Panorama na Copa – o Delay

Os anos vão passando e a tecnologia de transmissão melhorando dia após dia. Imagens impensáveis para anos atrás, como o chamado super-slow,  vão se tornando comuns nas transmissões de esporte mundo afora. Jogos transmitidos em HD, qualidade de imagem sensacional. Garantia de um show de imagens na Copa do mundo.

Só que – ironia – a tecnologia é a culpada de um problema que começou a aparecer claramente justamente na Copa da França, em 1998.  E que, ao invés de ser solucionado, desde então só faz se agravar.

Tendo como exemplo um jogo de Copa do Mundo, o chamado delay  é o tempo que a imagem leva para ser captada pela câmera, ser transmitida para o satélite, chegar à emissora para ser distribuída novamente via satélite para as repetidoras locais e depois para a sua tv. Ou seja, apesar de você estar vendo o jogo “ao vivo”, você certamente está vendo o que aconteceu alguns segundos atrás – o tempo para imagem e som fazerem esse “turismo” descrito acima.

Até ai tudo bem. Isso sempre aconteceu. Provavelmente muito pior antes das transmissões via satélite. Sim, antes não existia o satélite. As imagens trafegavam por cabos submarinos e demoravam uma eternidade para chegar da Europa ao Brasil, por exemplo. No começo do uso dos satélites, era comum ver escrito um “via satélite” no cantinho das imagens. Velhos tempos…

Então o que poderia ter agravado esse problema? Novas tecnologias. TV a cabo. Em 1994 já existia a tv a cabo, mas esta não era ainda popular. Então, na Copa, o problema não era sentido.

Em 98, eu morava na Tijuca, próximo ao Alzirão, ponto de encontro tradicional de torcida, onde cerca de 5000 pessoas assistem aos jogos do Brasil. Primeiro jogo. Brasil e Escócia. Na tv de casa, a bola está rolando no meio campo quando ouço o urro de uma multidão ao longe. Passam-se três, quatro segundos e vejo o gol. Ficou claro de imediato que o povo do Alzirão já havia visto o que eu estava vendo. A diferença, na época, se dava entre a transmissão normal e a via cabo.

E por que só percebemos isso na Copa? Porque é a ocasião em que temos a população inteira vendo uma mesma coisa e berrando ou soltando fogos de acordo com o que vê.

Dezesseis anos depois, o problema só piorou, graças às novas tecnologias HD, 3d e afins. Pra vocês terem uma ideia, aqui em Brasília, há um delay de cerca de meio segundo entre as transmissões normal e HD de qualquer programa. Então, se você ligar duas tvs, uma ao lado da outra em canais idênticos, uma em HD e a outra não (ambas com o sinal do mesmo cabo), você certamente ouvirá um eco irritante, dada a diferença de tempo. Essa diferença se explica pela codificação da transmissão, certamente mais demorada para um padrão melhor de imagem e som.

Pior, o problema se agrava com a distância. Falando ao telefone com um amigo no Rio, verificamos que ao compararmos a transmissão de jogos do Campeonato Brasileiro, existe uma diferença entre o que ele vê (com transmissão normal, no Rio) e o que eu vejo (cabo, em Brasília) de inacreditáveis quatro segundos. Em termos de futebol, isso é uma eternidade. Quando ele comemora um gol no Rio, a jogada provavelmente sequer começou por aqui.

Por que não corrigiram esse problema até hoje? Não sei. Alguém diria que é impossível transmitir mais rápido com a tecnologia atual. Mas não entendo por que não usar o próprio problema – sim, o delay! – pra sincronizar as transmissões. Já que uma é mais demorada, por que não atrasar a que vem mais rápido? Resolveria o problema, pois não teríamos mais essa perturbação de ouvir a comemoração do vizinho antes das coisas acontecerem.

Isso garantiria que minha Copa do Mundo não fosse, na verdade, um incômodo VT com imagens em alta definição. Mas acho que ninguém pensou nisso até hoje…