O Vasco em terceiro plano

Nada tem me entediado mais do que tentar acompanhar programas esportivos, em especial pelo rádio, nos últimos tempos. Na verdade, não somente o rádio, mas certos programas de TV (não é de hoje) têm sido alvo de minhas constantes críticas e descontentamento.

O modus operandi parece que já está enraizado: quando o programa é transmitido em rede para o Brasil como um todo, fala-se bastante de clubes, em especial, do futebol paulista. Ainda mais especial, do Corinthians, o clube ao lado do Flamengo maior detentor das cotas de TV nesse “maravilhoso” novo cenário arquitetado pós-implosão do Clube dos Treze. Depois, encontram espaço para falar um pouco dos clubes cariocas, em especial, do mais querido de Roberto Marinho e família. Óbvio, a intenção é angariar audiência e justificar-se o porquê das maiores cotas de TV polarizadas entre Corinthians e Flamengo. Quando sobra, encontra-se um espacinho para falar a respeito de Fluminense, pois afinal de contas, como pode a marca patrocinadora do tricolor carioca ficar de fora da audiência televisiva, sendo a própria uma das patrocinadoras do órgão parceiro das Organizações “Plim-Plim”?! Evidente que não.

Por fim e realmente quando sobra alguma coisa, dão uma “pincelada” rápida no Vasco. Quando sobra mesmo, pois antes de nossa marca, Cruzeiro e Atlético-MG têm, há tempos, prioridade para divulgação. É evidente que boa parte dessa culpa é nossa. Enquanto nesse novo século, Unimed All Stars, Flamengo, Corinthians, Cruzeiro, Atlético-MG e Santos dividiram grandes conquistas nacionais e internacionais, o Vasco a rigor teve UMA grande conquista: a Copa do Brasil de 2011. Agrava a tal escassez dois rebaixamentos de divisão, e mais outros tantos fatores que, se for enumerar, vai descambar o pensamento para o lado político da questão. E sobre esse eu quero evitar.

Pelo rádio, o panorama não é muito diferente. Exemplo da Super Rádio Brasil, na última quinta-feira (detalhe: aniversário de fundação do Vasco). Seria normal que o principal assunto do dia fosse a vitória rubro-negra sobre os “amarelões” atleticanos na noite anterior. O que não se contava era com o tempo destinado aos comentários jornalísticos para o “tamanho feito” rubro-negro: contando no relógio para um programa que começa às 13 horas em pleno período de propaganda eleitoral, foram notícias e comentários atè 13h31min. Com direito à interrupções quando no espaço destinado aos comentários acerca de Vasco, recorrendo-se ao acontecimento do jogo do Maracanã, em questão.

Em comparação à mesma rádio, no dia posterior em que o Vasco venceu o Fluminense pela semifinal do “Vergonhão” Carioca, foram comentários até 12h17min, para um programa que começou às 12h naquele dia. A questão é clara: qual é o resultado que, a priori, seria mais expressivo, merecendo a atenção dada de mais de meia hora de comentários: uma vitória em um jogo normal que afastou um time da zona do rebaixamento, ou uma vitória que deu a um time a chance de disputar mais uma final? Notaram a diferença, verdade?

Em plena Rádio “Plim-Plim”, dia 21 de agosto, mesmo dia, mesma quinta-feira. A manchete principal não poderia deixar de ser a “magnífica” vitória do time rubro-negro apoiado pela mídia esportiva, estendendo os devidos comentários até às 17h36min (o programa começa às 17h). Ao Vasco restaram pouco mais de dez minutos da primeira hora de programa. Ao iniciar a segunda hora, Penido (locutor apresentador) mandou colocar o hino cruzmaltino, rendendo sua homenagem e quase que puxando, aos demais componentes da mesa de debates, que assim o fizessem. Não durou mais do que seis minutos cronometrados, e logo ao cessar, tratou de voltar a falar do rubro-negro, em comentários que pareciam inesgotáveis.

