Sobre Brasil x Croácia

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Barra pesada

O continente parou para ver a abertura da Copa do Mundo. Antes, as coisas das cores e danças, os rapazes gostaram de Jennifer Lopez e Cláudia Leite, outros saracotearam com o Pitbull. Tempos modernos, o Olodum também. Houve quem reclamasse da festa chinfrim, como se estivesse no evento errado: o maior carnaval do mundo é na Praça da Apoteose, obra de Niemeyer, hoje tão criticado pelos mais ignorantes. Podia ter sido melhor, mas você se lembra da grande festa de abertura da Copa do México em 1986? Ou da Itália em 1990? Não. Os campeões, todo mundo sabe.

Quando os times se perfilaram para a execução dos hinos, eram visíveis a emoção e a tensão no rosto dos jogadores do Brasil. Impossível a frieza naquele momento, capaz de dilacerar corações a três mil léguas. Três bilhões de pessoas olhando e os garotos de 20, 25, 29 anos, milionários, felizes, mas não menos garotos e emocionados. O mundo olhando o Brasil pela fresta do coração. E começou de vez a Copa do Mundo. Antes, alguns xingaram Dilma, mostrando toda a falta de compostura da turma de Higienópolis em não saber perder e consagrando mais uma vez os versos de Cazuza: “são caboclos querendo ser ingleses”. Basta dizer que até Boris Casoy reprovou em rede nacional os palavrões. Se o ministro J. Barbosa lá estivesse e fosse ofendido, ia mandar os stewarts tirarem a plateia da arquibancada. Para a turminha, podendo sonegar o imposto de renda e jogar o dinheiro em paraísos fiscais, aí vão ao êxtase. Por enquanto, apenas pagando treze reais no refrigerante quente do Itaquerão.

Dureza: os croatas marcaram primeiro, numa bobeada da defesa, furo do atacante croata, gol contra de Marcelo mal tendo visto a bola nos pés. Daniel Alves começou mal e assim seguiu. Podia ter sido uma ducha de água congelada. Custou tempo para acontecer luz no fim do túnel: sem grandes jogadas ensaiadas, com o ataque disperso, Hulk e Fred perdidos, a ênfase do jogo ficou nos pés de Neymar (até porque ele prende a bola como ninguém), autor do gol de empate num chute de fora da área. Aos poucos, Oscar foi avançando na partida, muitos cruzamentos, poucas finalizações. Empate difícil no primeiro tempo: Olic, Modric e Rakitic incomodando.

Depois do intervalo, o panorama não se modificou muito. Neymar em cima, pouca criatividade, o Brasil atacava, mas também oferecia espaços generosos de contragolpe. Fred, paradíssimo, então ajudou a decidir o jogo: cavou malandramente a penalidade que resultou em 2 x 1, Neymar, o goleiro ainda tocando na bola, os croatas chiaram muito e o árbitro japonês, fraquinho, aceitou. Tempo para alguns sustos, em especial as trapalhadas de Júlio Cesar, até que no finzinho Oscar decidiu de vez na arrancada e gol de bico que lembrou a sinuca do velho Romário, 3 x 1 na sacola. Também reclamaram da falta do Ramires.

Não houve brilho nem primor, mas aplicação e entrega. Bernard entrou no decorrer e foi um leão. Luiz Gustavo também. A Seleção foi galo de briga e fez o que se esperava: venceu a primeira em casa, alimentou os olhares do planeta e saiu na frente. Muito bonito ver Cafu e Kaká do lado de fora na condição de torcedores inflamados. A velha camisa amarela foi honrada mais uma vez. Oscar foi um monstro.

Sim, a arbitragem do japonês foi pavorosa, é péssimo vencer com a ajuda do apito, mas não é por isso que o Brasil vai devolver à Fifa o Mundial de 1970 porque Pelé quebrou a cara do uruguaio, nem a Argentina vai devolver as Copas de 1978 (comprada) e 1986 (na mão de Deus). Dona Inglaterra 1966 de bico calado e elegantemente hipócrita ao comemorar o gol de Hurst que jamais aconteceu. Se Renato Maurício Prado e sua turma deram chilique, está bom. Se o problema é de ética, os brasileiros tem um excelente segundo semestre para refletirem a respeito sem a velha mesmice de falas repetidas, falsas vanguardas e desfaçatez. Complexo de vira-latas, definitivamente não.

Nas ruas, as pessoas felizes parecem aliviadas. O futebol faz sentido. Ainda existe alegria num mundo cheio de egoísmo, hipocrisia e escrotidão, mesmo que por breves instantes. Um empate entre México e Camarões cai bem, muito bem.

@pauloandel