Perdeu o futebol. Ganhou o Vasco

1988, Vasco X Fluminense, quartas de final do brasileiro. Um grande time do Vasco perdeu para o Fluminense, com um infeliz gol contra do meu querido Zé do Carmo. Acácio pulou demais, mas a bola entrou no cantinho, bem no nosso lado. Desse jogo, lembro do gol e do inacreditável tumulto para conseguir entrar. Havia poucas bilheterias funcionando, uma multidão querendo entrar. Nessa época, Vascaínos e Tricolores entravam por todos os lados do estádio, sem bolsões de torcida, sem áreas de perigo para qualquer das duas paixões. O jogo caminhava para seu início e milhares de pessoas desesperadas para entrar não viam como. Até que a multidão se enfureceu e literalmente atacou os portões da rampa do Bellini. A polícia não conseguiu conter a invasão, tamanha a multidão. Entrei por ali, num sufoco total. No dia seguinte, me vi no Globo Esporte. Caos. Sobrevivi. Não achei a súmula, mas certamente mais de cem mil pessoas viram a derrota do Vasco e a comemoração do Fluminense. O Vasco viraria um jogo incrível na 4a seguinte, mas perderia a classificação na prorrogação.

Hoje eu não consegui entrar. Fui para o entorno do estádio com meu parceiro de adolescência e seu filho. Não nos encontrávamos para um jogo havia mais de trinta anos. Ficamos na Rua Eurico Rabelo até a confusão estourar. O Chico tava lá. Wagner Pedro também. Milhares de outros como eu também. Famílias. Muitas famílias. Desisti. Voltei para casa caminhando com meu amigo. Na volta, uma tropa de torcedores tricolores criava tumulto entre a Mariz e Barros e a São Francisco Xavier. Tive de dar a volta ao mundo pra voltar pra casa, a dez minutos a pé do estádio. Perdi os 25 primeiros minutos de do jogo.

Quatro minutos depois, pela tv, avisam que abriram-se os portões. Mas eu não voltei. Não quis arriscar novamente minha vida no trajeto de ida ou de volta. Já tinha me arriscado o suficiente. O futebol, o Vasco e todo esse absurdo não merecem a gota de sangue de nenhum torcedor.

Foi um completo absurdo o que aconteceu. A torcida se comportou MUITO bem. De tarde, 15h, chega a notícia da liberação dos portões. 16:30h, entorno do estádio, nega-se a permissão. Era claro que se os portões não se abrissem, o tumulto aconteceria. Não deu outra. E a polícia mostrou as garras. Não havia necessidade para tremenda truculência. Jogaram bombas em cima da população, não de torcida organizada.

Vendo agora, na TV, permitiram a entrada até o intervalo. Logo depois, as portas se fecharam novamente. Se eu tivesse saído de casa, tinha dado com os portões fechados. Impediram a entrada de pessoas com ingresso no começo do segundo tempo.

Acho que a atitude do presidente do Fluminense é absurda, inaceitável. No entanto, não quero entrar nessa seara.

O futebol perdeu. Eu perdi. Muitos vascaínos perderam. A torcida do Fluminense perdeu. Não é hora de tripudiar e de debochar do torcedor tricolor. A torcida adversária deveria poder entrar no estádio. E não pôde. Por causa de uma chuva de decisões catastróficas que colocaram a vida de, sei lá, 50 mil pessoas em risco.

Pelas contas da tv (chute?) tinham quase 30 mil pessoas no estádio, mesmo com os portões abertos entre 29 do primeiro tempo e o começo do segundo tempo. Certamente nem a metade das pessoas que queria ver o jogo conseguiu entrar.

Como é que conseguimos involuir a esse ponto? Como é que sem computador, sem tecnologia, sem metrô!, sem nada, tínhamos 150 mil pessoas no mesmo lugar que agora não consegue comportar 30 mil sem tumultos graves?

Em 2007, num sábado de carnaval, eu, Andel e Prazeres, dois dos meus amigos tricolores, vimos juntos um Vasco 4 x 4 Flu, nas falecidas cadeiras brancas. Saímos dali e fomos pro carnaval. Felizes.

Será que algum dia a gente voltará a ter essa possibilidade?

Por último: faltam X dias para o próximo jogo entre Vasco x Fluminense, que muito provavelmente acontecerá até o fim do Carioca. Será que os diretores de ambas instituições poderiam se sentar e resolver de uma vez por todas essa situação ridícula, ou teremos de esperar uma morte para que isso se resolva?

A presidência que coloca a bandeira do rival na camisa para homenagear os mortos daquela tragédia, tem de ter a força para chamar o seu respectivo do Fluminense para resolver de uma vez por todas essa questão. Espero que o Vasco tome essa atitude.

O objetivo é ganhar o título. O resto deveria ser secundário. Acho que o Vasco tem direito ao seu lado, mas acho que o Vasco tem de ser superior a isso e dar exemplo.

Ganhamos. Estou feliz. Mas o futebol perdeu.