O uso ilegal do VAR

A noite catastrófica em São Januário, quando fomos derrotados pelo Atlético Goianiense por 2 a 1 e pouquíssimas peças se salvaram, poderia ter sido salva não tivéssemos, mais uma vez, sido prejudicados por essa excrescência chamada VAR.

Para deixar claro o que eu estou afirmando, convido vocês a uma visita ao site da CBF, onde se encontra o Livro de Regras do Futebol versão 2020 2021, com atualização de 16/07/2020.  Nessa página, qualquer pessoa pode fazer download do arquivo em PDF das tais regras. São 228 páginas esmiuçando tudo acerca das regras do esporte, dentre as quais, o VAR.

Na página 75, no item 4, lê se o seguinte: (os destaques são meus)

“4. Árbitro Assistente de Vídeo – AAV (VAR)

O árbitro assistente de vídeo AAV (VAR) só será permitido quando o organizador
da competição atender a todos os requisitos do Protocolo VAR e aos requisitos
de implementação (descritos no Protocolo VAR) e tiver recebido permissão por
escrito da IFAB e da FIFA.
O VAR pode auxiliar o árbitro apenas no caso de um ‘erro claro, óbvio e manifesto’
ou ‘incidente grave não percebido’ em relação a:
• Gol/não gol;
• Pênalti/não pênalti;
• Cartão vermelho direto (não segunda Advertência com Cartão Amarelo-CA);
• Erro de identificação (quando o árbitro aplica CA ou CV a um jogador errado
da equipe infratora).
A assistência do árbitro assistente de vídeo-AAV (VAR) será baseada na repetição
do incidente. O árbitro é quem toma a decisão final, que pode ser baseada
exclusivamente nas informações do VAR ou na revisão que ele próprio fizer no
campo.
Exceto no caso de um incidente grave despercebido, o árbitro (e, se necessário,
outros membros da equipe de arbitragem em campo) deve sempre tomar uma
decisão (mesmo para não penalizar uma eventual infração). Esta decisão só
poderá ser modificada se houver um “erro claro, óbvio, manifesto”.

Este trecho é o suficiente para que fique claro que o que estamos assistindo neste campeonato brasileiro é uma grave deturpação do princípio mais básico da atuação do VAR de acordo com as leis do futebol.

Ontem, com cerca de quarenta minutos do segundo tempo, Cano fez um gol maravilhoso e empatou a partida, que parecia perdida. Era a hora de colocar a bola no centro do gramado e abafar o adversário em busca da virada.

Mas isso não foi possível, porque o var viu mão na bola de Cano. O lance, repetido várias vezes na transmissão, é tudo, menos “claro, óbvio e manifesto”. O resultado prático é a anulação de um gol que não tem amparo legal para ser anulado (lembrem do “claro, óbvio e manifesto”), e o fim da reação do time. O var está funcionando como um goleiro deitado no chão fazendo cera. São minutos infindáveis esperando que suas excelências definam aquilo que lhes interessa definir. Ora, o futebol é um jogo de contato e muitas de suas marcações (ou não marcações) são subjetivas. Como então interferir objetivamente numa marcação subjetiva da arbitragem de campo?

Os exemplos abundam (com duplo sentido):

  • Mão na bola de Andrey contra o São Paulo (Longos minutos repetindo a jogada sem que se tenha chegado à conclusão de se a bola efetivamente tocou ou não na mão do jogador)
  • Pênalti pro Flamengo, contra o Botafogo, aos 50 do segundo tempo, por suposto toque de um jogador de costas pra bola (O juiz, a dois metros do lance, sinalizou que a bola havia batido no ombro. Não havia, em nenhum dos ângulos, a confirmação de que a bola, de fato, tocou no braço do botafoguense.
  • Gols anulados do Santos, também contra o Flamengo, por impedimentos milimétricos, nos quais a partida ficou parada por quase dez minutos.

Neste, cabe um adendo: Com raras exceções, o impedimento é uma marcação objetiva. Então, por que a demora? Sendo algo pentelhonésimo, onde está (perdoem a insistência) o erro “claro, óbvio e manifesto”? Além disso, onde foi parar o famoso recurso do “tira teima”, que por anos a fio nos mostrou impedimentos de dez centímetros desenhando uma linha na tela da tv? Se aquilo era minimamente válido, o que justifica que um jogo fique parado por uma eternidade para que o juiz fique vendo e revendo um lance numa tela de tv tentando decidir um impedimento que a tecnologia de anos atrás definiria em segundos? Onde foi parar a tecnologia que teoricamente existe há anos?

Resumindo, o que estamos assistindo no campeonato brasileiro como sendo o VAR é uma clara, óbvia e manifesta distorção das regras do futebol. Resta saber com que objetivos.