Prestem atenção nas crianças

Domingo à tarde. Sociais de São Januário pela primeira vez na vida. Depois de incontáveis jogos no lado popular do estádio, era uma felicidade estar ali.

Na minha frente, um pai com seus dois filhos, de cerca de cinco anos de idade. Do meu lado, a Gabi, filha do grande Kiko. Enlouquecida de felicidade porque seu grande ídolo, Martin Silva, voltava pro arco do Vasco. O goleiro entra em campo, se aquece junto a Jordi. Aplausos.

O tempo vai passando e o goleiro vai cumprindo sua atuação mais lamentável no gol do Vasco. E a Gabi vai murchando, ficando quietinha, silenciosa. Durante o segundo tempo, o menino, na cadeira da frente, vai perdendo o interesse no que está acontecendo. Termina o jogo de lado pro campo, pernas sobre a cadeira vazia ao lado, deixada por um torcedor que já havia desistido antes. Na volta pra casa, no carro, Gabi dormiu no colo do pai o sono leve das crianças enquanto resenhávamos a desgraça. Graças a Deus sua paixão já está muito bem sedimentada, pois não é fácil aturar aquilo que se viu em campo. E o mundo hoje tenta nos convencer de que nunca é tarde para mudar. Tudo hoje em dia é “opção”.

Antes do jogo começar, perguntei pra Gabi o que a tinha feito gostar tanto de futebol. Ela respondeu que o pai a levou nas primeiras vezes aos jogos, quando mais nova. Depois, a coisa se inverteu. Hoje é ela que exige que o Kiko a leve.

Tenho uma filhinha de cinco anos de idade e, morando em Brasilia, não tenho jogos disponíveis para levá-la a toda hora. E tornar o futebol atraente pruma menina, munido apenas de um aparelho de tv, é complicado. Tornar o Vasco atraente tem sido mais difícil ainda. E isso é um problema para todo vascaíno. Até porque sempre vai haver um inconveniente tentando levar seus filhos para o mau caminho.

Nesses momentos de baixa (quase sofismando a fase atual) é das crianças que tenho pena. O adulto deixa de ser sócio, dá as costas pro time, resmunga pela web, não vai ao jogo. A criança fica indefesa. Outro dia, o irmão de uma amiguinha da Manu teve vergonha de me dizer que é Vasco. Quando perguntei o seu time, sussurrou “vasco” entre os dentes, postura tímida, já prevendo certamente ser sacaneado pelo atual estágio do time. Só depois que eu disse que sou Vasco é que se soltou e falou abertamente da paixão. O moleque é vascaíno pra burro.

Os vascaininhos, quando entram na internet ou vêem os jornais nas bancas, sofrem uma espécie de bullying futebolístico. Se você, que lê sobre futebol, se enfurece com o que lê por ai, imagine uma criaturinha que não tem ainda discernimento para entender que aquilo ali não é a realidade dos fatos, mas o que, pra essa gente, vende jornal. Então, é sempre necessário um cuidado redobrado com elas. Cuidar para que leiam e vejam aquilo que realmente aconteceu e dar-lhes ajuda para se defenderem do que vêem por ai afora. Pois se a minha filha de cinco anos é perturbada por amiguinhas que tentam convencê-la de que o Flamengo é que é bom, que dirá os meninos em idade escolar. Por que ser Vasco e não Barcelona? Chelsea? Pais Saint-Germain?

Prestem atenção nos seus filhos!

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Como disse aqui, semanas atrás, Celso Roth é o final da linha em termos de comando para um time de futebol. Dependesse de mim, só pisaria em São Januário como técnico de time adversário. Os resultados atuais provavelmente são menos frutos de suas (in)habilidades técnicas, à beira do campo, e mais do seu caráter e postura.

Hoje, no Coliseu de Itaquera, os escravos vascaínos serão lançados às feras. Triste situação. Estamos tomando como certa a derrota, apenas torcendo para que seja digna, e de pouco. Isso com um bando (literal, por falta de comando) de jogadores que não deve em nada à grande maioria dos times que disputam esse campeonato.

Vejamos até onde vai essa crise.