Um outro Maracanã

paulo e catalano placar do maracanã

Esta foto foi tirada numa tarde qualquer de 2008, 2007 ou equivalente, pouco importando a precisão.

Nela estão Zeh Augusto Catalano, fundador deste PANORAMA, e eu.

Um tricolor e um vascaíno abraçados dentro do então (ou quase) maior estádio do mundo.

Faço um sinal de negativo com o polegar.

O motivo está no fundo da foto, atrás de nós.

Uma grande estrutura de ferro, atirada num canto da rampa do antigo Maracanã, onde todos subiam para as arquibancadas mágicas e desconfortáveis.

Os círculos visíveis não deixam dúvidas do que se tratava: compartimentos para bocais de lâmpadas.

Se você tem mais de quinze anos de idade, ao menos se comoveu uma vez na vida ao ler as palavras admiráveis escritas nessa grande estrutura abandonada. Craques, títulos, golaços, alegrias, tristezas, vida.

O placar analógico do Maracanã, que funcionou de 1978 até o dia em que virou ferro jogado, prestes a ser retalhado, retorcido.

É natural que as coisas mudem. O mundo respira incessantemente em busca da modernidade. O progresso, as novas tecnologias, a ambição permanente pelo avançar. Tudo isso faz parte do processo.

Entretanto, uma pergunta é inevitável: para progredir, precisamos destruir o passado?

Não.

É impressionante que ninguém tenha se dado conta de que o placar seria uma excelente e significante peça de museu do futebol brasileiro, de valor inestimável.

Já imaginaram se ele funcionasse num centro cultural e fosse ligado na exibição de um jogo em telão, por exemplo? O impacto que causaria nos mais jovens?

Trinta e tantos anos, joga-se no lixo e que venha o novo.

A desgraça que fizeram com um dos ícones da minha infância pode ser vir como analogia para diversos pensamentos.

Essa coisa de destruir o passado, fingir que ele não existiu, editá-lo odiosamente e viver o imediatismo do presente maquiado com o rei na barriga.

A única derrotada passa a ser a história.

Aliás, a memória também. As duas andam de mãos dadas.

Um tricolor e um vascaínos abraçados dentro do Maracanã, a foto lá de cima.

Algo que hoje se tornou impossível pelos piores motivos.

@pauloandel