Retratos em branco e preto

Dias como estes últimos servem para reflexão.

Vão muito além do futebol. Mas aqui tratamos é do esporte.

Eu pensei em escrever muitas coisas, mas também refleti se elas teriam alguma utilidade. Afinal, vivemos em um país que diariamente tem sua história editada e subvertida conforme poderosos interesses. Repetimos as mesmas coisas, a força da grana vem e impõe seu jeito.

O fato é que o Vasco lutou muito. Mereceu estar na final do campeonato, tendo tirado o meu Fluminense com méritos – time que tem jogador insubstituível caminhando em campo não merece disputar títulos. E era o campeão carioca de 2014 por mérito até o fim da partida, quando mais uma inacreditável aberração da arbitragem no Rio, sempre incisiva quando o sortudo beneficiado é apenas um time, entrou em campo e decidiu o título.

Era difícil crer que seria repetido o surrealismo da Taça Guanabara, quando o incrível gol de falta de Douglas não foi assinalado. Mas aconteceu e ainda pior: aquela partida não decidia o campeonato. A de domingo, sim.

Falar aqui de verdades editadas, mentiras, subterfúgios, armações, FlaPress, tudo isso e muito mais soaria um replay do que todos já sabemos. O que chama mais atenção é tentar entender como sujeitos que passam os dias a falar contra a corrupção – e em defesa da ética – podem cantar e vibrar porque “roubado é mais gostoso”. Onde está a vergonha dessa gente? Em nenhum lugar: ela simplesmente não existe. Numa sociedade mesquinha, hipócrita e olhando para seu próprio umbigo, o que esperar de uma “nação” que a represente com fidedignidade?

Eu tinha 17 anos em 1985. Já era um torcedor apaixonado pelo Fluminense. Chegamos à final contra o Bangu. Era o time do todo-poderoso Castor de Andrade, que dispensa apresentações. Numa atuação de muita garra, talento e luta, o Flu virou o jogo contra um dos melhores times do Brasil, vice-campeão brasileiro e caminhava tranquilamente para o tricampeonato carioca, quando houve a traulitada em Cláudio Adão, o mundo virou de cabeça para baixo, deu um sururu e o Tricolor conquistou a taça. Muito se discutiu sobre o pênalti e, principalmente, mesmo que fosse marcado, não haveria a certeza de que ele seria convertido em gol.

Ainda lembro de meu pai tenso vendo a TV, eu mesmo me senti mal naquele final. Trinta anos depois, não renego o título – e nem deveria, pois não sou o culpado de erros de terceiros – mas eu preferia que nada daquilo tivesse acontecido. Os amigos vascaínos certamente tem historias semelhantes para lembrar. Os alvinegros. Minha dúvida é entender porque somente um pessoal celebra o roubo como se fosse um Carnaval.

Ainda não conheci um amigo sequer que torça pelo campeão 2014 e já tenha feito um mea culpa sobre o ladrilheiro, o Serra Dourada 1981, as papeletas 1986, a Copa União 1987, a anulação do gol de Dodô e sua expulsão na final de 2007. E agora nessa tunga de 2014. O artifício-padrão é o silêncio sepulcral. Ou o deboche sem caráter.

De resto, as imagens tem voz e texto próprias.

O resumo é de cada um. O de alguns, roubado. Dizem que é mais gostoso. Creio ser nojento.

Mas tudo isso deve ser vir de combustível não somente para os vascaínos, mas também para todos os torcedores do Brasil que são achincalhados por manchetes fraudulentas, fruto de claros interesses nos bastidores. Quanto mais formos prejudicados, mais responderemos.

Essa é uma batalha sem fim, uma batalha contra um império do mal.

@pauloandel

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