Os males da base

Baixinho

Todo mundo sabe: com o passar dos tempos, especialmente de uns vinte anos para cá, as divisões de base dos clubes foram cada vez mais pasteurizadas e tomadas por rigores científicos, de tal modo que os times são formados quase com a mecanização estilo Ford: zagueiros tem que ser muito altos, atacantes também. Quem tiver velocidade, vai para a lateral. Quem tem força física, vira volante. E a criação no meio? Salve-se quem puder.

Resultado: times cada vez mais limitados, o predomínio do futebol-força, o talento deixado de lado e tudo acaba desaguando nos 7 x 1 da Alemanha contra o Brasil, numa tarde em que parecia que as camisas das seleções estavam trocadas, isso caso fosse num passado distante.

Antigamente era fichinha: clássico no Maracanã às 17 horas, preliminar às 15, os torcedores conheciam seus times de juniores do goleiro ao ponta-esquerda. Na última fase, Tiba, Pirata, Bismark, William. Anos depois, o Brener e o Hélton. Hoje, as partidas são disputadas no caixa-prego de arrebol; assim, fica mais fácil para se negociar jovens atletas sem que a torcida fique sabendo.

Voltando ao estilo Ford, felizmente não era coisa de outrora. O Vasco poderia ter ficado simplesmente sem alguns dos maiores jogadores da sua história: Geovani, Mauricinho, Romário (sim: ele mesmo!) e Mauro Galvão. Desses, possivelmente os dois atacantes rodariam em função das baixas estaturas. Geovani, cracaço, mas com 1,68, teria dificuldades em jogar no meio. E com 1,80, Mauro hoje nem passaria perto da zaga. Será que essa metrologia faz algum sentido?

É natural imaginar que, em tempos onde a condição física tem muito mais importância do que antigamente, seja fundamental o desenvolvimento corporal dos atletas de futebol. Sim, mas e o essencial? O passe, o drible, a improvisação? Eram os valores que nos levaram pelo menos a quatro das cinco estrelas da Seleção Brasileira, afora tantos outros times sensacionais montados.

Não se trata de romantismo ou de voltar ao passado, mas sim tirar dele o melhor para tentar resolver deficiências atuais. Regredimos tecnicamente no Brasil. Os resultados e partidas deixam isso claro. Precisamos no Brasil de um salvador como Neymar, indiscutivelmente um jogadoraço, mas pergunto aos mais velhos: nos anos 60, 70 e até 80 quantos Neymares tínhamos em cada time? Por pouco tempo, o Vasco teve um jogador muito parecido, tragicamente morto em acidente automobilístico: Dener, em 1994, curiosamente há exatos vinte anos.

No futebol brasileiro deveria valer o ditado em latim “Mens sana in corpore sano”: mente sã no corpo são. A perfeita cabeça do jogador brasileiro no mundo da arte, enquanto o corpo bem preparado e longe de noitadas segura as pontas. Um dia foi assim.

@pauloandel