Torneio Internacional de Paris

Em meados da década de 50, o futebol mundial vivia um período de grande ascensão e afirmação como o esporte mais popular do planeta. No nível mundial, as Copas do Mundo foram retomadas após a II Guerra Mundial e foi um sucesso tanto em 1950 como em 1954. Na América do Sul, no fim dos anos 40, foi disputado o Torneio Sul-Americano de clubes Campeões (vencido pelo Vasco), competição que viria a ser a precursora da Taça Libertadores da América. A poderosa federação europeia de futebol (UEFA) decide criar a Taça dos Clubes Campeões Europeus em 1955, competição que hoje conhecemos pelo seu nome em inglês como “UEFA Champions League”.

Na esteira deste sucesso, a federação francesa de futebol, decide criar um torneio com caráter intercontinental. Um torneio em que sempre se procuraria ter os melhores clubes do mundo, divididos entre as duas maiores praças do futebol mundial: América do Sul e Europa. Coube ao clube francês Racing Club de Paris organizar o torneio que teve sua primeira edição disputada em 1957.

Com partidas sempre disputadas no estádio Parc des Princes e ao longo de seu primeiro período de existência (1957-1966, quando organizado pelo Racing Club de Paris), quase sempre contando com o clube anfitrião, com um grande clube brasileiro de Rio de Janeiro ou São Paulo e com duas outras equipes europeias, foi então criado o Torneio Internacional de Paris.

A participação do Vasco no Torneio Internacional de Paris de 1957 ocorreu em meio a uma excursão do clube aos EUA e à Europa, que o time fez na condição de campeão carioca de 1956. No entanto, várias matérias da imprensa europeia da época anunciavam o Vasco como “Campeão do Brasil de 1956”, durante sua participação no Torneio Internacional de Paris (não existia ainda a Taça Brasil, e o Torneio Rio-São Paulo não fora disputado em 1956). Na época, ainda não existia a Copa Libertadores da América (sua criação seria anunciada em 1958 e seria disputada pela primeira vez em 1960), e o futebol brasileiro era visto na Europa como sendo o melhor futebol da América do Sul.

Além do Vasco da Gama e do anfitrião (Racing Club de Paris), foram convidados o clube alemão Rot-Weiss Essen (campeão da Copa Alemã em 1953 e do campeonato alemão de 1955), e o poderoso Real Madrid.

Considerado simplesmente o melhor time do mundo por ter vencido as duas edições da Taça dos Clubes Campeões Europeus que já haviam ocorrido na época (1955/1956 e 1956/1957), o Real Madrid era uma máquina! Tinha o “péssimo” hábito de golear seus adversários. Se a defesa era uma muralha, o ataque era avassalador, com destaque para o francês Raymond Kopa, o espanhol Paco Gento, o húngaro Ferenc Puskas e, sobretudo, para o hispano-argentino Alfredo Di Stéfano, considerado por muitos o maior jogado de futebol do mundo até o aparecimento de Pelé. Todos eles fizeram parte de uma geração vitoriosa do clube merengue que conquistaria as cinco primeiras edições da Taça dos Clubes Campeões Europeus (1955/1956, 1956/1957, 1957/1958, 1958/1959 e 1959/1960). Testar a suposta invencibilidade daquele Real Madrid foi inclusive, uma das razões que deram motivação à futura criação da Copa Intercontinental de clubes disputada a partir de 1960.

Depois de eliminar os anfitriões por um placar de 3×1, o Vasco da Gama, no dia 14/06/1957, escreveu uma página inesquecível em sua história, ao derrotar o poderoso Real Madrid, por 4×3 na final e levantar a taça da primeira edição do Torneio Internacional de Paris, com uma apresentação que encantou o público e a imprensa francesa, prestigiando a si e ao futebol brasileiro perante o público europeu.

Com esta vitória sobre o Real Madrid, o Vasco voltava novamente a demonstrar seu pioneirismo, que já havia demonstrado ao se tornar o primeiro campeão sul-americano em 1948 (quando, aliás, já tinha derrotado o River Plate do mesmo Alfredo Di Stefano!): na final do Torneio Internacional de Paris em 1957, o Vasco se tornou o primeiro clube não-europeu a derrotar um campeão continental europeu, e único não-europeu a ter alcançado tal feito antes da realização da edição inaugural da Copa Intercontinental m 1960. Além disso, a vitória do Vasco representou o primeiro título do futebol brasileiro (incluindo clubes e Seleção) em solo europeu. Tal era a importância do Torneio Internacional de Paris à época, que foi o único torneio intercontinental (com clubes de mais de um continente) do qual o Real Madrid aceitou participar desde que se tornou campeão até a realização da 1ª edição da Copa Intercontinental e o Real Madrid só não disputou a edição de 1958 do Torneio Internacional de Paris (para poder se preparar para final da Taça dos Campeões Europeus daquele ano, realizada cinco dias depois). Durante todo o reinado do Real Madrid como campeão europeu, de 1956 a 1960, nenhuma outra equipe não-europeia além do Vasco conseguiu derrotar o Real Madrid, nem mesmo o Santos de Pelé, derrotado pelo Real Madrid em 1959 por 5 x 3.

Vale a pena reler o que escreveu no dia seguinte à final, o jornalista Jacques Ferran no jornal L’Équipe de Paris: “E então, bruscamente o Real desapareceu literalmente. Seriam as camisas de um vermelho pálido ou os calções de um azul triste que enfraqueciam a soberba equipe espanhola? Não; é que, antes, apareceram subitamente do outro lado os corpos maravilhosos, apertados nas camisas brancas com a faixa preta, de onze atletas de futebol, de onze diabos negros que tomaram conta da bola e não a largaram mais. Durante a meia hora seguinte a impressão incrível, prodigiosa, que se teve é que o grande Real Madrid campeão da Europa, o intocável Real vencedor de todas as constelações europeias estava aprendendo a jogar futebol.

Vale também muito a pena ver a reportagem exibida na Rede Globo sobre esta nossa conquista, no link https://www.youtube.com/watch?v=wXqkYsMgasc

Na final, o Vasco formou com Carlos Alberto; Dario, Viana, Orlando e Ortunho; Laerte e Válter; Sabará, Livinho, Vavá e Pinga – Técnico: Martim Francisco. Marcaram os gols do Vasco Válter, Vavá, Livinho e Sabará. Di Stefano, Mateos e Kopa descontaram para o time madrilenho.

Depois do sucesso no Torneio Internacional de Paris, o Vasco da Gama seguiu aprontando nos gramados europeus. Conquistou o Troféu Tereza Herrera, com um 4×2 em cima do Athletic Bilbao, e um 3×1 contra o Valência; e em seguida simplesmente aplicou a maior goleada da história sofrida pelo grande Barcelona no seu estádio: 7×2!! O Vasco seguiu excursionando e o saldo final dessa aventura em 1957 foram 10 vitórias em 13 jogos! O Vasco mostrou ao mundo de maneira pioneira o que viria a ser a potência futebolística que se transformou o Brasil na Copa do Mundo no ano seguinte.