O tamanho da dívida e quem pode pagá-la

Uma pergunta sempre ficou na minha cabeça: afinal, qual era o tamanho da dívida que a gestão de Eurico Miranda deixou no Vasco? Ontem à noite, consegui a resposta, fornecida por gente que conhece as entranhas do clube e que vou manter em sigilo, pois é uma fonte confiável. Não é um número definitivo, mas aproximado, por que até hoje surgem passivos, especialmente trabalhistas, que pipocam aqui e ali, o tempo todo – como a ação que Giovane Gávio ganhou recentemente.

Bem, vamos ao número. A dívida declarada por Eurico era de R$ 80 milhões. Era completamente maquiada. A dívida real ultrapassava a casa dos R$ 300 milhões.

Um estudo comprovando estes números está na mesa do presidente Roberto Dinamite e jamais foi revelado. É mantido em segredo, sabe-se lá o porquê, desde 2009. Talvez como munição para as eleições anteriores (de 2011), talvez como forma de defesa. Afinal, se eu não te ataco, por que você me atacaria? E quando eu falo em ataque não é uma simples troca de farpas – isso faz parte do jogo quando se envolve na gestão de um clube gente que viveu a política de Câmaras e Assembleias que existem neste país. O ataque que eu falo é o que devia ter sido feito, com a eliminação do quadro social do clube da(s) pessoa(s) que fez(fizeram) uma dívida deste tamanho.

O valor é impagável. Por um motivo simples: o clube não gera receita suficiente para quitar nem as despesas do exercício, onde estão incluídos juros e multas da montanha de dinheiro que devíamos. Sem conseguir fechar as contas, anualmente o Vasco encerra um ano com um déficit que pode chegar, vejam só, a R$ 80 milhões em algumas ocasiões. Com isso, a cada ano, esse buraco vai aumentando, comprometendo ainda mais as rendas futuras – e haja adiantamentos de cotas, que sempre geram mais juros que vão impactar lá na frente.

Tecnicamente, o Vasco é um clube inviável. Seu patrimônio está todo penhorado – não há uma sede que não tenha sido dada em garantia de uma dívida, especialmente a tributária, a que cobra os juros mais ferozes.

Mas existe um patrimônio invisível, que, sim, pode salvar o clube. Chama-se torcedor. Na verdade, uma torcida do tamanho das população de Portugal. Se, a cada mês, todos os torcedores do Vasco doassem R$ 10, em média, o clube pagaria toda a dívida em menos de um ano. Em dois, poderia contratar um astro do futebol de primeira grandeza e pagaria seu salário. Em dez, bom, em dez o céu seria o limite.

Mole, né?

Não, difícil para caramba. O torcedor do Vasco está mais do que desconfiado, e com razão, do que os dirigentes fariam com uma montanha destas de dinheiro nos cofres do clube. Pior: o quanto de grana poderia sumir, desviada para este ou para aquele bolso. E aqui não acuso A ou B. Digo apenas o que é realidade: ninguém colocaria R$ 120 de um ano de trabalho nas mãos de um dirigente de futebol. Não dos que temos hoje ou dos que tínhamos no passado.

A solução?

A solução é aparecer alguém com credibilidade, que não precise da grana vascaína e que pacifique o clube, hoje rachado entre euriquistas e anti-euriquistas. Uma pessoa que possa vencer uma eleição limpa, batendo os mensalões que vão fazer o Vasco encolher até sumir. Uma pessoa que queira liderar o processo de reconstrução do clube com dignidade, para deixar seu nome para a história, e não para se aproveitar do Vasco, financeira e politicamente.

Eis meu lado Diógenes de volta, que foi revelado no texto de 20 de fevereiro: sigo procurando este cidadão. Por favor, se o encontrar, me mande um e-mail dizendo quem é.

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TOSTAO2

Quando Tostão veio jogar no Vasco, foi a redenção. Afinal, o clube passara mais de uma década sacudido por crises e sem títulos de peso, fora a primeira Taça Guanabara e um Rio-São Paulo ganho com mais três times, por falta de datas. O Carioca de 1970 trouxe uma taça de volta à sala dos troféus, mas faltava mais. Faltava um ídolo e ele chegou em abril de 1972, com uma Copa do Mundo nas costas.

