Pranchas de isopor

Num sábado de manhã na primavera de 1984, o Posto Seis de Copacabana era sol entre nuvens espessas enquanto eu e meu amigo Xuru bancávamos os heróis do surfe, devidamente amparados com nossas pranchas de isopor. Ondas, não havia. Os homens da pesca ajeitando o grande puçá ou empurrando o barco na ponta de areia.

Perto da areia, dois senhores de sunga conversavam perto da parede do Marimbás. Quando vimos, eram duas referências do futebol.

Paulo Amaral, o introdutor da preparação física no jogo de bola, bicampeão do mundo, alvinegro e treinador campeão brasileiro pelo Flu em 1970. Orlando Fantoni, escudo vascaíno, o “Titio”. Para nós, Seu Paulo e Seu Fantoni.

Passou o vendedor de picolé e talvez tenhamos olhado a caixa gelada com a gula natural das crianças. Seu Fantoni chamou a gente, brincou, comprou os picolés, perguntou nossos times. Seu Paulo numa seriedade de estátua. Xuru, Vasco; eu, Flu. Ele sorriu e se dispôs a falar. Num momento, quase sorrindo, Seu Paulo disse: “Pois é, o Fluminense é de respeito”. Eu gostei, Xuru riu. Seu Fantoni lembrou de grandes jogos no Maracanã. Ficaram conosco cerca de meia hora, até que se despediram. Em nenhum momento se apresentaram, como se fossem meros freqüentadores da praia ou desconhecidos para nós. Dois senhores muito educados, simpáticos, o que outrora se chamava de “boa praça”. Falavam de futebol como se fossem apenas torcedores.

Voltamos para a água, demos mais uma surfada no raso. Depois foi a hora de ir embora, almoçar, ir para os escoteiros, voltar para casa. Contei pro meu pai do Seu Paulo e Seu Fantoni, ele ficou contente. Naquele tempo, não era preciso um sujeito ser do seu time para ser um ídolo – o futebol era cheio deles. Pessoas comuns que iam à praia, brincavam com crianças. Seres humanos.

Tudo bem diferente desses tempos modernos de superstars inalcançáveis – ou mitificados com manchetes hiperbólicas -, coletivas esdrúxulas, invasões de vestiário, estímulo ao ódio e divisionismo. O ídolo você encontrava nas ruas e, em casos como os que citei, era bom demais saber que se tratava também de uma pessoa legal.

Os estádios viviam lotados.

Fantoni era uma referência do Vasco.

Paulo era uma legenda do Botafogo e do futebol brasileiro.

Os surfistas das divisões de base mal tinham quinze anos e viviam no Maracanã lotado, completamente apaixonados por futebol – não apenas o jogo em si, mas a torcida, o estádio, o ritual, o acontecimento.

Há uma semana, os acontecimentos do vestiário em Macaé foram propositalmente esquecidos. Rodada 38? Gol invalidado? Cordão de isolamento no meio da torcida? A decadência escorrendo a céu aberto e muitos fingem não ter nada a ver com isso. Só nós perdemos com a debacle do futebol do Rio.

Antes, vanguarda. Agora, retrocesso. Que tal acordarmos a tempo? O tempo das ondas com pranchas de isopor não espera. Daquele encontro inesquecível de trinta anos atrás, sobrevivi sozinho para lembrar.

Panorama Vascaíno

@pauloandel