Passe, Neymar!

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A Seleção Brasileira conseguiu sua classificação e agora tem pela frente o difícil Chile no próximo sábado. Em sua fase final, a Copa do Mundo não permite mais erros: é matar ou morrer. E, por mais que tenha sido excelente a vitória anteontem sobre Camarões, é visível um problema do time que dificilmente não acarretará problemas contra adversários de sólida marcação: a falta de ligação entre meio de campo e ataque.

Anteontem mesmo, em boa atuação, David Luiz, zagueiro, foi um dos principais articuladores do ataque brasileiro através de longos lançamentos. Por outro lado, um problema crônico: Neymar, craque incontestável e decisivo, não passa a bola a terceiros nem sob decreto de regime de exceção. Geralmente conduz o lance por toda a intermediária em diagonal, cortando para o meio e chutando. Ou tentando passar por quatro adversários sucessivamente.

Nenhuma dúvida de que o gênio de Neymar precisa ser explorado em todo o potencial. Seu imenso talento é fundamental para o bom desempenho do Brasil na Copa. Ontem mesmo, uma belíssima finalização no primeiro gol e inteligência no segundo ao finalizar no contrapé do goleiro. Entretanto, futebol não é um esporte individual, mas coletivo. Contra Camarões, funcionou, mas a goleada por 4 x 1 não deve servir para mascarar deficiências que podem complicar os próximos passos. Será que o mesmo se dará contra seleções de maior expressão? O Chile é uma delas.

Depois da Copa das Confederações, muito se esperava de outro talento da Seleção: o de Fred, ontem também desencantando e marcando seu primeiro gol na Copa.  Há um fator bastante claro nas redações: a má vontade contra o artilheiro pelo fato de ser jogador do time mais perseguido da imprensa brasileira atual – o Fluminense. Dentro de campo, o que se viu com clareza é que Fred recebeu, se muito, cinco passes nas três partidas que o Brasil disputou. Fosse mais acionado, é claro que a Seleção passaria bem menos sufoco, pois se trata de um artilheiro nato, goste-se ou não dele (e respeitando todos os motivos que alimentam essas duas correntes). Fred marcou 18 gols em 37 jogos com a camisa da Seleção Brasileira, média de 0,49 por partida, bem acima dos 0,33 na fase de grupos da Copa 2014. Mas é bom que se diga: a “fominha” de Neymar não é apenas em relação ao atacante tricolor, mas a todos os jogadores. Passe para o companheiro, só em último dos últimos casos.

Naturalmente considerado um dos melhores atacantes do mundo por motivos óbvios, talvez ainda falte a Neymar a excepcional visão coletiva de jogo para que se torne de vez o número um do planeta – caso de Messi, que já ocupou essa posição. Bons exemplos não lhe faltam em sua origem esportiva: veio do Santos de Pelé, o maior de todos os tempos com 1.091 gols marcados pelo Peixe. Na lista dos maiores artilheiros da Vila Belmiro, estão nomes como os de Pepe (405 gols), Coutinho (370 gols), Toninho Guerreiro (283), Dorval (198) e Edu (183). Todos estes craques foram amplamente municiados em sua carreira por passes do Rei, o que sugere uma ideia do que o craque maior da história do futebol representou em termos individuais e, no caso, coletivos. Nenhum lugar é melhor de se aprender as melhores lições do que na própria casa. Desnecessário falar de Pelé com a camisa da Seleção.

Passe, Neymar! Não é crime ver o companheiro de time marcar o gol em seu lugar. Todos vencem. Jogue seu maravilhoso futebol. Faça seus gols. Conquiste tudo o que puder. Mas não existe o sucesso pleno de nenhum time de um jogador só, por mais que este disponha de total capacidade.

@pauloandel