Preto no branco

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A esta hora o clássico carioca do dia ainda não começou e a esta altura do campeonato, para os dois, já  virtualmente classificados para a próxima fase, pouco importa. Os alvinegros mostram que, mesmo no futebol atual, ainda há muito pelo que lutar quando se fala em racismo. Isso não é coisa de Hooligan, que dirá de uma parcela de espanhóis ou mesmo alemães. Por incrível que pareça ainda vemos casos assim no nosso país e a história sabe bem e não pode negar, mas Cruz de Malta foi a porta de entrada para jogadores pardos e negros em um mundo onde o esporte bretão era coisa de branco e de elite.

O ano de 1923 mostrou um Vasco da Gama campeão carioca e então, formado apenas por trabalhadores e de origem humilde, gerando a ira dos grandes clubes. Mesmo assim, lutaram, conquistaram o grande público e quatro anos depois, com a inauguração do estádio de São Januário, puderam enfim, galgar a passos mais largos na trajetória de glórias que fez deste time um dos mais populares e vencedores do futebol nacional.

Não por acaso, hoje também é dia da entrega de prêmios do Oscar. Este ano devidamente tumultuado por razões que o século XXI ainda se permite evidenciar. As redes sociais fizeram do #Oscarsowhite (devido a não indicação de atores e atrizes negros para a disputa) uma bandeira a ser defendida. Os próprios atores negros e vencedores da premiação como Jamie Foxx, Denzel Washington e Sidney Poitier acharam tal celeuma irrelevante, se considerarmos que o que se produz hoje também não os privilegia. Portanto, a luta continua e logicamente aos negros cabe mostrar dia a dia, ainda mais, a sua capacidade.

Ainda falando sobre a sétima arte, um filme italiano chamado “O incrível exército de Brancaleone”, mostrava um grupo de esfarrapados e pobres, que liderados por um sonhador, um Dom Quixote, lutam pela posse de um feudo. Familiar, não?

Em cada campo de várzea ou comunitário, há crianças de todas as cores buscando espaço no esporte nacional. São pequenos Brancaleones querendo se tornar ídolos. Vencer na vida através do esporte. Esqueça a politicagem, esqueça os cartolas, esqueça tudo. A eles devemos a educação e o incentivo esportivo. Claro que nosso país precisa de mais médicos, mais professores, mais dignidade e trabalho. Mas pelo sonho de serem jogadores de futebol eles pensam mais alto e no mundo democrático do esporte, deve haver espaço para todos.

Cabe a cada um de nós expurgar a mente de quem joga bananas no campo e urrar como símios quando um jogador pardo ou negro revela o seu talento, mostrando que ele faz a diferença em um mundo onde o começo do século passado ainda parece tão enraizado. Deixem os Brancaleones, os Quixotes, os atores negros, os juízes, mostrarem que todos estão errados. A luta só continua enquanto houver resistência. E já que ela ainda existe, que continuemos assim. Mas que nunca se esqueçam que o Gigante da Colina abriu as portas. E o futebol brasileiro, mais conhecido por um Rei Negro, deve reverências ao maior exército que o futebol já teve. Os da Cruz de Malta de 1923.