As outras zebras

mexicanos na arena pernambuco contra a croácia

E acabou a primeira fase da Copa do Mundo, sendo esta sexta-feira um glorioso dia atípico no Planeta Brasil: nem um joguinho sequer para alimentar nossa sede infinita de ver as partidas, apropriar-se delas – ver, rever, ruminar, torná-las vista de caleidoscópio girando a cada instante.  Grandes seleções já arrumaram suas malas e atravessaram o Atlântico, para metade da turba a festa acabou. Foram dias lindos – ainda teremos mais – onde o Brasil virou de vez o foco do mundo: as grandes capitais e cidades que sediaram os jogos como verdadeiras zonas francas da humanidade, gente de todos os lugares com suas cores, bandeiras, abraços e sorrisos. Incríveis dias de paz num país que ainda tem a violência urbana como uma de suas grandes mazelas.

Mas nem tudo são flores. Claro. Num evento desse porte, arranhões e cicatrizes são inevitáveis, mas nada que desfalque a festa, embora necessite de menção desonrosa.

A malucada chilena que invadiu o Maracanã deu susto. Controlaram. Mas não foi nada pior do que acontece em certos clássicos no mesmo belo novo estádio (esqueçam o verdadeiro).

Todo mundo já falou da dentada de Suárez. Não há mais o que dizer. Apenas a burrice de quem perdeu a chance de se consagrar na Copa e, ainda por cima, um contrato com o Barcelona. Pagou o preço da reincidência: três atos estúpidos em três países diferentes num curto espaço de tempo.

Hermanos metendo ingressos nos arredores do Beira Rio. Cem mil argentinos deslocados para lá, não era uma procissão de beatos. Era preciso ter mais atenção policial quanto a isso.

A porradaria franca comendo na Arena Pernambuco, croatas e mexicanos de lata cheia, eternas e deploráveis questões de “superioridade étnica” esfumaçando a situação.

E a grana firme da turma de Gana? Ameaçaram greve, chegou o malote com três milhões de dólares – tudo declarado a princípio – foram a campo. A classificação não veio. Nos simpáticos Camarões, cabeçada entre jogadores em campo, divisão de grupo. Parece que velhos comportamentos do futebol brasileiro – vide a cartolagem – são copiados à risca por algumas federações africanas de futebol.

Pensando bem, diante de uma competição tão ampla e com tantos interesses em jogo, foi tudo coisa pequena diante do enorme sucesso da Copa 2014 até aqui. Os turistas estão deixando uma nota pesada, há um clima de leveza e alegria no ar. Não, a Copa não resolveu 99% dos problemas do Brasil e nem resolveria: o maravilhoso e apaixonante jogo de futebol não é maior do que a vida. Mas deu ao nosso país a clara condição de belo anfitrião do mundo – e se as políticas de incentivo ao turismo forem bem feitas, os secadores e os que viram no fracasso da Copa a chance de aproveitamento político nas eleições de outubro quebraram a cara. De verde e amarelo.

Amanhã tem Brasil e Chile no Mineirão. Não se pode mais falhar: chegou a hora da primeira grande decisão. Não paro de pensar na canção de Chico Buarque: “Quando vi um bocado de gente descendo as favelas/ Eu achei que era o povo que vinha pedir/ A cabeça de um homem que olhava as favelas/ Minha cabeça rolando no Maracanã.”

@pauloandel