Sócio por obrigação

Meu texto anterior, sobre minha tentativa de assistir Vasco X Atletico Go, em São Januário, domingo pela manhã, teve um grande número de comentários. Dentre eles, dois, transcritos abaixo:
“…Sejam sócios, independente do presidente.”

“O sócio compra pela internet, passa o cartão na roleta e vai ser feliz, não é sócio? tem mais é que se foder!”

Embora essa imprensa vendida tente convencer o brasileiro de que o Flamengo é o time do povo, esse lugar sempre foi e sempre será do Vasco da Gama. Nós somos o verdadeiro time popular, cuja sede foi adquirida e construída sem benesses de governos, com dinheiro de verdadeiros Vascaínos. Todo mundo conhece a história de sermos o clube a abrir as portas aos jogadores negros.

Basta olhar em volta no entorno de São Januário para ver que esse perfil se mantém. Encontra-se ali gente de todas as camadas sociais. Gente humilde que gasta o dinheiro que não tem para ir a São Januário com suas famílias ver seu Vasco jogar.

Basta não fechar os olhos para ver que vivemos uma das maiores crises econômicas da história, com milhões de desempregados país afora. Empresas fechando as portas, pessoas perdendo as esperanças. Este cenário não é segredo para ninguém. Então, quando eu junto essas duas verdades e leio um cidadão escrever que o torcedor vascaíno que não tem um título de sócio do clube tem mais é que se foder, eu sinceramente sinto vergonha alheia. Tem gente que passa necessidade, e ainda assim vai lá, gastar seu dinheiro e torcer pro Vasco. Essas pessoas fazem sacrifícios quase impensáveis para ver o Vasco, enquanto nós estamos aqui usando nossas redes sociais para falar barbaridades como essa.

Na minha visão do que é Vasco, estes torcedores, que encaram dificuldades financeiras, transporte público em condições humilhantes, viajam longas distâncias e dedicam seu tempo e dinheiro suados para ir a São Januário ver o Vasco da Gama jogar, deveriam ser tratados com tapete vermelho, por tudo isso que passam e pelo que o Vasco representa.

Há uma terrível inversão de valores sendo assimilada pelos torcedores de todos os clubes. Ser sócio, sócio-torcedor e ajudar seu time está se tornando uma espécie de obrigação. Quase um imposto que você precisa pagar para poder torcer pelo seu time de coração. Não é uma ajuda, algo que você faz por querer –  e poder! – contribuir com seu clube. Se tornou uma imposição. E se você não paga, “Que se foda” e mofe em filas intermináveis para não conseguir ir ao jogo do seu time.

Estou cansado de ver diálogos sobre o atual estado das coisas no Vasco serem encerrados com o famigerado “Você é sócio?”. Importante: eu acho que os torcedores devem sim ser sócios, mas sou totalmente contra essa nova discriminação que tentam impor ao vascaíno comum.

Para completar o total nonsense dessa situação, não estamos falando de um clube cujos jogos têm lotação esgotada. Temos centenas, milhares de pessoas que querem entrar para assistir aos jogos do Vasco e simplesmente não conseguem. Ou seja, o Vasco está longe, muito longe de lotar São Januário só com os sócios. O Vasco rasga dinheiro quando as pessoas desistem de entrar num estádio com 30, 40% dos lugares vazios. Domingo, as sociais vazias eram um deboche com quem tentou e não conseguiu.

O Vasco não pode maltratar seu único patrimônio verdadeiro. Quem o ama. É isso que eu espero do nosso próximo presidente. Que cuide bem do vascaíno. Do mais rico ao mais humilde. Afinal, isso é o Vasco. Um clube democrático.