Podres poderes

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Começou o campeonato brasileiro de 2014. Meses de disputa para se saber quem será o grande campeão, os times com vaga na Libertadores e quem serão os times a cair para a série B.

As coisas não mudam muito quando o mundo da informação mantém seu padrão de comportamento. É o caso da imprensa esportiva marrom, muitas vezes endossada pelos que se mostram – ou tentam mostrar-se – paladinos da ética e da moralidade.

Há quem sugira, em nome da lisura e da dignidade, que novas – e antigas – trapalhadas da arbitragem no futebol brasileiro não passam de coincidências. Ou de azar.

Os casos recentes da tunga sofrida pelo Vasco no Carioca 2014,  dependendo do receituário, são tratados como “sina de vice” ou “chororô” (recurso para oprimir e dar tom jocoso ao debate). Para alguns, o ideal é que o torcedor do time prejudicado encolha-se de vergonha e preferencialmente suma do mapa. Noutras vezes, só faltam dizer que foi Deus quem quis assim.

Os sites e blogs segmentados na internet constituem importante contraponto à mídia convencional, muitas vezes ligada a interesses conservadores e sempre disposta a martelar sentenças sem maiores preocupações com princípios éticos. Oferecem o contraditório, o confronto, a dialética que não é confortável a quem julga dominar o cenário onde pisa. Muitas vezes, os mesmos sites e blogs sobre futebol não são escritos por jornalistas profissionais, mas sim por gente com talento, criatividade, vivência do assunto e outros atributos que nenhum diploma vazio dará, quanto mais o morde e assopra comuns a certas redações e estúdios.

O que dizer quando um jornalista propõe o desafio a seus leitores para que provem as razões de desconfiança sobre a lisura das competições? Secularmente, o papel de apuração de fatos é da imprensa convencional.

Ano passado, muitos tinham a chance de ganhar o Pulitzer, caso levantassem as razões do incrível silêncio das manchetes em 08/12/2013 após o erro crasso na escalação de André Santos após Gávea x Cruzeiro pela rodada 38 do Brasileiro. A bomba do ano no esporte. O que se viu foi um silêncio de mil cemitérios – e o maior esquecimento coletivo do setor na história do futebol brasileiro. Santa coincidência, Batman!

Depois, tudo é de domínio público: cinismo, contradição, destruição de tabuadas. E por não haver provas cabais, há quem ganhe dinheiro defendendo a moralidade intocável do esporte brasileiro.

Num país em que o Ladrilheiro de 1981, as papeletas amarelas de 1986 e a tentativa de mão grande em 1987 foram praticamente esquecidos, qualquer gol legítimo do Vasco pode ser invalidado e fica por isso mesmo. Alguém vai dizer que percalços como os que vitimaram São Januário recentemente já aconteceram com todos os times. No Rio de Janeiro, entretanto, as incidências são claramente desproporcionais. Basta ler.

Aos poucos, a dita verdade deixa de ser monopólio de alguns. É debatida nas redes sociais, nas ruas, nos bailes e bares. Desta vez, não será possível fazer com milhões de torcedores sejam enganados e aceitem que tudo não passa de coincidência.

Ninguém de bem engoliu a seco o caso Heverton, nem a picaretagem no Cariocão.

Antes do caso Totonero, diversos jornalistas respeitáveis combatiam qualquer questionamento em relação à corrupção no futebol italiano. Os racionais pediram desculpas aos leitores. Os levianos fingiram que nada aconteceu.

Em tempo: Judas Kfouri em 1982 ajudou a desbaratar a máfia da Loteria Esportiva, que nunca mais se recuperou. Trinta anos depois, abençoou a incrível coincidência nos casos André Santos e Heverton. Tratou os leitores que contestaram seu argumento como débeis mentais. Tudo tem seu tempo. E preço.

@pauloandel