Obrigado, Flamengo

Calma, amigos. Antes de me jogarem pedras, peço que leiam até o fim o que postei na noite do dia em que fomos (mais uma vez) roubados e acabamos perdendo o título carioca.

“Hoje vivi um dos piores momentos dos meus 45,5 anos de vida. Não pela perda do título. Isso é apenas futebol. Já passei da idade de achar que tudo gira em torno dos resultados do Vasco. E sim, tenho esse clube fantástico na sua história, dominando boa parte do meu coração, mas hoje (de novo: não pelo resultado) com uma intensidade bem menor que aquela dos meus vinte e poucos anos.

Mas para minha filhota não… Ela, do alto dos seus nove anos ainda não compreende certas coisas. Vê-la chorar aos prantos hoje, primeiramente de uma alegria que eu acho que perdi há uns 10 ou 15 anos, e depois de uma profunda tristeza que sinceramente não me vem mais com tanta intensidade… Isso me fez sentir uma culpa arrebatadora, como se eu estivesse de alguma forma machucando-a e muito. Trouxe-me uma raiva interna… Não do Flamengo, dos árbitros, da FFERJ, da torcida adversária… Nada disso! A raiva era de mim mesmo!

Ela não mereceu e eu a fiz passar por isso. Esse era o meu sentimento ao olhar para ela logo após o gol de empate do Flamengo. Caí em prantos com ela e saí do Maracanã imediatamente quase que a carregando no colo, pedindo perdão a ela por tê-la feito passar por isso. Jurando que nunca mais eu a faria passar por tamanha tristeza… Sou pai e nosso reflexo é proteger os filhos de tudo que é ruim na vida, mesmo que isso seja errado educacionalmente falando.

Chegando ao carro, encontro outros vascaínos desolados como eu e minha filha e os ouço comentando sobre a irregularidade do gol deles. Juro que na hora nem dei muita bola, mas foi a minha filha quem perguntou a eles: “Como assim foi impedimento…?”. Eles imediatamente mostraram a ela um celular com o lance congelado com o impedimento clamoroso não marcado.

Nada fiz a não ser olhá-la com compaixão. Estava até esse momento me sentindo a pior das criaturas. O pior pai de todos! Mas aí é que a vida te dá uma lambada… Um soco no estômago…

Ela vira-se para mim, e se transforma! Todo e qualquer traço de tristeza some daquela carinha linda (sim eu sou coruja!!). Parece que eu nitidamente vi sua alegria, tão sua, tão característica dela, voltar ao seu semblante.

“Pai… Eu sei que você está triste. Muito triste. Não precisa fingir. Mas veja bem: não é você que sempre diz que de todas as situações, boas ou ruins, temos que tirar lições? Que é a isso que chamamos experiência?”

Estupefato, só consegui balançar a cabeça positivamente. “Então… Hoje vi que honestamente não perdemos. Eles fizeram um gol em impedimento. Ganharam de maneira desonesta. A vergonha deve ser deles!”.

Quase desfaleci de tanto que chorei nesse momento. Ela em seguida me deu um abraço que só ela sabe dar e eu pude então ver que o que aconteceu hoje no Maracanã acabou sim por beneficiá-la! Ensinou-lhe de maneira dura, mas verdadeira que o desonesto deve ter vergonha do que faz. Que o desonesto é patético ao comemorar o “ganho” conseguido fora das regras. Por si só ela percebeu que a desonestidade não vale a pena. Eles ganharam mais uma vez roubado? Sim. E daí? Vou passar a roubar para ser feliz agora? Não! Nunca!! Essa felicidade envergonha e não combina conosco.

A história do nosso clube mostra o contrário. Sempre fizemos as opções corretas não por estas serem afeitas a maioria, ou as que mais agradavam aos poderosos. Não entramos nessa podridão. Não nos igualamos a eles. Essa é a nossa identidade. O nosso DNA!

Que eles chafurdem com título roubado. Que eles se iludam com o Campeonato Carioca, pois na Libertadores ou qualquer outro campeonato sem a arbitragem tendenciosa que já cansamos de ver, nunca chegam a lugar nenhum e passam vergonha em série.

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Minha filha é uma fonte inesgotável de histórias engraçadas. Sobre o Vasco então… Segue mais uma para vocês se divertirem, que aconteceu no dia seguinte à fatídica decisão do Campeonato Carioca desse ano.

Nesse dia à noite, cheguei em casa e iniciei aquele papinho de pai que chega tarde…

“E aí filha? Tudo bem na escola?”

“Sim pai, mas eu não paguei a aposta ao Miguel.”

“Que aposta Gabi?!? Você apostou alguma coisa no Vasco?”

“Apostei… Apostei com ele que seríamos campeões e se isso acontecesse ele me pagaria dez reais. Se não eu é quem pagaria.”

Entre surpreso e com vontade de repreendê-la por conta da tal aposta, iria começar a falar, mas ela logo emendou:

“Mas eu não paguei. Ganhar roubado não vale.”

Preferi deixar para lá…

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E ontem mais um empate. Mais uma atuação abaixo da crítica. Já são três jogos seguidos com empates em que em certos momentos chegamos a respirar aliviados por não termos perdido…

Se é verdade que a desfiguração do time que chegou ao vice-campeonato no “Cariocão” prejudicou muito nossos primeiros jogos na série B, também é inegável que não temos elenco para substituições à altura dos que vinham jogando como titulares. Nosso técnico (?) famoso por suas invenções e pelo seu suor durante os jogos, parece perdido e tenta de tudo a cada jogo e nada obtém de bom.

O desespero ainda não bateu à minha porta, mas está ali… À espreita bem na esquina da minha rua…

Ainda há muito campeonato pela frente, e pelo que tenho visto dos demais times da série B, não há nenhum “bicho-papão” (que pela história e pelo que representamos deveríamos ser nós!), mas urge reagimos.