Panorama na Copa – As Figurinhas

Tudo começou com personagens da Disney em tampinhas de Coca-Cola. Pirralho ainda, só ganhava o que meu pai trazia do trabalho. Ficava esperando ele chegar pra pegar as tampinhas. Os personagens eram numerados. Eu tinha quase todos, de 1 a 20. Faltavam dois. Não sei quem eram.

Eis que num final de semana vou à Tijuca, casa de uma tia velha. Lanchinho tradicional – sanduíches de queijo e presunto, suco de laranja, uma coca de um litro, de vidro. Peço a tampinha. Pego e olho: 57 – Patacôncio.

Quase infartei. A minha coleção, quase completa, era um embuste. Estava longe de estar completa. Jamais tinha ouvido falar de Patacôncio, e de repente me surge esse cidadão pra estragar minha coleção.

Desisti ali mesmo.

Depois, já no colégio, saía tapa na cantina em busca das tampinhas de refrigerante que traziam a seleção de 1978. Era um time amarelo e um verde. Mamãe não me deixava beber refrigerante. Então tinha de pedir pras tias da merenda, que enchiam o bolso de tampinhas. Não dei muita bola. Não sei que fim levaram.

1982. Ping pong trazia as figurinhas da Copa. Era muita grana, então tive a (imbecil) ideia de colecionar com dois amigos. Claro, fiquei sem o album no final. Mas não posso dizer que não tive prazer em colecionar. Saía de casa, passava nas Casas da Banha, o supermercado entre minha casa e a escola. Comprava um pacote de dez chicletes e abria todos pra tirar as figurinhas.

Nunca joguei tanto chiclete fora.

McLeish, ruivo, camisa 5 da Escócia. Era a maldita figurinha mais fácil do album. Eu tinha uns 10 McLeish. E me lembro de ver a Copa tendo conhecido muitos dos jogadores a partir de suas figurinhas. Não vi McLeish jogar. Achei muito engraçado quando, recentemente, se tornou figurinha fácil com treinador de times da Inglaterra. Birmingham, com certeza. Acho que o Newcastle também.

O album foi abandonado depois da Copa com umas vinte figurinhas faltantes. Ninguém queria mais saber de colecionar nada depois da derrota do Sarriá.

Só voltei a colecionar figurinhas agora, já burro-velho. Mas sinto a diferença que o tempo e a globalização produziram. Eu conhecia Rummenigge, Platini, grande parte do time da Argentina (campeões da Copa anterior) e mais uma meia-dúzia. E só. A pirralhada começava a ter contato com as seleções estrangeiras em eventuais excursões e amistosos do Brasil (jogamos com a Inglaterra, URSS, Alemanha). Mas ninguém conhecia os times. Você sentava pra ver um jogo de Copa do Mundo e descobrir novos craques, novos times. N’Kono, Kana Biyik, Roger Milla… descobertos em figurinhas e conhecidos nas partidas. Os próprios adversários muitas vezes desconheciam quem estava ali, do outro lado do campo.

Hoje só as zebras mais zebrudas trazem jogadores desconhecidos, pois mesmo esses têm seus expoentes jogando em mercados maiores. Argelinos todos na França. Iranianos na Alemanha, Africanos Europa afora. Brasileiros em tudo o que é canto do mundo.

Esta graça a Copa perdeu para todo o sempre. Os craques estão todos ali, no campeonato inglês, no alemão, no espanhol. Não nos surpreenderemos com as atuações de Cristiano Ronaldo. Algum destaque poderá surgir, mas certamente não será um Laudrup a ser descoberto pelo mundo. Infelizmente.

Esse tempo as crianças de hoje não viverão mais. Ainda que gostem das figurinhas.