O Saara de Moça Bonita

Quarta-feira, 19 de fevereiro, quatro da tarde.

Está marcado o martírio para os torcedores do Vasco.

Não pela equipe e pelo ano que promete, já com o time no topo do Carioca 2014 e mostrando que a reconstrução é um fato.

Jogo contra o Bangu em Moça Bonita, no pico do verão, já sem horário de verão. Verão?

Inferno, querem dizer.

Para os outros times também, grandes ou não.

Sensação térmica de uns cinquenta e poucos graus. Nenhuma área de sombra. Praticamente uma tarde no Saara. Torcedores que trabalham convencionalmente estão vetados por razões evidentes.

Com tais atributos, um jogo que afugenta torcedores em vez de atrai-los. O contrasenso do futebol.

Moça Bonita poderia ser um dos melhores estádios do Brasil. Ainda tem o campo com as dimensões do velho e querido Maracanã. Na porta do trem e a dois minutos da avenida Brasil. Palco de partidas memoráveis. O campo teve uma praga, a grama está queimada mas boa. Há vários anos tem sido um dos principais palcos do Campeonato Carioca.

Com jogos entre janeiro e abril, seria natural que tivesse jogos à noite, preservando os jogadores e os torcedores, inclusive atraindo mais público, vide outrora.

Contudo, não pode: os refletores estão queimados, o Bangu não tem dinheiro, a Federação não move uma palha e a emissora que transmite…

A cada ano que passa, uma série de coincidências faz com que os torcedores sintam-se cada vez mais estimulados a ver as partidas em bares ou em casa.

Para a emissora, excelente. Para o futebol, é claro que não.

A patetada do último Fla-Flu, alijando o torcedor tricolor do jogo – até flamenguistas levaram uma faixa de protesto! – para, na verdade, impedir o mosaico que iria denunciar a imprensa marrom, foi mais uma incrível coincidência no mundo de André Santos e Heverton. Nenhum jornalista dá um pio.

Lá vai o Vasco para o Saara de Moça Bonita. Se ninguém fizer nada, 2015 será a mesma coisa. Só a TV lucra (muito) com isso.

Saudades da logomarca do SBT na camisa cruzmaltina.

Nota: desde já, meu muito obrigado aos vascaínos – e tricolores e alvinegros – que têm prestigiado esse consulado do Flu no PANORAMA VASCAÍNO. Sinal claro de que adversários no campo podem ser amigos fraternos sempre. E que o contraditório, a dialética e a pluralidade são bem-vindas num país onde tentam impor o conceito de um time muito melhor e mais-querido do que os outros juntos – o que todos sabemos ser uma piada de mau gosto.

@pauloandel