Há tempos que venho, constantemente, cobrando essa questão. Caberá ao Eduardo Nery, ao Eurico Miranda, ao Júlio Brant, ao Nélson Rocha, ao Roberto Monteiro, ao Tadeu Correia ou qualquer outro que seja eleito rever essa nossa problemática questão da falta de representatividade de nossa marca, não somente nos bastidores do futebol (entidades, tribunais etc) como também na grande mídia esportiva, aonde estamos carentes de renovação faz MUITO tempo, e os poucos vascaínos que surgem ou se rendem à filosofia de trabalho de suas empregadoras ou, simplesmente, já admitiram tamanha insignificância no presente momento estando, tal como nós torcedores, ávidos para alguém que possa, através de argumentos, estratégias e planejamento a médio e longo prazo, tratar sobre esse preocupante assunto do “sumiço” e “submissão” de nossa marca com mais seriedade e, porque não, vascainismo também.

*****

Como todos nós sabemos, nosso amado Club de Regatas Vasco da Gama completou 116 anos de vida nessa última quinta-feira. Sou de épocas em que as sessões solenes eram temperadas com comemoração de título ou apresentação de um novo craque. Com o tempo e adentrando o século XXI, nossas comemorações de aniversários, dado o “jejum” que já se iniciava, passou a ser temperado com bravatas e promessas vazias. Quem não se lembra da promessa do governador do Estado do Rio de Janeiro, Sr. Sérgio Cabral Filho, quando na comemoração de nosso 114º aniversário e confirmada por muitos que lá estavam presentes, prometendo o Rugby para São Januário, em 2016? E a comemoração do aniversário no ano passado, em que o Presidente Roberto declarou que o Vasco tinha, como presente, adquirido as certidões positivas com efeito de negativas de débito DEFINITIVAS?

O correto mesmo é que não há muito o que se comemorar. O atual momento nos prega mais necessidade de trabalho e menos vislumbres. Remetermo-nos ao passado para lembrar títulos de outrora é, para mim, como lembrar dos primeiros beijos e das primeiras relações de um ex-romance. Já é a segunda vez, em nossa história, que comemoramos um aniversário com o futebol na segunda divisão, isso depois do Vasco de lá ter saído, pelos idos da década de 1920. Sem contar o Remo, esporte raiz, que em seis disputas de Roberto Presidente em sua completude nada venceu. Outros esportes, patrimônio, representatividade, então…há muito o que se fazer para que voltemos a ter aniversários mais felizes tal como tivemos um dia.

E para tanto, não vejo alternativa a não ser a de “cortar na carne”. Sem dó, nem piedade: sem sofrimento não há crescimento, e só de promessas sem trabalho com competência, a nossa tendência é de aniversários tão insossos quanto a grande maioria dos vivenciados por nós, no Século XXI.

*****

Recebo pela manhã bem cedo de meu companheiro Gustavo Casemiro de Abreu, já nas primeiras horas do aniversário de nosso clube, a foto não muito recente de um ex-grupo de amigos entre si (obviamente que muitos que lá estavam ainda são até hoje) tiradas em um jogo do Vasco, creio que tenha sido no confronto histórico do Alto da Glória, em 2011.
Triste constatar, no entanto, que muitos que lá constam mal se falam entre si hoje. Alguns exemplos de amizades reconstruídas tal como foi o belo exemplo dos amigos Carlos Leão e Vítor Roma, mas ainda assim, alguns desencontros no presente que inviabilizaram uma nova foto semelhante. Muito pela rixa política que instabiliza e nos leva, a cada dia, à aceleração de nossa “americanização”, com todo o respeito ao clube rubro sangue carioca.
O dia em que os candidatos a líderes da ordem política vascaína mostrarem o mínimo de bom senso, deixarem as suas viadagens, ops, vaidades de lado (afinal, se Fred errou ao falar isso no microfone certa vez, eu também posso!) e começarem a se tolerarem mais e a aceitar a democracia sem revanchismos ou sem querer tirar proveito do clube para algo pessoal, o Vasco estará retornando ao caminho que todo desejamos.
E fotos como a que recebi de amigos em grupo unidos por uma só bandeira se tornarão possíveis novamente.
********
Encerro mandando um abraço especial ao amigo Vítor Roma, pelo convite feito por e-mail para o almoço de confraternização da última quinta-feira! Por motivos profissionais não pude comparecer, mas foi bom saber da parte de quem compareceu que havia vascaínos simpatizantes de diversas frentes políticas, colocando suas divergências ideológicas de lado com todo o respeito, e a amizade acima de tudo.
@crismariottirj