Sobre as crianças

Tive ontem a felicidade de levar minha menina de quatro anos pela 1a vez a São Januário.

manu

Confesso que tive certo medo de que ela não desse bola e que não achasse interessante e divertido. Pra minha (nossa) felicidade, ela adorou e visitou com o maior interesse as sociais, tribunas Capela de Nossa Senhora das Vitórias e, principalmente, a sala de troféus. Sentou-se nas sociais, olhou pro campo e perguntou se a gente ia ver um jogo do Vasco. Contentou-se (e eu também) com a resposta de que, numa próxima visita ao Rio, a gente vai ver um jogo do Vasco.

Foi uma enorme felicidade. Manu deu a grande sorte de nascer numa família democrática. Ela pôde escolher entre o time do avô, o do outro avô, o do pai, o da mãe, o da irmã do pai, o do padrinho… todos vascaínos. Mas isso não significa um interesse na coisa, uma satisfação e um amor legítimos pelo Vasco. Não quero que minha filha diga – como vemos muito por ai – ser Vasco. Quero que ela seja Vasco, o que é uma grande diferença. E essa visita, num domingo frio e cinzento, serviu plenamente a esse objetivo.

O olharzinho de menina não consegue perceber o estado deplorável da infraestrutura de São Januário. Confesso ter evitado fotografar o pedaço das arquibancadas do parque aquático que consegui ver por sobre os tapumes. Marquise com infiltrações, banheiros muito antigos. Sala de troféus muito mal conservada. Minha mulher, alérgica, não conseguiu entrar tal a alergia provocada pelo local. As taças, as principais de nossa história, oxidadas.

Era um final de semana de visitação de sítios históricos do bairro de São Cristovão. Entre seis locais, São Januário certamente tinha de ser um deles. Mas não precisava passar tanto a sensação de coisa velha, de museu. Eis o que mais me preocupou. Nossa poderosa sala de troféus parecia um museu. Velharia. Estavam ali o brasileiro da 2a divisão, a Copa do Brasil de 2011… É muito pouco.

Bastante gente visitando, muitas fotos e, apesar dos pesares, muitos olhos (como os meus) marejados com a oportunidade de conhecer cantos normalmente inacessíveis do meu clube. Acabei tendo de fazer economia, pois a loja Gigante da Colina permanecia fechada mesmo num dia de visitação intensa. Não gostam de dinheiro. Ou melhor, de dinheiro gostam. Não gostam é do Vasco…

Tenho certeza de que minha filhinha voltou de lá com outra sensação sobre o que é o Vasco. Não mais um jogo que passa na televisão. E tudo isso, por visitar um velho e romântico estádio vazio.

Se puderem, levem seus filhos, sobrinhos, pirralhos em geral ao clube. Vai muito além de levá-los a um jogo, mesmo que do Vasco. Vale o esforço. Sai de lá muito feliz. Ela também.

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Chegando em casa, de volta do mercado, ouço o som de um desses insuportáveis animadores de festinhas infantis vindo do playground do prédio em frente:

“A competição vai começar! Vamos lá! É o time do João Pedro contra o time do Tiago!
(Parênteses: Quando ouvi falar em time, parei pra ouvir o que iria ser dito…)
João Pedro, qual o seu time? (incompreensível)
E o seu Tiago? (incompreensível)
Então vamos lá: é o Barcelona do João Pedro contra o Real Madrid do Tiago.”

A “espanholização”, tão temida por nós e por nossos clubes, criada pelas verbas exorbitantes que serão destinadas aos dois “mais queridos” a partir de 2016, já está implantada há muito, por uma sucessão de fatores.

Por que uma camisa do Vasco, de marca nacional e, por que não dizer, qualidade e acabamento inferiores, custa o mesmo que uma camisa do Chelsea, Manchester United, Real Madrid, Barcelona? Por que parece mais fácil encontrar material de times estrangeiros que de times da própria cidade?

Por que a seleção Brasileira só joga fora do país?

Tirando esses detalhes, há o fator violência. Minha mãe até hoje resmunga quando visto a camisa do Vasco. Tem medo de eu ser agredido na rua. Quantas mães de pirralhos não têm esse medo?

Além disso, a falta de ídolos. Não de craques. Ídolos. Alguém cuja camisa uma criança queira vestir. CR7? Rooney? Lampard. Gerrard. Neymar, vá lá que seja.

Precisamos conter a espanholização. E ela não é só a da Gávea…