Olhão!

IMG_20150411_103638

O guarda que cuidava do shopping espiava os garotos silenciosos num grupinho de quatro ou cinco. É claro que sabia o que faziam: ao dar as costas, a molecada corria para o campo inclinado de paralelepípedos em frente à lanchonete do pai do Marcelinho. A bola era de isopor, comprada na papelaria, para não machucar ninguém. O guarda voltava, o jogo parava, os garotos se petrificavam, os pedestres passavam – alguns riam. A vida em riste nos rincões de Copacabana em fins dos anos 70. O shopping construído pelo pai do Collor. Aff!

Quando não era futebol, a turma colocava uma mesinha de botão Estrelão debaixo do esqueleto da escada rolante dentro do shopping, ao lado da bela rampa circular que até hoje leva à igreja de Santa Cruz e do grupo de escoteiros.

Eu era do ramo. Tinha uma turma que nem queria jogar comigo. O Fred não descia porque detestava sair de casa, no bloco F. Vinham os amigos de sempre: Luis, Augusto, Marcelinho. O Chapecó não jogava e ria que só ele, Peter da loja de flores também não. Floriano. Talvez o Luigi. Lá, o guarda nem ligava.

Fazíamos nossos grandes campeonatos e o dadinho comia solto em cima do compensado verde. Era nosso Maracanã mirim. Gols, passes, bafo servindo de grito da torcida. Comprávamos os passes dos craques numa papelaria que ficava dentro do shopping, em frente ao Sniff’s Bar, vizinha da fábrica de bolsas Coração Amado (alusão a uma novela da época). E também na papelaria Tia Dália, Toneleros entre Figueiredo e Anita. A outra escada rolante inacabada dava em frente ao teatro Teresa Raquel. Esse pai do Collor…

Nossos goleiros eram de madeira, pequeninos. Um dia, achamos ser preciso que fossem maiores, para que fizessem grandes defesas feito o Mazzaropi, o Renato. Cantarele. Manga. Então o jeito era o artesanato. Caixa de fósforos da marca Olho, moedas e arroz de recheio para o peso, escudinhos recortados da revista Placar, papel, caneta colorida, durex e pronto: nascia um goleirão.

Mais tarde, vieram botões mais sofisticados. Jogos na casa do Alessandro Gordinho, que jogava muita bola, em plena Eurocopa de 1980, a bela Bélgica campeã. Brianezi numerados, Sportec. Antes, eu disputava grandes clássicos na casa do Fernando, edifício Keats, ao lado do túnel da Toneleros. Botões de acrílico do Botafogo, transparentes, o escudo envolto numa esfera violeta. Jogávamos ouvindo rádio: Jorge Curi, Waldyr Amaral, João Saldanha. “Errrrrrrrrro!” de Mário Vianna, com dois enes.

Olho, não: tinha que ser Olhão, para ficar igual ao Leão Goleirão, como o Curi narrava.

Os amigos? Estão quase todos aí, felizes, com saúde. O Fred não queria sair de casa. A falta dele é uma cicatriz enorme em dor.

@pauloandel