Que Deus nos ajude…

Passadas algumas horas após a definição da eleição no Vasco, minha sensação é semelhante a alguém que tem um parente próximo, com uma doença incurável qualquer, que agoniza em um leito de hospital ou em casa, numa situação sem volta em que se prefere até que a morte traga alívio para o próprio e para quem ainda vai ficar por aqui, mas quando efetivamente o falecimento acontece, ao invés do esperado alívio, há a sensação de tristeza profunda…

Eu pelo menos já não aguentava mais essa situação “político-eleitoral” do clube, em que se via claramente interesses próprios acima dos interesses do clube. Um “disse-me-disse”… Muita fofoca, acusações, desmentidos… Um saco! Não via a hora de isso tudo acabar e de voltarmos nossa atenção ao que interessa: a recolocação de nosso amado clube no seu rumo, naquele rumo que seus fundadores estabeleceram de vitórias e glórias. Eleição acontecida e o resultado, na minha opinião, o pior possível. Daí a comparação que fiz no primeiro parágrafo…

Longe de ser simples, toda essa situação merece uma lupa. Algum estudo sobre o que aconteceu para nos levar de volta ao passado, a andarmos para trás.

Eu fui um grande admirador de Eurico Miranda. Costumo a compará-lo a um câncer – com o perdão da má comparação, mas explico a seguir… Toda célula cancerosa foi outrora uma célula saudável, mas e em algum momento, por mecanismos que a ciência ainda estuda, se torna prejudicial ao sistema do qual ela faz parte. Eurico foi muito importante num momento em que o Vasco precisava de alguém para dar chute… um soco nas estruturas viciadas que reinavam no futebol carioca. Foi preciso alguém igual a ele, no estilo “javali bruto” dele para nos recolocar no nosso devido papel de protagonista, de maquinista do trem, como ele mesmo gosta de dizer.

O problema é que esse tempo e esse clima passou. O mundo do futebol evoluiu e o seu estilo que fora necessário, não cabia mais num esporte cada vez mais dependente de marketing, de imagem e que movimenta volumes de dinheiro inimagináveis na época de seu surgimento. E ele não se modernizou. Não evoluiu com o tempo. Ainda acha que tudo se resolve “na porrada”, com muita bravata e baseado na figura de um salvador, de um messias.

Outra tese que sempre defendo é que o pior legado do Roberto foi exatamente fazer boa parte da torcida ter saudades de um messias, de um salvador, de um Eurico enfim… Estamos tão cansados de ver nosso clube achincalhado, relegado a um segundo plano, a um segundo nível no futebol nacional, que abrimos mão do duro caminho de nos modernizarmos para adotarmos o meio falsamente mais fácil de chegar a um bom fim. Tenho certeza de que quem votou no Eurico, quer que o Vasco volte a ganhar títulos. Não interessa de que forma seja. Com acordos escusos na Federação, com lances duvidosos a nosso favor, com viradas de mesa que nos seja interessante… Não interessa! Queremos nos igualar aos demais e para isso, só o Eurico serve.

Não posso concordar com isso. Não é essa a nossa história. Não é essa a nossa essência. Não é isso que nossos antepassados fizeram ao se negarem a migrar para uma liga mais elitista abrindo mão de seus atletas mestiços e de nível social mais baixo. Abrimos mão de participarmos da festa da elite para mantermos os nossos ideais e emitimos aquilo que é o maior orgulho de qualquer vascaíno (a Resposta Histórica).

Como poderemos olhar de cima o nosso maior rival que afirma ser a conquista “roubada” a mais “gostosa”? Que moral teremos para questionar possíveis favorecimentos na justiça desportiva aos nossos rivais? Com que “cara” iremos acusar nossos adversários de ter os seus clubes vendidos a patrocinadores ou a contraventores e assemelhados? Qual vai ser o nosso diferencial? Estamos apenas nos igualando e pior ainda, nos igualando naquilo que é de mais ruim em nossos adversários.

