Sorte sem fim

As declarações de ontem do presidente rubro-negro Bandeira de Mello convidam a uma divertida reflexão sobre o universo da matemática.

O senhor Bandeira, contrariado com as declarações racionais de Peter Siemsen a respeito da incrível sorte da Gávea no Brasileiro 2013, não deixou dúvidas: incorporou os espíritos de Pascal, Leithold, Cauchy e outros heróis da ciência, afirmando peremptoriamente que é matematicamente impossível o envolvimento do Flamengo na incrível escalação de Heverton, pivô do caos recente no futebol brasileiro.

Confesso não ser fácil assimilar a profundidade desta tese, por desconhecer o modelo matemático que a justifique.

Inegável imaginar que, com Vasco e Fluminense à beira do caos na rodada 38, sabedores da necessidade de seus próprios resultados e de terceiros, era difícil cogitar ambos articulando uma trapaça que dependeria de inúmeros fatores ao redor. Vieram caindo toda a competição e só exerceram o malefício no momento derradeiro…

Um torcedor bem-humorado do Flu cravou no Twitter: “Deveríamos ter comprado a Portuguesa para que não escalasse o Heverton. Assim, o Flamengo cairia. Como somos burros!”

A fina ironia é precisa no alvo.

Apesar de contar com a impossibilidade matemática de Bandeira, o Flamengo recorreu à Corte Arbitral de Genebra. Não deixa de ser curiosa a contradição, mesmo com a tradicional posição rubro-negra de desafio ao ordenamento matemático, expressa no tri em dois anos, o tetra com três e outras façanhas notórias.

Talvez não seja hora de fazer piadas sobre onde a impossibilidade matemática foi descrita – para muitos, numa papeleta de cor camisa-da-seleção-brasileira.

Mas não há como deixar de comentar o principal fenômeno probabilístico deixado de lado por Bandeira, talvez por esquecimento ou outros fatores: por que o eixo jornalístico Rio-São Paulo, o maior da América Latina, teve um lapso coletivo de memória e, mesmo com centenas de profissionais, esqueceu-se de noticiar o grave problema de André Santos contra o Cruzeiro, assunto que dominaria o país em 08/12 e poderia ter mudado todo o cenário do futebol brasileiro.

Essa, nem a ciência de um craque como Pascal é capaz de explicar.

@pauloandel