Os goleiros de futebol de mesa

Quem, como eu, jogava botão no milênio passado, anos 80, provavelmente tinha um goleiro de chumbo derretido. Eu tinha dois. Herdei de um primo, cujo pai amava futebol. Ele, muito mais afeito à música, não queria saber de botão. Eram três times. Brasil, Holanda e… Botafogo. Paciência, era o time do meu tio. E os botões eram ótimos.

Voltando aos goleiros, eram bem bonitos, fechados com contact. Eram de chumbo derretido em caixas de fósforo. Sim, amigo, as caixas de fósforo eram feitas de madeira e guentavam chumbo derretido. Não eram desse papelão mequetrefe de hoje em dia, cuja parte porosa, onde você deveria riscar os palitos, termina antes dos fósforos. Coisa feita pra durar.

O goleiro de botão fica lá, paradão. Na hora de um chute a gol, o oponente tem a oportunidade de arrumar sua posição.

Num jogo de futebol, não. Cabe ao próprio goleiro decidir se sai pra cortar o cruzamento ou se espera, passivamente, a defesa agir, o atacante lhe estufar as redes ou a sorte lhe sorrir. E este Campeonato Carioca foi decidido exatamente assim. Em dois jogos, três lances praticamente idênticos com três falhas dos goleiros.

Que bom que a sorte nos sorriu.

A falha de Jefferson no primeiro jogo, uma hesitação de um segundo apenas, nos deu a vantagem que foi levada para o segundo jogo. Em se tratando do goleiro que é, com pretensões de ser o titular da seleção, foi uma falha inaceitável, primária e que – saberíamos depois – definiria o campeonato. Menos mal que tenha tido a hombridade de aceitar o erro, ao contrário de muitos outros, que varrem para o tapete.

Martin Silva é, disparado, o melhor goleiro que temos desde o inesquecível (e injustiçado!) Helton. Mas por melhor que seja, não é infalível e nem perfeito em todos os fundamentos. Quando deixado cara-a-cara com um atacante, talvez seja o melhor goleiro que já vi. É grande, calmo, frio, sai de olhos abertos (coisa que poucos goleiros fazem!) e, com isso, se torna um verdadeiro paredão quando atacado à queima-roupa.

martin-botafogo

Seu ponto fraco é justamente a bola que lhe é alçada sobre a área. O atacante do Botafogo cabeceia a bola já de dentro da pequena área, absolutamente solto. No que aprendi de futebol, era bola pra sair e socar bola, atacante e tudo pra bem longe. Um choque entre os dois resultaria provavelmente na marcação de uma falta pro Vasco. Mesmo se pulasse atrasado na bola, certamente atrapalharia o atacante do Botafogo. Ao não sair, virou passageiro do lance. Colado na linha de gol, só resta rezar para que o outro erre a cabeçada ou consiga a proeza de acertá-lo, tendo mais de sete metros de gol à sua disposição. Como vimos, a bola foi no ângulo e a taça estava indo para os pênaltis.

Quis o destino que o campeonato fosse decidido em lance idêntico, do outro lado. O gol de cabeça de Rafael Vaz é ainda mais inaceitável, porque a cabeçada é dada a dois passos da linha de gol. Visto por trás, Jefferson corre de um lado para o outro do gol, ao invés de dar dois passos adiante e interceptar a bola, que vai cair dentro da sua pequena área.

https://www.youtube.com/watch?v=6hgDjIjRYhE

Eu duvido que o grande Acácio tomasse qualquer desses gols. Mas eu tenho certeza de que Carlos Germano, o goleiro tão adorado por muitos de nós, vascaínos, tomaria os três.

Não saber saber sair do gol não é um fenômeno isolado do futebol brasileiro. Parece uma arte que vem sendo “desaprendida” há anos e que tende a desaparecer. Em quase todo jogo se vê bola cruzada sobre a pequena área zumbindo na cara dos goleiros, beques desesperados tendo de cortar bolas de quase dentro do gol e goleiros inertes, colados à linha final.

Parece uma fuga da responsabilidade. Ouvi pouquíssima gente creditar esses dois gols de domingo a erros dos dois goleiros. É como se o arqueiro pensasse “me deixa aqui quietinho, porque se eu sair e errar (como havia feito o próprio Jefferson no jogo anterior), o mundo cai na minha cabeça”.

Quase como saltar que nem um louco para um lado qualquer nos pênaltis.