E decisão que veio das urnas em São Januário na madrugada de terça para quarta-feira, a meu ver, longe de ser uma celebração à democracia – algo que deveria preencher o sangue de todo vascaíno que se preze, foi muito mais fruto de um processo de apequenamento do Gigante da Colina iniciado exatamente por aquele que será o nosso novo mandatário.

Que Deus nos ajude…

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Não soa ruim… Muito ruim apenas quase seis mil pessoas decidirem o destino de uma paixão de quase 20 milhões de vascaínos? Isso representa apenas 0,03% da imensa torcida vascaína!

Só há uma maneira de isso mudar: associar-se! Mas, salvo raras exceções, ninguém se associa apenas por amor ao clube. É necessário ter alguma contrapartida. Temos muitos bom exemplos por aí. Por que não copiá-los?!?

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Defendi por muitas vezes por aqui e nas demais mídias sociais que os principais candidatos em oposição ao Eurico, deveriam se unir. Deveriam colocar as diferenças de lado e focar naquilo que os dois tinham em comum (pelo menos no discurso) que era o “anti-euriquismo”. Deveriam aparar as arestas e deixar de lado essa babaquice de definir quem estava em terceiro ou em segundo lugar nas pesquisas e se juntarem para numa frente ampla evitar o pior.

Não foi isso que aconteceu, e o “charuto” sorriu e deitou e rolou na eleição sem mostrar uma proposta concreta que seja a não ser as bravatas de sempre.

Alguns vão dizer, baseados nos números frios da apuração, que ainda faltariam 8 votos para a vitória. Mas se os dois se unissem e se colocassem claramente como a chapa que estava ali para evitar a volta de um tempo que queríamos esquecer, tenho a mais cristalina certeza de que bem mais de quase seis mil sócios votariam. Conheço muitos exemplos de sócios que nem se dignaram a aparecer simplesmente por não acreditarem que o seu voto faria qualquer diferença. E não faria mesmo: estávamos divididos.

Que sirva de lição para 2017.

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Cometerei aqui uma heresia, mas não posso deixar de me manifestar em relação a opinião do patrono desse meu espaço aqui…

Tive acesso ao projeto de reforma de São Januário apresentado entre as propostas do candidato Julio Brant e ele vinha de encontro a tudo que eu penso que deveria ser feito na nossa casa: uma reforma radical. Mais que isso: uma reconstrução de nossa casa.

Nossa velha casa chegou a um ponto em que não há mais espaço para melhorias que não passe pelo “derruba tudo e faz de novo”. O que queremos para São Januário? Apenas mantê-lo como um museu (e aqui sem qualquer conotação pejorativa) testemunha de nossa belíssima história ou transformá-lo em uma arena rentável para os jogos de nosso clube com conforto para nossa torcida e a de nossos adversários?

Se a primeira opção é a escolhida, então fechemos logo um contrato com o Maracanã e deixemos SJ apenas para visitas temáticas e jogos amistosos de menor expressão. Mas se é a segunda opção o que queremos, não há o que pensar: precisamos derrubá-lo e fazer outro.

Temos muitos exemplos no Brasil e mundo afora. Talvez o mais significante seja o caso do “Wembley Stadium”, em Londres. Tradicionalíssimo estádio do “english team” que foi posto abaixo e um belíssimo e moderno estádio construído no seu lugar. Temos ainda exemplos recentes no Brasil como o estádio Olímpico do Grémio e Parque Antártica/Palestra Itália do Palmeiras.

O projeto em si era belíssimo, perfeito para o espaço que temos no terreno de nossa sede, privilegiando os nossos costumes de bate-papo antes dos jogos, aumentando a capacidade e o conforto para a nossa gigante torcida.

Mas o pior disso tudo é ler que entre as “propostas” do ganhador das eleições no clube, consta a de se lutar por clássicos em São Januário… A lição dada pela irresponsabilidade ocorrida na final do Campeonato Brasileiro de 2000 de nada serviu.

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Por fim, queria aqui render as minhas homenagens aos irmãos vascaínos da chapa que formará a minoria (30 conselheiros) como reza o estatuto do clube, do Conselho Deliberativo. O sonho de vocês foi o meu sonho e eu me sinto muito honrado de ser representado por vocês.

CASACA!!