Sem torcida?

vasco flu março 2014

Digam o que disserem, não posso nem devo me conformar com estes números ridículos do futebol brasileiro em relação à presença de público. Venho de um tempo em que os jogos eram valorizados, o torcedor era bem menos sacaneado e parte do espetáculo – bem diferente deste 2014.

Os mais apressados tendem a vir com o argumento de que o problema está nos campeonatos estaduais. Uma visão mais astuta do problema permite ver que, se os times de menor expressão foram assassinados de vez pela força da grana que ergue e destrói coisas belas, aí é que a vaca vai para o brejo: eles formam jogadores.

Algum jênio (com J mesmo) teve a brilhante ideia de fazer com que o Brasil, com suas dimensões continentais, tivesse um campeonato nacional do mesmo tamanho do italiano, cuja faixa territorial é pouco maior do que a do Rio de janeiro.

Ah, sim: por mais que os grandes times brasileiros tenham confrontos emocionantes, a sensação do torcedor do Vasco ver seu time golear o Inter de Porto Alegre, por exemplo, é bem menos impactante se o mesmo resultado acontecer contra um de seus grandes rivais cariocas – especialmente no caso do Mais Protegido. O que forjou o futebol brasileiro foi o rol de disputas locais e, no certame nacional, elas têm chance mínima de acontecer.

Depois de três anos de Maracanã parado, retrofitado e totalmente descaracterizado, o povão foi despejado de vez – sem contar o hábito que foi perdido por muitos, já que o Engenhão (hoje largado silenciosamente) nunca teve a mesma empatia que o grande estádio carioca. E mais: as classes médias e alta têm outras atrações rivais aos domingos: praia, shopping, cinema. O futebol ficou em último plano. Quem sempre prestigiou o Maracanã foi a turma do trem, não a do metrô linha 1, sem qualquer ato preconceituoso mas apenas comentando um fato.

Durante décadas, Vasco e Fluminense fizeram dezenas de clássicos empolgantes, apaixonados, com plateias enormes. Domingo, a partida foi de razoável para até boa, movimentada. Mas é inaceitável que onde deveríamos ter pelo menos trinta ou quarenta mil pessoas, apenas quinze mil – e uns 13% destes “de grátis” – se não fossem, seria ainda pior. E pensar que eu via o clássico com setenta, oitenta, cem mil pessoas presentes. Clássico sem público não é clássico, mas sim um jogo de equipes tradicionais. E só.

Tem a porcaria da violência também, mas basta a polícia ser polícia para o problema ser debelado com sobra.

Alguma coisa precisa ser feita antes que o futebol brasileiro desabe de vez. E isso não vai depender de seu principal patrocinador no Brasil – leia-se a Rede Globo -, tendo em vista que seu compromisso primordial é com os expectadores das TVs abertas e fechadas, tanto nas casas quanto nos bares. Se não houver uma pessoa na arquibancada, com a emissora faturando sua audiência, que mal tem? Muito, muito mal mesmo. E justamente pela Globo ter antecipado cotas de patrocínio aos clubes, em sistema semelhante ao do cliente de banco pendurado até o pescoço no cheque especial, tudo vira bosta. Desnecessário falar dos horários ridículos e desrespeitosos das partidas, que parecem encomendados para que o torcedor se desestimule de vez em ir aos estádios. Pelo visto, os exemplos do esporte bem administrado mundo afora não interessam às diretorias dos clubes.

Ou os grandes se juntam e rediscutem esse problema ou daqui a pouco vai ter gente vendo em casa mais os jogos da Champions League do que do Brasileiro.

Agora, muitos darão de ombros. Resta saber qual o futuro da nossa grande paixão pelo futebol daqui a dez ou vinte anos.

@pauloandel

Imagem: PRA