Só que, em fevereiro de 1973, alegando o agravamento do seu descolamento de retina, Tostão resolveu parar. Em 2010, o encontrei em Belo Horizonte e ele me revelou que o ambiente do clube, cheio de jogador malandro e com o carteado comendo solto, o desanimou.

Bom, isso não o impediu de cobrar o cumprimento do contrato e, para não deixar de pagá-lo, a diretoria da época fez de tudo. Correu listas entre associados e criou até um plástico de carro, que meu pai colou. Com os dizeres “Ajude o Vascão a não dever Tostão”, sua venda ajudou a quitar a dívida. Algo natural em um clube que já fizera arrecadações para comprar o terreno e construir São Januário.

O futebol é moderno, os tempos são outros, mas tudo, outra vez, depende de nós.

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Muitos vascaínos se perguntam o porquê de nenhuma fabricante de material esportivo querer patrocinar o Vasco. Também ontem, só que mais cedo, conversei com um gestor de uma destas empresas. E ele foi claro: o problema chama-se Eurico Miranda. “O cara rasga contratos. Quem vai querer um acordo com um clube que pode ter um presidente assim”, me disse o profissional.

Pois é, quando falo que aquela palhaçada da final do Brasileiro de 2000 custou a credibilidade do clube, ainda tem vascaíno que me contesta e acha que aquele “protesto” contra a Globo foi mais que justo. A resposta está aí: a volta do Eurico significa a volta da imagem distorcida do clube no mercado.

Na atual situação, se renovar com a Penalty já é lucro. E olha que a empresa é uma das piores do mercado…

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O contrato de patrocínio com a Caixa também corre perigo pelo mesmo motivo. A instituição bancária já acendeu a luz amarela por causa da eleição do Vasco e teme uma volta do Eurico – assim como a Rede Globo. O atual acordo do Vasco com a Caixa tem validade de 10 meses e valor contratual de R$ 15 milhões – o que daria um total de R$ 18 milhões, se fosse anual. A renovação incluiria ainda o aumento do espaço, com a ocupação do espaço nas costas e um pagamento maior.

Este espaço, aliás, terá de ficar em branco até julho, quando termina o primeiro ano de contrato com a Nissan, a montadora fujona que se mandou quando o time caiu para a Série B – e vascaíno nenhum pode esquecer disso e comprar um carro dos japoneses. No acordo de rescisão, a fabricante dos carrinhos ruins topou deixar para lá o que pagou, em troca de o espaço ficar vago até o fim do contrato. O que isso significa? Significa que o mercado anunciante é sério e pode até optar por não exibir a marca em um espaço, mas não admite que se retire ela por gracinha alguma…

Em tempo 1: a ocupação do espaço traseiro da camisa do nosso maior rival também pode fazer com que engasgue a parceria com a Caixa. Isso por que os concessionários do terreno público na Lagoa, que eles chamam de “Gávea”, assinaram com a Peugeot por cinco anos e a Caixa, na renovação da parceria, pode exigir frente e verso, como diz o contrato. O bicho promete pegar…

Em tempo 2: sabe qual foi o jogo que inaugurou o estadinho erguido na área cedida pelo poder público? Vasco x Flamengo, em 4 de setembro de 1938. Placar? Vasco 2 x 0. O primeiro gol naquela pocilga foi marcado por Niginho. Sentiu quem manda na “Gávea”?

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Marcelo Grohe está pegando tudo no Grêmio. Ano passado, quase veio por empréstimo para o Vasco. Se viesse e evitasse metade dos frangos que nossos três goleirinhos tomaram, o clube não teria caído para a segundona. Alguém precisa ser responsabilizado por isso.

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Hoje tem Resende x misto do Vasco, em Manaus, pela Copa do Brasil. Aposto em um 2 x 0 fácil dos reservas. Aliás, ponto para o Adilson Batista, que já entendeu que Campeonato Carioca só não é importante para jornalista e poupou o time titular. Para a torcida, é fundamental. Ainda mais depois de 11 anos na fila. E digo mais: quem ganhar a decisão vai comemorar como um louco pelo Rio.