Quando o Maraca encolheu

maracanã já não é tão grande

No inesquecível Jornal do Brasil de 22 de junho de 1985, notícias davam conta dos preparativos para o jogo decisivo entre Brasil e Paraguai pelas Eliminatórias da Copa 1986 do México. Com duas vitórias fora de casa, a Seleção praticamente se garantiria no confronto.

Chama a atenção uma das matérias publicadas. Ela se refere ao “encolhimento” do então maior estádio do mundo. Para a partida do domingo seguinte, haveria “apenas” 144.720 ingressos disponíveis, número inferior ao de um Botafogo x Flamengo em 1979, por exemplo, com 152 mil torcedores presentes.

Com o passar dos tempos, criou-se o chamado “padrão Fifa”: estádios cada vez menores, valorização da televisão como o principal meio para se acompanhar uma partida de futebol, ingressos mais caros e mudança dos perfis das arquibancadas no mundo todo, essencialmente na América Latina.

Que vantagem os clubes tiveram com o encolhimento dos estádios?

O pagamento de cotas de TV no futebol segue a lógica de um hipotético número de torcedores em cada partida, com números pra lá de conflitantes, mas que prevaleceram com o tempo e agora desaguaram no Novo Maracanã pós-Copa. Uma vez que o Vasco manda seus jogos em São Januário – com ótimos públicos, mas ainda muito abaixo do grande  potencial da  torcida vascaína, capaz de lotar o Mário Filho sempre -, não fosse a atual boa campanha do Fluminense no Brasileirão e o outrora maior estádio do mundo seria um desertão: a crise no Botafogo não tem empolgado os torcedores ao comparecimento e o outro time, ah, não deveria sequer jogando por conta do caso Flamenguesa, mas parece que o castigo é cada vez mais real.

O ano de 1986 é emblemático: a Seleção fracassaria no México aka Galinho, o campeonato brasileiro daquele ano só terminaria no verão de 1987 e, depois, nasceria a Copa União, vencida pelo Sport, mas com o troféu de campeão moral cedido pela imprensa à Gávea. Justamente neste cenário, a TV se apoderaria do futebol de vez, fazendo até papel de instituição bancária dos clubes, sempre com finanças combalidas, além de ditar horários, mudar grades e resolver por conta própria o jeito de se ver futebol no Brasil. Hoje, as pessoas veem nos bares, biroscas, rua, casas, qualquer lugar, menos no estádio. Ainda há muito interesse pelo esporte, mas não custa lembrar que cada fanático fora do campo é um sofanático da propaganda.

folha futebol

Dias atrás, a mesma Rede Globo que, também com indevido dinheiro público, tem se beneficiado por quase três décadas do futebol brasileiro, anunciou convocação aos clubes para tratar de assuntos que não são de sua alçada, como a formação de jogadores, por exemplo. Ao mesmo tempo, especulações também surgiram de que a emissora abrirá mão da transmissão da F1 em TV aberta, com desmentido a seguir.

O que estaria por trás de tudo isso?  A proposta de virar “sócia” dos clubes nos passes dos jogadores? A falta de grana? A intenção democrática e sadia de fazer o bem ao futebol brasileiro?

Se hoje o esporte que domina os corações deste país está à míngua, é de se imaginar que o grande parceiro das últimas décadas talvez esteja mais lucrando do que propriamente investindo. Desnecessário dizer da aberração da desproporcionalidade das cotas aos clubes, com prioridade para os mais queridos dos negócios.

A Globo nada teve a ver com a Copa, nem com o futebol brasileiro e nem com algumas de nossas principais mazelas, para não deixar uma gargalhada. Apoiou a ditadura, mas fez um mea culpa hipócrita e arrependido cerca de dois anos atrás.

E deu de ombros ao mercado (Manchete e Tupi) da mesma maneira que sugere agora, em tom restrito, ao futebol. Não sem antes vencer por goleada a conquista do share: afinal, os torcedores pobres que bancavam as arquibancadas foram despejados e substituídos por certa classe média e alta que não tem o jogo de futebol como sua prioridade.

Alguma coisa muito estranha no caminho. Os clubes deveriam sair da passividade e agir.

Já.

Antes que o deserto que se vê na tela no setor Oeste a cada jogo da televisão no Maracanã não tome proporções maiores.

@pauloandel

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