Oportunismo

Um time de jogadores experientes, cujo esquema está funcionando direitinho. Uma maratona de jogos os  mantêm em ação constante e faz com que essa engranagem gire. A espinha dorsal do time: um grande goleiro, uma parelha de beques entrosada e que, hoje se pode dizer, das melhores do país, e no meio de campo um bando de cães de guarda permitindo a um dos únicos craques em ação no país desfilar seu repertório e ganhar os jogos que aparecem. Com isso, se colocou 11 pontos à frente do quinto colocado da Série B, tornando (imaginávamos) o segundo turno do campeonato apenas um arrastado passeio obrigatório. Os pontos fraquíssimos: dois centroavantes inúteis. Um garoto da base que, depois de um começo promissor, saiu completamente de prumo e um grandalhão veterano. No banco, um ponta direita tentando ressuscitar a carreira de sucesso depois de um caminhão de lesões terríveis e anos parado. Na lateral direita, revezamento entre duas promessas que não se firmam e não repetem uma boa atuação no jogo seguinte.

Poucas e pontuais contratações no meio do campeonato. Junior Dutra (que mal estreou), Éderson – que começou muito bem mas já afundou com o resto do time e o inexplicável Fellype Gabriel – este sim, um grande erro.

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Eis que então o campeonato para, e a rotina de jogos e viagens e concentrações desses caras é interrompida por quase 20 dias. Ao invés de dias e dias fora do Rio, em hotéis, com alimentação controlada, essa turma, já mais velha, ficou em casa, com suas famílias, confortos, vida mansa.

Volta então o campeonato. O goleiro vai pro Uruguai, de onde ainda não voltou. O craque está meio baleado, contundido. Tecnicamente e fisicamente, o time inteiro caiu por causa desse período sem ritmo. Então, o que acontece? O Vasco, que é disparado o melhor time da competição em termos técnicos, nesse quesito, está nivelado por baixo com os demais times, pois as peças principais estão fora de forma. Morre ai a diferença fundamental entre nós e o resto das equipes da Série B. Pra piorar, como o time é velho, leva mais tempo para voltar à forma antiga, e passa a sofrer com a correria dos outros, mais jovens. Resumo: nivelados tecnicamente com os demais e correndo menos.

O resultado é o que estamos vendo: seis jogos sem vitória. Ainda assim, milagrosamente, líder isolado da competição. Mas com o alerta vermelho piscando.

Há alguns meses as redes sociais discutiam se esse exato time que hoje motiva protestos seria campeão invicto.

Recebo notícias de que haverá protestos em São Januário. Acho justíssimos. Essa é a tal da democracia.

Mas pergunto: qual o objetivo prático? O que se espera desses protestos? Os jogadores estão fazendo corpo mole? Esqueceram seu futebol? O técnico desaprendeu? Tirar Jorginho e Zinho fará com que o time  volte às vitórias? Ir lá e pressioná-los os motivará para que passem a conseguir aquilo que não estão conseguindo fazer? A culpa é da diretoria se o time que ganhou tudo no primeiro semestre se encontra agora numa fase ruim?

Não sou nem nunca fui eleitor de Eurico Miranda, mas ouço amigos meus partilharem de sua opinião em momentos como esse: Qualquer diretoria fraca, 95% das que vemos Brasil afora, prefere numa ocasião como essa simplesmente demitir o técnico e colocar outro boneco em seu lugar. Com isso, lavam as mãos do problema e dão uma satisfação à torcida e a quem lhe faz oposição. Eurico tem milhões de defeitos, mas esse não é um deles. Não se desfaz de técnicos para tirar o dele da reta. Com isso, com o que hoje chamo de virtude, nos rebaixou, pois manteve o incompetente Roth à nossa frente até o rebaixamento. O erro, no caso, não foi a manutenção, mas a escolha de um sujeito que sequer deveria pisar de novo em São Januário.

Amanhã, terça, poderemos (muito provável) ir dormir com o Vasco ocupando um inacreditável terceiro lugar em um Campeonato que parecia apenas um passeio. Sábado, em São Januário, enfrentaremos um adversário de meio de tabela, mas um time perigoso, de um técnico (Fernando Diniz) que é tido como um dos sopros de renovação do futebol brasileiro. Acho bom que a torcida vá lá em peso para apoiar. Empurrar esse time a conseguir aquilo que até agora, no segundo turno, não conseguiu. Pressionar jogadores (ruins), vaiá-los e intimidá-los dentro de sua casa, não vai ajudar.

Que o momento futebolístico desfavorável seja mais levado em consideração que o momento político favorável. Isso se chama oportunismo.

O time é esse e é com esse que a gente tem de ir.