Obrigado Vasco da Gama!

Treze de abril de 2014. Há exatos 12 meses e 20 dias eu saia do Maracanã triste. Menos pelo resultado, mas muito mais preocupado com a reação da minha filhota. Ela estava no estádio comigo quando perdemos de maneira injusta a final do Campeonato Carioca de 2014.

Mas como eu contei aqui mesmo (http://www.panoramavascaino.com.br/obrigado-flamengo/), a derrota, apesar de doída, foi educativa. No fim, ela me deu uma tremenda lição de como se portar diante de um resultado adverso injusto.

Ontem, por mais que o otimismo em relação à decisão me dissesse racionalmente que seria uma bela oportunidade de finalmente vermos juntos um título do Vasco (em 2011, na Copa do Brasil, eu estava viajando e não estávamos juntos…), meu coração de pai dizia o contrário. E se mais uma vez não conseguirmos…? Como será que ela vai reagir…?

Fomos ao primeiro jogo e sua alegria foi contagiante e de nada adiantavam meus conselhos: “Calma filha… Ainda não ganhamos nada…”. Seu otimismo, característico de sua pouca experiência de vida, não vencia a minha desconfiança, calcada nos insucessos dos últimos anos.

Nem fiz muita força para comprar ingressos para a finalíssima, mas graças a um grande amigo (que por pura ironia do destino, é rubro-negro), as entradas caíram no meu colo.

O jogo se desenrolava nervoso e muito disputado, como devem ser todas as finais, mas ela nem estava aí… Cantava todas as músicas da torcida! Pulava o tempo todo! Transmitia um otimismo que eu nem sei de onde ela tirava… Algo que eu sinceramente perdi nesses últimos 15 anos, infelizmente.

Mas a Gabi estava ali para me mostrar a grandeza desse clube. O gigantismo da Cruz de Malta, que não nasceu ontem, ou na decisão do ano passado, ou há quinze anos… Mas sim há 116 anos quando nascemos diferente de todos os outros. Quando surgimos para mostrar ao mundo que o futebol era sim um esporte popular, universal, que diferenças sociais ou raciais eram irrelevantes, que muito mais que um jogo amador restrito a um grupelho de abastados cariocas, o futebol era algo muito maior, capaz de se tornar uma profissão para muitos.

Sua alegria foi me contagiando e pude ter a experiência fantástica de retornar aos meus tempos juvenis, quando quem achava o Vasco invencível, gigante, inabalável era eu. Aos tempos do velho Maracanã de arquibancadas de concreto que eu visitei tantas vezes com meu pai. Que lembranças gostosas!

A felicidade e a certeza do título que ela tinha era tamanha que me contagiou. Voltei a ter aquela alegria enorme de ser vascaíno. Sem os limites que a vida adulta nos coloca. Sem as barreiras e as racionalidades que amorteceram a minha paixão por esse clube inigualável.

Juntei-me a ela e gritei, pulei, brinquei… Comemorei a plenos pulmões cada passe milimétrico correto do Julio dos Santos ou do Dagoberto. Vibrei a cada desarme de nossos “cães de guarda” Guiñazu e Serginho, e de nossos zagueiros Rodrigo e Luan. Dei graças aos céus pelo goleiro fantástico que temos: Martín Silva! E cheguei à catarse nos gols de Rafael Silva e de Gilberto.

Assim como ela me ensinou, simplesmente nem me importei com o gol botafoguense. Nesse momento, já completamente inebriado pela sua vibração, tinha certeza absoluta da vitória. Aliás, nesse momento, seus 10 anos pareciam 30 anos de futebol: “Relaxa pai. Vamos ganhar.”. Não duvidei nem por um segundo!

Fim de jogo e o sonho estava realizado. Ambos sem voz, nos abraçamos e a única coisa que conseguia fazer era agradecer a ela por me trazer de volta aquele menino que ficou pelo caminho dos rebaixamentos, dos vice-campeonatos e de todos os insucessos anteriores.

Para terminar, depois do longo abraço, ela virou-se para mim e disse, num daqueles momentos mágicos que a vida nos proporciona. Aqueles momentos em que a gente experimenta a felicidade plena, total, irrestrita… infinita! Disse-me ela, repetindo exatamente o que eu disse há mais de 40 anos atrás, quando levado pelo meu pai pela primeira vez ao Maracanã, no dia em que o Vasco foi Campeão Brasileiro pela primeira vez… “Pai… MUITO OBRIGADA POR ME FAZER VASCAÍNA!!”.

Tudo… Absolutamente tudo valeu a pena. Da derrota doída, mas educadora do ano passado, passando pela humilhação de uma segunda série B, até esse momento único.

Obrigado Vasco da Gama. Obrigado meu pai, Ivan Abreu. Obrigado minha filha, Gabriela Abreu por me devolver a fé na felicidade e na vida.