Iugoslávia, Hungria, Argentina e Uruguai (ou seja, os mesmos países dos clubes que foram os principais convidados à Copa Rio em 1951 e 1952 mais a Hungria).

Não se sabe ao certo a real razão para a alteração dos moldes de disputa do torneio intercontinental, mas a explicação mais aceita reside nas dificuldades encontradas pelo Fluminense para trazer quadros estrangeiros à Copa Rio de 1952. Em função dessas dificuldades, em 1952 o Fluminense chegou a cogitar desistir de realizar a Copa Rio em 1952 e em seu lugar realizar uma competição com 4 equipes brasileiras e 4 estrangeiras, ou seja, nos moldes originalmente propostos em 1953 ao Torneio Octogonal Rivadávia Correa Meyer.

Assim como em 1951, o Torneio Octogonal Rivadávia Correa Meyer teve o mesmo organizador: a CBD, com autorização da FIFA, comprovada pela participação do presidente da Federação Italiana e Vice-presidente e Secretário-geral da FIFA Ottorino Barassi na sua organização. Porém, para o Torneio Octogonal Rivadávia Correa Meyer, Barassi ficou encarregado de recrutar apenas o representante italiano, que poderia ser Juventus, Internazionale ou Milan; contudo, assim como na Copa Rio de 1952, Barassi acabou não tendo êxito em trazer um clube da Itália ao Brasil em 1953. Assim como ocorreu em 1951 (com o Milan) e em 1952 (com o Juventus), em 1953 nenhum clube italiano quis vir ao Brasil disputar a competição da CBD para poder priorizar a Copa Latina.

Em comparação à Copa Rio de 1952, ambos os torneios contaram com os campeões carioca e paulista do ano anterior (Copa Rio de 1952: Fluminense e Corinthians; Torneio Octogonal Rivadávia Correa Meyer de 1953: Vasco da Gama e Corinthians), o campeão português (Sporting, nos dois casos), e em 52 o vice-campeão do Paraguai (Libertad) e o maior campeão paraguaio em 1953 (Olimpia). O Austria Viena participou das Copas Rio de 1951 e 1952, mas participou como substituto do escocês Hibernian, que foi convidado às Copas Rio de 1951 e 1952, mas preferiu não participar- o mesmo Hibernian que participou do Torneio Octogonal Rivadávia Correa Meyer de 1953. O campeão uruguaio em 1952 era o Peñarol, participou da Copa Rio de 1952, e abandonou a competição nas semifinais, sendo eliminado por W.O. para o Corinthians. Em 1953, o campeão uruguaio Club Nacional de Football aceitou participar do Torneio Octogonal Rivadávia Correa Meyer. Apesar de ter aceito o convite, o Nacional foi proibido de disputar o torneio pela Associação Uruguaia de Futebol. Uma tal “junta dirigente” (uma espécie de conselho arbitral dos clubes do Uruguai), decidiu pela proibição por 7 votos a 3. Com a desistência forçada do Nacional e a falta de tempo hábil para o convite de um novo clube estrangeiro, Flamengo e Fluminense solicitaram à CBD esta vaga. A CBD delegou esta decisão de escolha à Federação carioca que optou pelo tricolor em função deste ter conseguido melhor colocação no Torneio Rio-São Paulo de 1953 (quinto colocado). Assim, a diferença relevante entre os quadros da Copa Rio de 1952 e do Torneio Octogonal Rivadávia Correa Meyer de 1953 é que as “vagas” que haviam sido do Grasshoppers/Suíça e do Saarbrucken/Alemanha na Copa Rio de 1952, no Torneio Octogonal Rivadávia Correa Meyer de 1953 acabaram sendo do Botafogo e do São Paulo.

Há ainda uma vastíssima coleção de publicações de jornais brasileiros e estrangeiros da época que em várias oportunidades tratavam o Torneio Octogonal Rivadávia Correa Meyer como uma nova edição da Copa Rio disputada nos dois anos anteriores.

Os clubes foram divididos em dois grupos (como nas edições anteriores da Copa Rio). O grupo do Rio de Janeiro, com jogos disputados no Maracanã, foi formado por Vasco e Botafogo (respectivamente vice-campeão e quarto colocado do Torneio Rio-São Paulo de 1953 – melhores colocados do Rio), Hibernian (bicampeão escocês 50-51 e 51-52), e Fluminense (em substituição ao Nacional do Uruguai, pelos motivos já explicados).

No grupo de São Paulo, figuraram Corinthians e São Paulo (respectivamente campeão e terceiro colocado do Torneio Rio-São Paulo de 1953 – melhores colocados de São Paulo), Sporting (tricampeão português 50-51, 51-52, 52-53 – se tornaria tetracampeão na temporada 53-54) e o Olímpia (na época, líder do campeonato paraguaio de 1953 – que acabou sendo vencido nesta edição pelo Sportivo Luqueño).

O Vasco da Gama se sagrou campeão com um time passando pela fase final do grande Expresso da Vitória, cuja base era formada por Ernani, Augusto, Haroldo; Eli, Danilo, Jorge; Sabará, Maneca, Ipojucan, Pinga, Dejair – Técnico: Flávio Costa. A campanha do Vasco foi a seguinte:
Primeira fase:
Vasco 3 x 3 Hibernian
Vasco 2 x 1 Fluminense
Vasco 2 x 1 Botafogo
Semifinais
Vasco 4 x 2 Corinthians
Vasco 3 x 1 Corinthians
Finais
São Paulo 0 x 1 Vasco
Vasco 2 x 1 São Paulo

Na final, disputada no Maracanã, no dia 04/07/1953, para um público de 36.800 espectadores, o Vasco ganhou por 2 x 1, com dois gols de Pinga tendo descontado para o tricolor paulista o jogador Pé de Valsa (?!?!).

Nenhuma das 3 competições internacionais de clubes de “meio de ano” da primeira metade dos anos 50 (Copa Latina, Pequena Taça do Mundo, Copa Rio e Torneio Octogonal Rivadávia Correa Meyer), foi realizada em 1954, por conta da realização da Copa do Mundo na Suíça no mesmo período do ano, pois a FIFA proíbe a realização de competições simultaneamente à Copa do Mundo. A Copa Latina e a Pequena Taça do Mundo foram relançados em 1955, mais só tiveram edições até 1957 (a Pequena Taça do Mundo chegou a ser relançada no fim dos anos 60 e início dos anos 70, mas sem a importância dos anos 50). Não se sabe ao certo a razão da CBD ter desistido de organizar competições internacionais, mas uma possível causa seriam as grandes dificuldades encontradas pela CBD em 1951, 1952 e 1953 para conciliar as datas das suas competições com a disponibilidade de datas dos clubes estrangeiros, sobretudo a concorrência com a Copa Latina, espécie de precursora da Copa dos Campeões da Europa a partir de 1955-1956.