O Vascão do meu amigo Xuru

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Desde aquele dia do cruzamento de letra do Leo Lima até aqui, foram doze anos. Quem apanha não esquece.

Xuru não estava nada bem de saúde, mas esperávamos que a doença regredisse.

Rimos depois daquele título. Ele, feliz. Eu, não. Nossa amizade estava muito acima de qualquer futebol. Acabou o jogo, bebemos um chope no Centro.

Naquele 2003 eu perdi, assim como em 1987 ele ficou uma fera depois daquele golaço do Washington – ele saiu do lado vascaíno e veio me procurar na torcida do Flu:

– Ah, cara, foi foda. Vou embora. Não há mais nada a fazer.

Depois, rimos. Eu também sofri muitas vezes com Roberto.

Na Copa União de 1988, ganhei de novo. Foi um jogaço. O Vasco tinha um supertime, o Flu jogou com o coração na boca, outro golaço do Washington. Nos abraçamos, voltamos juntos para Copacabana e no dia seguinte… voltamos ao Maracanã. Secar o Flamengo contra o Grêmio. Cuca de cabeça, 1 x 0.

Houve um tempo em que o Vasco volta e meia jogava em São Januário domingo à noite, acho que pelo Brasileiro. Tocava o meu interfone: era o amigo voltando da casa da namorada:

– Paulón, vamos pro jogo?

– Claro.

Estacionávamos o Astra branco dele perto da entrada de sócios e encarávamos as pelejas.

Ainda deu tempo de vermos uma partida juntos, na casa do Gota no Arpoador. Pela televisão. O Flu ganhou o Ceará e foi para a final da Copa do Brasil de 2005. Brincamos com o fato do Xuru estar com um pulôver verde de traços avermelhados, chamando-o de “vira casaca”. Ríamos. E fingíamos que a morte dele não era uma realidade à beira do campo.

Um dia, acabou.

Eu voltava de São Paulo e soube da notícia pela Pepsi, a mesma tão linda numa foto de outra Copacabana. Já imaginava: ao ligar para cinco amigos que possivelmente estavam a seu lado, querendo notícias, nenhum atendeu os telefonemas. O Vasco jogava e acabou empatando em zero a zero. Onze de setembro de 2005. Maldito dia.

Eu também podia falar daquela goleada do Flamengo por 4 x 0 quando Zagallo estreou como técnico – fomos embora bem mais cedo, afogando as mágoas no Mercado São José. Ou do golaço de Romário na Guanabara de 1986. O Tita. Vasco e América, Vasco e Botafogo, qualquer um.

Nossas intermináveis partidas de botão, com a dona Delfina torcendo. Acampamentos escoteiros. Chope no Rondinella.

Aprontamos uma forte: duas voltas olímpicas na Gávea minutos depois da noite de Santo André 2004, com a bandeira vascaína desfraldada na arquibancada. Loucura. Risco de vida e morte. Depois rimos.

Esse campeonato de agora foi meio chato pelo extracampo, o que não tira de forma alguma o mérito do campeão, que me hospeda aqui de forma deveras solícita. A cartolagem atrapalhou tirando o clima. Mas uma final é uma final. A torcida do Vasco começou a acender suas luzes maravilhosas e pensei no Xuru. Ele estava mais vivo do que nunca enquanto elas reluziam. Ninguém pode passar impune ao grito de amor de uma torcida de futebol num Maracanã lotado, mesmo que abaixo do que já foi um dia. Só faltava a querida geral.

Recomendo a todo mundo que tenha um grande amigo na torcida rival. Um grande, um monumental amigo de verdade. Um irmão. Tudo para se entender que futebol é mais do que um jogo, mais do que uma paixão, e não tem absolutamente nada a ver com o ódio idiota, o deboche infeliz, a violência estúpida, a empáfia dos babacas. É a hora de voltarmos à infância, aos melhores anos de nossas vidas. Coisa de amigo, família, namorada. Fazer amigos na própria torcida é o fácil, o óbvio. A vida se constrói com o diferente, a subversão das evidências. E que a amizade está acima de todas as coisas.

Quando as luzes piscaram sem parar no belo carnaval da vitória de domingo passado, muitos rivais torceram o nariz e muitos outros sorriram como nunca. Ali, eu enxerguei mais do que a vitória: me reencontrei com meu irmão por alguns minutos. Foi rápido mas inesquecível. Sei respeitar o irmão de campo e o do coração.

Quando você tem um amigo de verdade, o futebol só pode servir para o bem. Uma pena quando a partida acabou; eu esperava por um telefonema e uma risadinha que não aconteceram:

– Rãrãrãrãrã! Deu Vascão! Casaca!

Vida que segue. Ainda bem que o Catalano está aqui.

@pauloandel

Xuru

Rubens Nunes Carvalho (1970-2005)