O Vasco de 1977: um tributo ao time dos sonhos – Parte I (por Jorge Medeiros)

vasco 1977

                                                                       “O Vasco, tenho certeza, vai dar muito                                                        trabalho. E muita alegria a torcida”. Orlando Fantoni

Qualquer torcedor do Vasco que não viu jogar o Expresso da Vitória nos anos 1940 sentiu também o gostinho de vibrar por um elenco que igualmente marcou uma época (mais recente) e deixou muitas saudades: o time campeão de 1977 e sua incrível campanha no campeonato carioca. Mais do que um time, era um símbolo de um clube Forte e Vencedor.

O objetivo deste artigo é recordar como foi a jornada daquela competição, reconstituindo passo-a-passo, desde a formação do elenco, em janeiro, até a partida final, em setembro, percorrendo toda a trajetória de uma campanha vitoriosa do início ao fim.

Muitos times ficaram na memória dos vascaínos, muitos ídolos já se passaram desde aquela conquista, mas é difícil um torcedor que conheceu aquele time se esquecer de sua escalação: Mazarópi (1), Orlando (4), Abel (2), Geraldo (3) e Marco Antonio (6), Zé Mário (5), Zanata (8) e Dirceu (11), Wilsinho (Fumanchu) (7), Roberto (10) e Ramon (9).

  A Formação

O campeonato carioca do ano de 1976 terminou com uma grande frustração para os vascaínos: a derrota na final para o Fluminense com um gol do atacante Doval nos minutos finais da prorrogação. A tão decantada “Máquina” de futebol não conseguiu nos vencer no tempo normal e tudo indicava que a decisão seria nos pênaltis. Um bom presságio para um time que naquele ano já havia vencido a final da Taça Guanabara justamente numa final decidida nos pênaltis contra o Flamengo, aquela mesma onde Zico[1] perdeu, ou melhor, Mazarópi defendeu espetacularmente.

Ainda no final do ano foi realizada a eleição para a presidência do clube, vencida pelo candidato da situação Agathyrno da Silva Gomes[2]. Apoiado por tradicionais lideranças do clube como Artur Sendas, Artur Pires Ribeiro e Antonio Figueiredo, o presidente prometia a formação de um time ainda mais forte do que o vice-campeão carioca de 1976. A promessa era seguida de uma proposta de reformulação do elenco mantendo somente os craques e os jogadores formados na base. Permaneceriam no clube Mazarópi, Abel, Gaúcho, Marco Antonio, Zé Mário, Zanata, Roberto e Fumanchu. Nomes com Renê, Dé, Luis Carlos e Jair Pereira seriam vendidos ou trocados.

Nem mesmo as investidas do Internacional (que oferecia Cr$ 6 milhões por Roberto) e do Cruzeiro que propôs (Cr$ 1,2 milhão por Fumanchu) modificaram o pensamento da direção vascaína de se desfazer de seus principais atletas.

Começaram, então, a aparecer os primeiros reforços: do América vieram os zagueiros Orlando e Geraldo. O primeiro, conhecido por seu chute forte e pelo futebol impetuoso e ofensivo, além de passagem pela seleção brasileira em 1976. Geraldo era um vigoroso zagueiro, apto para formar uma dupla ideal com Abel. A defesa já estava montada, faltava assegurar um bom atacante para fazer dupla de ataque com Roberto e um ponta-de-lança de grande categoria capaz de rivalizar com Rivelino[3], no Fluminense, Zico[4], no Flamengo e Paulo César Caju[5], pelo Botafogo. Até então, os grandes astros do futebol carioca.

Do nordeste o Vasco trazia Ramon[6], atacante vindo de Pernambuco, terra de grandes artilheiros que ganharam projeção no Vasco, como Ademir Menezes[7], Vavá e Almir. Ramon havia se destacado no campeonato brasileiro de 1973, mas tinha fracassado pelo Internacional em 1974, e voltou para Pernambuco em 1975.

O presidente do Fluminense Francisco Horta, se notabilizou  naqueles anos 1970 como um grande dirigente capaz de realizar grandes transações e troca-trocas com os outros clubes cariocas. Neste período trocou Mário Sergio e Manfrini por Dirceu com o Botafogo, deu Zé Roberto, Toninho e Roberto para o Flamengo e recebeu Rodrigues Neto, Renato e Doval. Com o próprio Vasco[8] ele já havia feito uma transação ao trocar Miguel por Abel, Marco Antonio e Zé Mário, em 1976. Como o tricolor era o atual bicampeão carioca (1975-76) e todas a negociações anteriores foram vistas como acertadas, Horta partiu para mais uma: dava o atacante Dirceu e recebia em troca o ponta Luis Carlos[9] (remanescente do título nacional em 1974) e mais 400 mil cruzeiros.

A chegada de Dirceu era tudo o que o elenco do Vasco precisava: com ele o clube fechava o ciclo de contratações. A tarefa agora era entrosar o grupo e aproveitar o longo período de preparação para o campeonato carioca que começaria somente na última semana de março. O motivo para a demora era simples: a seleção brasileira estava disputando amistosos e jogos decisivos das Eliminatórias da Copa do Mundo em 1978, na Argentina. De janeiro a março, o futebol brasileiro ficou divido entre os amistosos[10] dos clubes e a disputa da classificação para o Mundial. O técnico da seleção brasileira era Oswaldo Brandão, mas logo seria substituído por Cláudio Coutinho, então técnico do Flamengo.

A saída de Brandão ocorreu após o empate do Brasil com a Colômbia por 0 a 0, visto como um resultado “desastroso”. Ao retornar ao Brasil, o presidente da CBD, almirante Heleno Nunes, junto de Carlos Alberto Cavalheiro[11] (ambos vascaínos), chefe da delegação, convidaram o técnico, Cláudio Coutinho[12] para comandar a equipe. Coutinho ainda não tinha conquistado nenhum título importante como treinador, mas era conhecido de todos “os Homens da CBD” em função de sua participação na comissão técnica da seleção desde a Copa de 1970.

A presença do capitão reformado do Exército, Cláudio Coutinho, dirigindo a seleção brasileira é considerada mais um capítulo da militarização que o futebol brasileiro vinha sofrendo (RUFINO, 1978). Mesmo com as críticas, o técnico prometia um time adotando um sistema moderno que mudaria a forma do brasileiro jogar. Treinando e se concentrando em São Januário, os jogadores tratam de seguir as ordens do novo técnico que pediu, entre outras coisas, que aparassem os cabelos, usassem o uniforme bem vestido e ficassem de boca bem fechada.

Se Brandão e Coutinho se preocupavam em encontrar a melhor escalação para a seleção brasileira, no Vasco o novo técnico, Orlando Fantoni[13] (entrou no lugar de Paulo Emilio) não tinha dúvidas do time titular que pretendia montar para disputar o campeonato carioca: Mazarópi, Orlando,  Renê, Geraldo e Marco Antonio; Zé Mário, Zanata e Baiaco; Fumanchu, Roberto e Ramon. Baiaco? Quem seria o Baiaco? Pois em janeiro de 1977 ele era a “menina dos olhos” do novo treinador. Jogador do Bahia[14], ex-comandado por Fantoni, seria, para o técnico, o jogador ideal para formar o meio-campo do Vasco. Ainda bem que tal “craque” não veio, pois Dirceu seria contratado e logo na estréia,  em fevereiro,  num amistoso[15] com o Flamengo no Maracanã, o meia-esquerda já mostrava o seu valor: foi o autor do gol da vitória por 2 a 1.

Fantoni vinha de um bom campeonato brasileiro (1976), quando levou o Bahia ao oitavo lugar. Ele encarnava a figura do técnico “boleiro”, com experiência de ex-jogador, com uma fala característica de quem viveu dentro dos gramados, conhecedor das artimanhas dos jogadores. Mantinha uma relação próxima junto aos atletas, sendo por isso chamado de “titio”. Uma figura que procurava não agir por autoritarismo, tendo um bom diálogo com todos. O técnico Joel Santana talvez seja seu maior herdeiro na forma de comandar um elenco.

Mas se Orlando Fantoni não sonhava com Dirceu, para a zaga ele logo descartou o titular absoluto em 1976, o gigante Abel. Ainda na apresentação, o treinador fez questão de esclareceu ao zagueiro que ele não se encaixava nos planos do comandante, seria no máximo, reserva. Fantoni revelava na revista Placar o teor da conversa que teve com o zagueiro logo ao chegar ao Vasco: “Olha aqui, Abel. Você não me conhece, mas eu sou muito leal com meus jogadores. Gosto de jogar aberto para não enganar ninguém. No meu time, por enquanto o titular é o Renê, que esta com  problema de renovação de contrato com o clube. Se ele acertar tudo direitinho, o titular será ele. E dificilmente você entrará no time. Mesmo se Renê deixar o clube”. Descartado pelo técnico, Abel não ficou de cabeça baixa e tratou de treinar mais e aproveitar a chance pois logo em seguida Renê [16] deixaria o clube e iria para o Botafogo.

Já falamos de seleção brasileira mas não falamos dos adversários, pois um dos jogos nos inúmeros amistosos da seleção naquele início de ano foi justamente contra o Vasco e perdemos por 6 a 1! Bem, não foi propriamente o clube da Cruz de Malta, mas um combinado[17] de Vasco e Botafogo que levou uma surra em Pleno Maracanã no dia 3 de março.

[1] Em sua biografia, Zico relata que naquele dia ele viveu uma de suas maiores tristezas no futebol. Ainda em 1976, o meio-campo Geraldo (seu grande amigo) que também havia perdido um pênalti na decisão, morreria num acidente cirúrgico. Cf. (ASSAF, 2003, p 54).

[2] Agathyrno concorre com sua chapa “Vila Olímpica Vascaína”, enquanto a oposição usa o nome “Renovação Vascaína”. A campanha é dura nos jornais. Do lado de Agathyrno estão Antônio Soares Calçada e Alberto Pires Ribeiro. Do lado da oposição, encabeçada por Medrado Dias, estão Pedro Valente, Olavo Monteiro de Carvalho e Roberto Osório. As chapas divulgam os nomes, nos jornais, de vascaínos que as apóiam. As chapas trocam acusações nos jornais. Apóiam Agarthyrno: Antônio Calçada, Artur Sendas, Alberto Pires Ribeiro, Antônio Gomes da Costa, Alah Eurico, Armando Marcial, Rui Proença, entre outros. O Jornal dos Sports insinua, em sua coluna, que, vencendo a chapa de Medrado, o presidente será Reinaldo Reis. Reis é ironizado como “homem do bacalhau” em uma das notas da situação. O carro-chefe da campanha de Agathyrno é a vila olímpica, conseguida por intermédio de Almirante Heleno Nunes. O então presidente relata a recuperação financeira do clube, o retorno à São Januário da administração do clube e dos jogos, da recuperação patrimonial e do quadro social e dos títulos conquistados (carioca, taça GB e brasileiro). A oposição relata que São Januário está sob penhora, diz que o desempenho do futebol foi ruim (3 títulos em 7 anos) e que não houve recuperação patrimonial ou social. Reclama também da falta de prestação de contas. Diz que foi graças à oposição que a diretoria se mexeu para contratar e que a contratação de Tostão foi prejuízo para o clube. Agathyrno rebate dizendo que antes dele foram 12 anos sem títulos, que com o ajuste financeiro pôde começar a reforçar o time e que publica relatórios mensais da arrecadação do clube. No dia 12/11/1976 a chapa “Vila Olímpica Vascaína” vence por 2334 votos contra 714 da chapa “Renovação Vascaína”, para o triênio 77/78/79. Fonte: www.supervasco.com ( pesquisa de Paulo Osório).

[3] Rivelino foi o grande astro da “Máquina Tricolor”. Contratado junto ao Corinthians no início de 1975, ele ficaria no tricolor até 1978. Para maiores detalhes ver  (MOTTA, 2005).

[4] Zico foi considerado, em 1976, um dos  principais jogadores do país e maior artilheiro do ano no Brasil e se tornou recordista de gols no Flamengo numa temporada.

[5] Paulo César Caju havia retornado ao Botafogo depois de ser uma grande estrela no time nos anos 1960 e inicio dos anos 1970, quando foi vendido ao Flamengo. Depois de uma temporada no futebol francês, P.C voltou ao Fluminense em maio de 1975 (MOTTA, op. cit.), sendo um dos principais jogadores do bicampeonato. Voltava ao Botafogo e também à seleção com Cláudio Coutinho em 1977.

[6] Ramon foi contratado por Cr$ 1.500.00. Ele foi artilheiro do campeonato brasileiro em 1973 (21 gols) e havia formado dupla de sucesso com Fumanchu no Santa Cruz em 1975, quando chegaram nas semi-finais do brasileiro.

[7] Ademir Menezes era, em 1977, ainda o maior artilheiro do Vasco de todos os tempos e  atuava como comentarista esportivo pela rádio Continental. Era anunciado pelo locutor vascaíno Orlando Batista, chefe da equipe e principal narrador, como “Ademir Marques de Menezes, o craque de ontem que analisa os craques de hoje”.

[8] Da “Máquina Tricolor” vieram, em 1976, Abel, Marco Antonio e Zé Mário; em 1977, Dirceu: em 1980, Pintinho e P.C. Caju; e em 1984, Arturzinho.

[9] Luis Carlos saiu acusando a diretoria de “fazer uma limpa” no elenco e apontá-lo como responsável por montar uma “panelinha” que escalava os titulares.

[10] Vasco e Flamengo pediam Cr$ 200 mil por cada partida, mas sem os jogadores da seleção este valor caía para a metade. O Vasco fez 10 amistosos de preparação para o carioca de 1977: em Volta Redonda (dia 22-01) contra o time da casa, vitória por 1 a 0. Depois em Juazeiro na Bahia (dias 30-1 e 1-2), vitória nos dois jogos contra a Seleção de Juazeiro (5 a 0 e 6 a 1). Em São Jose dos Campos (SP) contra o time local (4-02) empate em 0 a 0. Em seguida três amistosos no Rio de Janeiro contra Flamengo, Botafogo e Fluminense. Contra o alvinegro (18-02)  vitória por 4 a 3 e 2 a 0 contra o Tricolor (27-02). Mais dois amistosos em Santa Catarina, contra o Figueirense (8-03) vitória por 2 a 0 e contra o Avaí, vitória por 2 a 1. Fechando os amistosos, em Itabuna (Bahia), perdemos para o Flamengo por 2 a 1 (20-03).

[11] Sobre Cavalheiro ver um capítulo (Vidas vascaínas) do livro Memória Social dos Esportes (2006).

[12] Aliás, este seria o último treinador a comandar o clube e a seleção brasileira ao mesmo tempo. Em 1980, Tele Santana seria o primeiro técnico exclusivo para a seleção, o que continua até hoje.

[13]  A escolha de Fantoni provocou uma divisão  na diretoria pois parte dos dirigentes preferiam a permanência de Paulo Emilio e a possível contratação de Oto Gloria, como supervisor. Ao definir o técnico como Orlando Fantoni, Agatirno perdeu o apoio de dois “homens-fortes” do clube:  Artur Pires Ribeiro e Artur Sendas. O outro “homem forte”, Antonio Figueiredo ficou no clube, de acordo com a revista Placar, pois foi ele que investiu do próprio bolso nas contratações de Orlando, Geraldo e Ramon. (Cf. Placar, Jan. 1977).

[14] Mesmo após a contratação de Dirceu, Fantoni lamentava a ausência de Baiaco e o colocava no mesmo nível de Dirceu: “eu tinha um esquema na cabeça. Um esquema para o Vasco. No qual Baiaco seria peça das mais importantes. Enfim, me deram o Dirceu. Evidentemente é a mesma coisa. São dois grandes craques” (Placar, p.22).

[15] Nesta partida o Vasco jogou desfalcado de Roberto e Marco Antonio que serviam a seleção. O time jogou com Mazaropi, Orlando, Abel, Geraldo e Gilson Paulino, Zé Mário, Zanata e Dirceu, Fumanchu, Ramon e João Paulo. O público foi de 25 mil assistentes.

[16] Ao não renovar com Renê, o Vasco mantinha uma política de salários para os seus atletas diferente dos outros cariocas. Placar afirmava, em marco de 1977: “a folha de pagamento (do Vasco) não passa de 354 mil cruzeiros mensais, irrisória diante dos gastos de Fluminense, Botafogo e Flamengo”.

[17] O combinado Vasco-Botafogo jogou com Wendell, Perivaldo (Orlando), Osmar (René), Geraldo e R. Neto; Zé Mário, Zanata e Dirceu; Fumanchu, Manfrini e Dé. O publico foi de mais de 57 mil pessoas. Em seguida o Combinado Vasco-Botafogo jogou com o combinado Fla-Flu e venceu por 1 a 0. Jogou com Mazaropi, Orlando (Perivaldo), Geraldo, Renê e R. Neto; Zé Mário, Zanata e Dirceu; Fumanchu, Manfrini e Dé. O publico foi bem menor: cerca de 18 mil pagantes.

O Bicampeonato da Taça Guanabara (1976-77)

            Passados os amistosos pelo Brasil afora e depois dos jogos da seleção, finalmente na última semana de março iria começar o campeonato carioca de 1977. Para a imprensa não havia favorito. O Fluminense[1] lutava pelo tricampeonato, liderado por Rivelino e Marinho Chagas[2] (contratado em mais um troca-troca), era o adversário a ser batido, a “Máquina” ainda era muito respeitada. Botafogo[3] e Flamengo[4] também montaram ótimos times, com grandes craques em cada lado. Mesmo o América[5], com bons jogadores, como Alex e Bráulio, prometia surpreender.

O Vasco com todas as contratações e os bons amistosos confirmava a expectativa de que neste ano o troféu voltaria para São Januário, pois já se passavam 6 anos sem a conquista do estadual. Mas atenção, o Vasco nos anos 1970 não ficou atrás dos seus adversários como alguns afirmam[6], pois praticamente em todos os anos ele venceu um turno do campeonato e era, até aquela época, a única equipe carioca que já havia conquistado o Campeonato Brasileiro (1974).

Enquanto o campeonato carioca começava, a ditadura militar sob o comando do general Ernesto Geisel editava o famoso “Pacote de Abril”, decretando eleições indiretas para governador e a criação dos “senadores biônicos”, quando um terço dos senadores passava a ser escolhido pelo voto indireto. O partido do governo militar (ARENA) procurava por todos os meios não perder o poder, inclusiva através do uso político do futebol. Nesta época adotou-se o lema: “Onde a ARENA vai mal, mais um no Nacional”. Ou seja, a cada ano aumentava o número de times que disputavam o campeonato nacional: pulou de 54 em 1976 para 62 em 1977, depois 74 em 1978 e chegou ao máximo em 1979, com 94 clubes!!!.

Após “atropelar” seus primeiros adversários[7], a equipe vascaína foi surpreendida com a vitória do América por 1 a 0 (gol de Uchoa, de falta), embolando a primeira colocação e prometendo uma Taça Guanabara de muita emoção até o final. Esta foi uma derrota[8] que impediu um feito histórico. O jogo colocou em evidência a atuação dos dois goleiros: País (América) foi considerado o melhor jogador em campo, enquanto Mazaropi foi o protagonista do polêmico lance[9] que originou o único gol do jogo.

Novas partidas, novas goleadas[10], com exibições convincentes de todo o time e a prova de que o Vasco era o melhor time do campeonato. Faltava apenas enfrentar um clássico para comprovar o alto rendimento dos vascaínos. Ele veio no dia 24 de abril. Uma data marcante para os torcedores rubro-negros, pois eles estreariam sua  mais importante torcida organizada até os dias de hoje: a Raça Rubro-Negra[11]. O público prestigiou o clássico como se fosse uma grande decisão, com mais de 134 mil pagantes. No final, só a torcida vascaína ficou no estádio para comemorar um baile em campo e nas arquibancadas, com a vitória por 3 a 0 (gols de Roberto 2, e Zanata). O resultado confirmou as expectativas da imprensa que afirmava a superioridade incontestável da equipe de São Januário. Para se ter uma idéia, o Vasco tinha uma média de 4 gols por partida. Nada parecia deter os comandados do “titio” Fantoni, que prometeu desde o início um time adotando um futebol moderno inspirado na seleção holandesa de 1974, que adotou um esquema tático conhecido como “Carrossel Holandês”.Os efeitos da derrota do Brasil na Copa da Alemanha se faziam sentir com a busca de muitos treinadores em mudar o esquema tático e aperfeiçoar a preparação física. “Jogador de posição fixa acabou. No meu time, jogador não tem posição. Meu sistema é rotativo. Todos atacam, todos defendem”, afirmava o técnico Fantoni.

Ainda em abril (dia 21), o clube comemorava os 50 anos do estádio de São Januário, num amistoso com o Santos. O clube paulista foi o mesmo adversário que, em 1927, inaugurava a nossa praça esportiva, fruto de uma intensa campanha dos sócios e torcedores, empenhados em construir o maior estádio do Brasil.

Sucesso no ataque, segurança absoluta na defesa. O então rejeitado zagueiro Abel dava a volta por cima e aparece em matéria de capa da revista Placar. Na reportagem o próprio técnico Orlando Fantoni reconhece que errou na avaliação sobre o zagueiro, ídolo da torcida desde 1976, quando chegou ao clube. O apoio dos torcedores foi fundamental para o zagueiro ganhar a confiança e se manter como titular do time: “a minha sorte no Vasco é que a torcida logo se identificou comigo. Viu que sou jogador de vestir a camisa do clube para valer”, lembra Abel[12].

Fluminense[13] e Botafogo seriam os próximos adversários a serem batidos. O tricolor revelava os primeiros sinais de enfraquecimento da “Máquina”, mesmo com o talento de Rivelino, a equipe não conseguiu suportar a superioridade vascaína e saiu derrotada por 1 a 0, diante de 96 mil pagantes (gol de Ramon). Era a liderança isolada com 18 pontos e a artilharia absoluta de Roberto Dinamite, com 10 gols.

Por incrível que pareça, o adversário mais difícil do primeiro turno foi em São Januário contra o pequeno Bonsucesso. Até os 40 minutos do segundo tempo perdíamos a partida por 1 a 0. Foi então que Roberto Dinamite em dois lances (aos 40 e 47!!!) virou a partida  e vencemos por dois a um. Esta partida entraria na história para o goleiro Mazarópi, como veremos a seguir.

Finalmente restava o Botafogo na última rodada (29-05). Cabe lembrar que neste período já havia iniciado a fase de grande invencibilidade do Vasco sobre o Botafogo que duraria 5 anos – entre 1976 e 1981. O Botafogo não conseguia vencer o Vasco, numa das mais famosas “escritas” do futebol carioca. A última partida da Taça Guanabara contou novamente com um público excepcional: cerca de 131 mil pessoas (na maioria vascaínos) que viram o coroamento do time e de Roberto Dinamite, autor dos dois gols da vitória por 2 a 0. Era o bicampeonato da Taça Guanabara em grande estilo.

Se o Botafogo carioca caía diante do Vasco, em São Paulo, um outro Botafogo, o de Ribeirão Preto, surpreendia a todos os paulistas com a conquista do primeiro turno. Em seu time começava a aparecer uma nova estrela do futebol nacional. Um jovem alto, magro e estudante de Medicina: Sócrates.

O ano de 1977 não foi bom só para o Vasco, mas também vários vascaínos aumentavam sua popularidade e se consagravam. Nas telas dos cinemas, Sonia Braga se destacava como símbolo sexual com o sucesso de Dona Flor e Seus Dois Maridos[14], lançado em 1976 e estourando nas bilheterias ainda em 77. Outro vascaíno que nos anos 1970 que fez muito sucesso no cinema[15] e na televisão era Renato Aragão, seja com “Os Trapalhões” ou nos inúmeros filmes voltados para o publico infantil. Na Tv também dominava o animador Abelardo Barbosa, o “Chacrinha”, sempre exaltando o Vasco nos seus programas… “Vocês querem bacalhau?…” Na música, Paulinho da Viola, Martinho da Vila e a dupla Erasmo e Roberto Carlos[16], afirmavam sua paixão pelo clube carioca. Na literatura, Rachel de Queiros[17] era eleita em 1977 a primeira mulher na Academia Brasileira de Letras. Também em 1977, Pelé (torcedor do Vasco na infância) se despedia do futebol jogando pelo Cosmos[18]. O jovem piloto Nelson Piquet embarcava para a Europa para tentar o sucesso na Fórmula 1.

Chegamos em junho de 1977[19] e o Brasil se modernizava com a adoção da lei do divórcio através da emenda constitucional nº 9 e recebia a primeira-dama dos EUA, Rosalynn Carter, com promessas de seguir uma política de respeito aos Direitos Humanos. Entretanto, no reino do futebol a modernidade se encontrava longe e entre o primeiro turno do campeonato carioca (Taça Guanabara) e o segundo turno, o futebol carioca ficou parado por cerca de 45 dias!!! Neste espaço de tempo a equipe carioca disputou uma série de partidas amistosas por todo o Brasil e no exterior[20]. A longa parada tinha uma explicação no confuso calendário esportivo para atender os jogos amistosos da seleção e das disputas finais[21] das partidas nas Eliminatórias que nos levariam ao Mundial da Argentina.

[1] O Tricolor disputaria o campeonato com o seguinte time-base: Wendell ( Renato), Rubens, Miguel, Edinho e Marinho Chagas; Pintinho, Cleber (Arturzinho) e Rivelino; Cafuringa, Doval e Luis Carlos. Técnico: Travaglini, e depois, Pinheiro.

[2] O Fluminense recebia Marinho Chagas, conhecido como “O Bruxa” (destaque na Copa de 1974 e grande ídolo do Botafogo nos anos 1970) e dava em troca Gil (titular da seleção brasileira em 1977), PC César Caju e

Rodrigues Neto.

[3] Por ter grande número de jogadores na seleção naquele ano (Nilson Dias, PCaju, Gil e Osmar) , muitos chamavam, no inicio de 1977, de Selefogo. Além de contratar um novato lateral que se destacou no futebol baiano em 1976: Perivaldo. O time-base era Ubirajara (Zé Carlos), Perivaldo, Osmar, René e R. Neto; Ademir, PC Caju e Mário Sergio (Manfrini); Gil, Nilson Dias e Dé. Técnico: Sebastião Leônidas.

[4] O Flamengo teve o seguinte time-base: Cantarelle, Toninho, Rondinelli, Carlos Alberto Torres e Júnior; Carpegianni, Merica (Adílio) e Zico; Osni, Luisinho (C. Adão) e Luis Paulo. Técnico: Coutinho. Era o primeiro ano do novo presidente, Marcio Braga.

[5] O América era formado por País, Uchoa, Alex, Biluca e Álvaro (Valença); Renato Bráulio e Mário; Reinaldo, Ailton e Gilson Nunes. O técnico era Tim, último treinador campeão carioca pelo Vasco (em 1970).

[6] Em seu livro o jornalista Helio Sussekind registra a hegemonia da dupla Fla—Flu naquele período: “entre 1971 e 1986 foram disputados 17 campeonatos  cariocas (dois deles em 1979). A Dupla Fla-Flu conquistou 15 destes títulos” (Sussekind, 1996, p.36). Eis os títulos do Vasco conquistados nos anos 1970: em 1972, Campeão do 3º Turno do Estadual (Invicto); em 1973, Campeão do 3º Turno, Grupo A do Estadual  (Invicto);   em  1974, Campeão do 2º Turno do Estadual (Invicto);  em 1975, Campeão do 3º Turno do Estadual  e em 1976,  Campeão da Taça Guanabara. Fonte: www.netvasco.com

[7] A estréia do Vasco no campeonato carioca de 1977 foi em Campos contra o Goitacas, vencendo por 2 a 1. Depois vieram as goleadas de 6 a 0 com o Bangu  (3-04) e 4 a 0 com o Campo Grande (6-04).

[8] A única derrota em todo o campeonato impediu o Vasco de conquistar mais um campeonato carioca invicto, como em 1924, 1945, 1947 e 1949. O próximo título invicto seria somente em 1992.

[9] “Na falta marcada pelo juiz que resultou no gol do Uchoa, o juiz marcou mão do Mazaropi fora da área, e foi muito discutível, pois a minha impressão na hora, confirmada pelo VT mais tarde, foi que o Mazaropi saiu da área para defender um lançamento longo pelo alto, deixou a bola quicar, recuou um passo para trás e segurou a bola já dentro da área, no ar. O juiz, longe do lance, achou que foi fora da área e não me lembro se houve aceno do bandeirinha”. Depoimento de Mauro Prais (Netvasco) em janeiro de 2010.

[10] Contra o Olaria, 3 a 0 (13-04) e Madureira, a maior goleada do time: 7 a 1 (17-04).

[11] Um estudo aprofundado sobre as torcidas organizadas no Rio de Janeiro dos anos 1960 até os dias atuais ver (HOLLANDA, 2008).

[12] Na partida contra o América (segundo turno), o zagueiro chegou até ir para as arquibancadas comemorar seu aniversário numa festa promovida pelos torcedores.

[13] “O Fluminense foi a pedrinha na chuteira do Vasco desde a época de Castilho até 1987 (…) Eu cresci sofrendo nas semanas dos jogos contra eles. A bruxa ficava solta e havia contusões, confusões, crises, o diabo. Vi uma vez o Vasco ficar sem os três goleiros e teve que escalar um coitado dos juniores, chamado Samuel. Com três minutos de jogo o Rivelino soltou a bomba da intermediaria e o Samuel aceitou. Terminou 4 a 2 para eles. Nas partidas contra o Flu, mesmo se o Vasco jogasse melhor, não conseguia ganhar por azar ou por roubo, ou quando ganhava era apertado, de 1 a 0 ou 2 a 1. Em compensação, o Flu vivia dando goleadas de 4 a 1, 5 a 1, 3 a 0 então era igual chuchu na serra. Quando o Vasco ganhava de 2 a 0 era uma goleada (…) a minha esposa conta que quando o Vasco deu de 4 a 1 no Fluminense em 1979 ela pensou que ia morrer, pois vivia dizendo que não morreria sem ver o Vasco dar uma goleada no Flu (…)”.Depoimento de Mauro Prais (Netvasco) em janeiro de 2010.

[14] De acordo com os dados da Ancine (Agencia Nacional de Cinema), o recorde de bilheteria de filmes nacionais pertence a “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, com 10,7 milhões de espectadores e o segundo, também estrelado pela atriz “A dama do lotação” (1978), com 6,5 (milhões). Cf. O Globo, caderno especial “Premio Faz Diferença”, p.12 em 23 de janeiro de 2010.

[15] Nesta época também fazia sucesso O Canal 100, com a exibição (antes dos filmes) das fantásticas imagens dos jogos. Por sinal, seu produtor, Carlinhos Niemeyer, foi diretor de futebol do Flamengo neste ano.

[16] Indagado pelo jornalista sobre sua opção política, em 1976, Roberto Carlos saiu pela tangente: “Eu sou Vasco da Gama (…) tenho minhas opiniões, mas as considero muito particulares. Nunca farei declaração política”. Cf. (Revista Veja Especial, 30 anos, 1998, p.44). O álbum do cantor e compositor Roberto Carlos de 1977 foi um dos maiores sucessos de sua carreira. Entre as músicas mais marcantes estavam: Amigo, Falando Sério, Muito Romântico, Solamente Una Vez, Cavalgada, Não Se Esqueça De Mim e Jovens Tardes De Domingo.

[17] A escritora já havia recebido homenagem no clube desde os anos 1940, quando defendia o Vasco contra o Flamengo de seu amigo, o escritor Jose Lins do Rego (COUTINHO, 1994).

[18] A despedida ocorreu no dia 1 de outubro no amistoso contra o Santos (Lever, 1983, p.122). Vinte anos antes Pelé jogaria com a camisa do Vasco, num combinado Vasco-Santos. Na ocasião fez 5 gols e teve atuação muito destacada, sendo por isso convocado para a seleção brasileira pela primeira vez. Cf Revista do Vasco 1971.

[19] No dia 14 de junho de 1977 nascia mais uma vascaína: a futura atriz Camila Pitanga. Neste mês e ano também nasceu um vascaíno que daria muitas alegrias a torcida: Pedro Paulo de Oliveira, o Pedrinho, futuro ídolo e campeão brasileiro vinte anos depois (1997).

[20] Encontrar adversários para disputar amistosos não era uma tarefa muito difícil, todos queriam enfrentar e ver de perto aquele time que estava encantando os cariocas. Os jogos serviam para pagar o “bicho” dos jogadores pela conquista da Taça Guanabara. Os jogos deste período foram: em Goiânia, contra o Vila Nova, empate em 2 a 2 (7-06), contra o Brasília, no Distrito Federal, novo empate em 1 a 1 (9-06). Em seguida em excursão para a Europa com paradas em Portugal, 1 a 1 contra o  Porto e na França para disputar o Torneio de Paris: empate em 1 a 1 com o Anderlecht,  da Bélgica e derrota para o Paris de Saint Germain por 2 a 1 (23-06). A equipe jogou desfalcada de Orlando, Roberto e Dirceu, convocados para a seleção brasileira. O Torneio Internacional de Paris foi criado em 1957, em comemoração dos 25 anos do Racing Club de Paris. O objetivo principal dos franceses era criar uma competição reunindo os melhores clubes europeus e sul-americanos e ser o grande evento do calendário internacional do futebol. O Vasco foi seu primeiro campeão. Em 1973 voltou a ser disputado regularmente até 1993 (exceção de 1974 e 1990), organizado agora pelo Paris Saint-Germain e seus patrocinadores. Era um torneio de 4 jogos disputado em 2 dias no Estádio Parc des Princes em Paris. Cf. www.wikipedia.com

[21] O Brasil jogou contra várias seleções européias no Rio de Janeiro: Inglaterra, Alemanha, Polônia, Escócia, Iugoslávia e França. Nas Eliminatórias nos classificamos ao  vencermos o Peru (1 a 0)  e a Bolívia (8 a 0), com Dirceu e Roberto como titulares.

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