O táxi do Seu Ivanir

seu ivanir do táxi

Tinha acabado de me despedir dos amigos Duda, Júlia e Gabriel na rua São Francisco Xavier, por volta das quatro da tarde. Eles, jovens cheios de energia, encaminhavam-se para o Maracanã, à espera do jogo Fluminense x Cabofriense. Eu, cansado. Nós, arrasados.

Era nosso retorno do cemitério de São Francisco Xavier, onde aconteceu o enterro de nosso amigo Paulo Maurício, o Tato, um símbolo das arquibancadas tricolores (presidente de três torcidas organizadas, Young Flu, Fôrça Flu e Garra Tricolor). Tato era querido por todos, pessoa das mais absolutas calma e paz, sempre brincalhão. Não vinha tão bem de saúde ultimamente, mas ninguém imaginou que pudesse nos deixar tão cedo.

Ao deixar o cemitério, uma cena que jamais esquecerei: na porta de uma das capelas, surge um menino negro, de chinelos, trajes humildes, talvez uns dez anos de idade, gritando de dor e desespero por causa de alguém querido, sendo imediatamente abraçado por uma adolescente e mais outras pessoas. Nenhuma criança deveria sofrer daquele jeito.

Ao deixar os amigos na Xavier, fiz sinal para um táxi. Como raras vezes acontece no Rio, o motorista parou impecavelmente no acostamento, no lugar exato para que eu acessasse a porta de trás do veículo.

Ainda meio tonto com a derrota da vida, disse rapidamente ao motorista “Cruz Vermelha”. Alguns momentos de silêncio e então percebi que o rádio transmitia um jogo. Era o do Vasco. De tarde, porque embora o futebol tenha “gestão”, “planejamento” e outras iguarias da verborragia, boa parte dos estádios de menor porte simplesmente não têm refletores.

Subitamente, o taxista começou a puxar assunto de forma muito simpática. Um senhor, talvez perto dos setenta anos, bastante ágil na conversa e com o forte sotaque lusitano carregado:

– Êss tim do Vasc me deixa com os nervs à flor da pél. Imagin que já stávams a atacaire e agora els estão com um scanteio atrás doutr, ess dfesa não vai aguentáire.

Achei graça. A partida tinha começado há uns cinco minutos. Era claro que se tratava de um daqueles vascaínos fanáticos, represado ali pela hora do trabalho, mas profundamente apaixonado. O jeito calmo de dirigir contrastava com seu nervosismo ao ouvir a atuação do time em campo.

Depois de um dia inteiro de tristeza, sorri para mim mesmo. Pensei que, se um dia eu chegasse à idade dele, queria manter aquela aura apaixonada de torcedor, o time do coração no radinho e você ensandecido, louco, querendo o bem, como se ali estivesse a pessoa mais amada. Foi meu primeiro sorriso depois de muito choro. Depois, inevitável rir mais alto: o taxista tinha orelhas grandes, típicas dos senhores de idade – minha mãe, que faleceu tão jovem, tinha medo de, ao ficar velhinha, as orelhas crescerem demais.

Então falamos de futebol, de Fluminense, de Vasco, de Flamengo – que não queríamos campeão de jeito nenhum. Das velhas partidas de antigamente: o alçapão da rua Bariri, o estádio do ventos uivantes da Portuguesa da Ilha, o querido campinho da rua Figueira de Melo. Ele se lembrou do temido Ítalo Del Cima. Coisas que foram embora e dão uma saudade enorme, assim como pensar no amigo Tato.

O Vasco atacava e era atacado. Dentro daquele táxi, por alguns instantes entre a Haddock Lobo e o morro de São Carlos, eu era uma criança de volta, daquela que escutava os mais velhos a contar histórias deliciosas de futebol, em pensar em como estaria sendo o jogo que escuto no rádio, em pensar no Fluminense sem levar em conta a onda de megalomania oca que inunda indevidamente as três cores. Voltar rapidamente no tempo, uns trinta e poucos anos, para recordar quando éramos meninos e jogávamos bola na geral antes das partidas. Ou quando pegávamos um ônibus, contando nossas moedas, para atravessar a cidade até Madureira, Marechal Hermes, Andaraí, em busca de um jogo qualquer – fiz isso muitas vezes.

Quando surgiu na janela a imagem do Sambódromo à esquerda, eu pensei nas velhas estruturas de ferro que eram as arquibancadas – o 435 passava em parte da Marquês de Sapucaí em seu trajeto até o Maracanã.

Entre esses pensamentos, o taxista simpático, de orelhas grandes e cabeça grande, idoso e jovial, não parava de faláire. Era ótimo, divertido. Se eu não tivesse que voltar para o trabalho, gastaria o triplo para que ele me levasse até a Urca, só para ouvi-lo e me sentir acolhido por um irmão de futebol, essa figura tão importante na minha vida e que, aos poucos, está desaparecendo dos estádios travestidos de arenas.

Pena que a viagem acabou rápido. Na esquina da Henrique Valadares, pedi para encerrar. Ainda precisava lanchar antes de voltar aos cálculos.

Agradeci pela corrida, pelas palavras, perguntei-lhe seu nome. Chamava-se Ivanir. Seu Ivanir do táxi. Então nos despedimos. Parei na lanchonte, pedi um croissant, vi recados engraçados do Caldeira na internet, chorei, voltei para minha confortável sala de trabalho e enfrentei os números mesmo sem a menor condição psicológica para tal. A vida é encarar os obstáculos de frente.

Durante dez ou quinze minutos naquele táxi, pouco importava quem era Fluminense, Vasco, Botafogo, qualquer coisa. Dois sujeitos lembrando de onde o amor os levou; de um tempo sem rancores, de amizade, de prazer só de falar de futebol, pensar nos radinhos de pilha, o jogo seguinte, o jogo seguinte, o próximo jogo, sem a preocupação narcisista e oca de fazer a festa melhor do que o outro, de ser melhor do que o outro. O futebol foi feito para divertir e unir, tudo muito longe dessa escrotidão que aí está. A idiotice de agredir alguém porque torce para outro time, em alguns casos ainda mais primitiva quando membros de uma torcida enrustida agridem seus iguais de arquibancada, sem pensar que amanhã vai ser outro dia.

Foi o Tato quem mandou o Seu Ivanir me buscar de táxi, não restam dúvidas. Sou grato aos dois.

Que o menino da capela tenha uma vida feliz e seja um grande torcedor.

@pauloandel