O que sobrou do futebol

Noutras circunstâncias, a final do próximo domingo já estaria pegando fogo. O Vasco, a um empate do sonhado título desde 2003. O Botafogo precisando da vitória por dois gols – ou um para os tiros livres da marca penal, bem explicados por Mário Vianna (com dois enes, que fazia questão de frisar com seu vozeirão na Rádio Globo).

Catalano já foi preciso por aqui ao falar da lenta demolição do público nos estádios de futebol, especialmente o Maracanã. É duro demais pensar que um Vasco x Botafogo merecia 100.000 pessoas, não 55.000.

Argumentos mais cômodos são os de que o mundo mudou, o que não podia passar indiferente ao futebol. Acontece que os estádios encolheram não por desinteresse do público, mas pelo esvaziamento planejado pela Fifa: arenas em vez de estádios, platéias em vez de torcidas, ingressos mais caros para compensar e o pobre que se encoste na TV da birosca. A “modernidade” nada mais era do que uma estratégia de mercado, pouco importando a opinião e o desejo do público consumidor.

Na Alemanha os estádios enchem: bons times, craques, ingressos com preços compatíveis, lugares em pé para geraldinos. A Inglaterra tem trocentos estádios pequenos, não por imposição da Fifa, mas por suas características históricas: parks centenários. Jogos transmitidos a qualquer hora. Enquanto isso, ligue a TV depois da novela e veja o vazio na tela, com as abandonadas cadeiras plásticas ou acrílicas, sei lá.

Definitivamente, qualquer final de futebol disputada no Brasil não chega às unhas das que aconteceram no passado. Houve um planejamento para isso: o esporte bretão deveria virar um produto televisivo, descartável, permanente. Esqueceram-se de que o campo exige espetáculo, e quem fazia isso era a legião de personagens caricatos das gerais, as multidões humildes nas arquibancadas. Nossas classes abastadas não têm interesse nas arenas, exceto num evento para verem e serem vistas, como a Copa do Mundo. Não abrem mão do seu Village Mall para ir até o subúrbio…

Nos anos 70 e 80, o Maracanã mal tinha metrô (ou não tinha), os trens eram piores (acredite), não havia internet, celular, ingressos on line. Uma agência de turismo em Copacabana vendia ingressos antecipados. