Torcer contra não vale

Nunca esqueci: 8 de maio de 1986. O Vasco, campeão da Taça Guanabara daquele ano, recebeu o Americano, time do lateral-direito Cocada, que faria nossa alegria dois anos mais tarde. Tinha tudo para ser um jogo duro, mas tranquilo. Não foi. Tudo por conta de Cocada e do lateral-esquerdo do Vasco, o Lira. Depois de fazer 1 x 0 no primeiro tempo, gol de Santos, o Vasco viu Cocada deitar e rolar em cima do vascaíno para desespero e chuva de xingamentos da torcida. Em menos de 25 minutos, o Americano virou com dois gols de Ferreira, que entrou no intervalo, e um de Cocada. Roberto diminuiu e, quando a coisa parecia que iria virar de novo, pois Ferreira fora expulso por cuspir em Romário. Na saída, deu um soco em Fernando.

A nossa torcida, passional, simplesmente saltou a grade da social e passou a perseguir os jogadores do Americano, que se esconderam no vestiário e não voltaram a campo. Mesmo com o juiz Carlos Elias Pimentel afirmando que o Vasco ganharia os pontos no tribunal, eles não vieram. A derrota neste jogo custou a vantagem na fase final – o título foi parar no rival, com o auxílio das papeletas amarelas, já que não tinham time, mesmo com vantagem de um ponto na fase final, para nos derrotar.  Lira acabou sacado e Antônio Lopes começou a fazer testes. Em um deles, puxou Mazinho para a posição. Sucesso total. Lira acabou vendido. E se deu bem em outros clubes, diga-se de passagem.

O caso acima também serve para ilustrar a passagem de outros dois laterais-esquerdos: Cássio e Diego. Também serve para meias, goleiros, atacantes (que o diga Alan Kardec, hoje no São Paulo) e zagueiros. Ha casos que são patológicos: o jogo começa, o cara toca a primeira vez na bola e erra. Toca a segunda e o corinho vem da social. Na terceira, o cidadão já convive com a vaia antes mesmo de ir na pelota. E aí, meus caros, ela queima no pé. Não há como jogar bem.

Desfilo isso tudo para falar de Bernardo. Considero-o um jogador problema. Fotos e mais fotos nas redes sociais o colocam em posição complicada. Até um cativeiro em favela ele encarou. Saiu brigado do clube para voltar pedindo nova chance duas vezes. Não é o profissional que eu contrataria, mas está lá. É jovem, de cabeça pequena. Acha-se dono do mundo e da bola. Não é.

Tudo isso não credencia ninguém a vaiar em movimento um jogador. Ainda mais em um jogo complicado, que poderia nos levar a um baita vexame – como já vivemos contra CSA, XV de Campo Bom, Baraúnas… Pior: desta vez, contra um time que treinou no Aterro do Flamengo e ainda teve de esperar campo vago dos peladeiros. Felizmente, apesar do comportamento da torcida, ganhamos por 3 x 2, mas deixamos impressa uma marca: o choro copioso de Bernardo.

Isso, claro, vai render pautas e pautas na Flapress. E justamente na semana de um clássico decisivo contra o rival.

Há duas coisas que é preciso fazer urgente no Vasco. A primeira delas é fechar em torno do Bernardo e protegê-lo . Ele não pode, de jeito nenhum, falar a jornalista algum. No máximo, à TV do clube. E fala positiva, sem mostrar desânimo, desesperança ou chateação. É colocar uma pedra no assunto e pronto, sem permitir a fabricação de uma crise. A segunda atitude é com relação à social: é preciso distribuir um código de conduta ali. Ser sócio, tudo bem. De certa forma, somos donos do clube. Mas ser dono do clube não é esbagaçar com o patrimônio. E o Bernardo é um patrimônio do Vasco – por mais depreciado que seja.

Passou da hora de fazermos como outros clubes, que distribuem uma lista de canções, coros e tudo mais que devem ser entoados em campo. Esse negócio de vaiar jogador com cinco minutos precisa acabar, por mais que a paciência do torcedor esteja curta com o período de seca. É preciso entender que a vaia durante o jogo é prejudicial ao Vasco. Depois da partida, é um direito do torcedor.

É isso ou vamos continuar nos sabotando.

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O jogo de domingo será extremamente complicado. Teremos que encarar, mais uma vez, a desvantagem em decisões, algo que nunca conseguimos reverter contra os caras. É preciso jogar com técnica e alma, e só temos a segunda. Mas o caminho ficará mais fácil se os rivais tiverem outra atuação horrível e violenta como a de domingo passado. Porque, depois do lance de UFC protagonizado aos 10 minutos, sem expulsão, o juiz de domingo entrará pilhado para não ser elencado na lista dos árbitros que costumam prejudicar o Vasco sistematicamente.

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Caso o Vasco passe à final do Carioca, terá pela frente ou um tabu ou um freguês. O tabu é nunca ter vencido o Botafogo em finais. E o freguês é o Fluminense, derrotado sistematicamente em finais desde a segunda metade dos anos 1980, com exceção da Taça Guanabara de 2012.

Eu prefiro o Botafogo. Porque está na hora de acabar com uma escrita artificial. Afinal, as finais com o alvinegro resumem-se ao Carioca de 1948 (com pó de mico e tranquilizantes no café e na laranjada do vestiário vascaíno em General Severiano), a goleada de 1968 (este sim, um título sem contestação), à final ridícula de 1990 e à rebolada de 1997 (quando perdemos o campeonato mais ganho do Vasco). Estas foram as quatro únicas decisões entre os dois e o motivo é simples: quando o Vasco estava bem, o Botafogo não chegava e vice-versa.