Outros clássicos

roberto

Quando eu tinha a possibilidade de ser feliz, com todo o tempo do mundo pela frente, uma das minhas diversões prediletas era juntar qualquer trocado da mesada e partir para o Maracanã ver um jogo de futebol. Quando meu pai passou a deixar que eu fosse sozinho, então virei meu próprio foguete sideral. Coisa de 1981, 1982.

Ia a todos os jogos possíveis do Fluminense e, quando o time jogava fora da cidade ou do estado, não eram poucas as vezes que estive em arquibancadas – e gerais – alvinegras e cruzmaltinas, ao lado de amigos da escola e da vizinhança. Do América também. Fiz isso por vários anos.

Os ingressos eram baratos e, naquela época, a grande chance de se ver futebol era indo ao estádio.

Um cenário mágico: você entrava no estreitíssimo túnel da arquibancada – ou na descida do grande túnel da geral – e, segundos depois, a imagem colossal do Maracanã aparecia à vista. Charme do mundo.

Eu era louco por futebol. Louco pelo Flu, mas sempre ávido por ver os outros times.

Você comprava um cachorro-quente Geneal, um leitinho CCPL e lanchava. Refrigerante era em copo, os vendedores todo de branco, capacetes, pareciam astronautas.

O campo explicava tudo. Se você tem menos de 35 anos, basta espiar no YouTube. Preliminar às 15 h, os juvenis quase tropeçavam nos profissionais que subiam as escadas de acesso ao gramado. Menos de cinquenta mil pagantes? Crise.

Nos jogos mais vazios, a garotada trazia bola dente de leite e batia golzinho na geral. A Polícia ria.

O tempo passou, o futebol virou business, cada vez mais as classes populares foram sendo enxotadas dos estádios brasileiros e agora, trinta e poucos anos depois, os desavisados podem achar normal times da grandeza de Vasco e Botafogo jogarem para nove, onze ou treze mil torcedores.

Não é.

Dos tempos de Ademir Menezes e Otávio de Moraes, passando por Bellini e Paulo Valentim, Mendonça e Roberto, Túlio e Romário até a modernidade de 2014, o mundo mudou demais. Ô, Juninho!

Mas ainda não consigo entender o que pode ser moderno em arquibancadas vazias.

TV, internet, barzinhos, as pessoas veem os jogos de outro jeito. Entendo.

Mas nada justifica um grande clássico sem público. Algo que tem piorado desde o fechamento do Maracanã em 2010, sendo que até agora não recuperamos terreno.

A receita de bilheteria costuma ser ínfima para os clubes. Futebol sem público é aquarela sem cor. Por que não subsidiar o ingresso, por exemplo? Trazer os jovens, as crianças, as familias, espantar violências.

Eu quero meus grandes clássicos de volta. Eu quero ver o Maracanã lotado outra vez com duas torcidas. Podem me chamar de saudosista. Meu Maracanã é outro.

Não é o caso de voltar no tempo, já que é impossível. A dor do impossível. O tempo que voa longe, escorre e não dá adeus – simplesmente avança implacável.

Só queria mesmo era um pedacinho, um golinho.

Como se fosse o cachorro-quente ou a caixinha de leite. Ou um lançamento do Geovani.

Trinta anos passam rápido demais.

@pauloandel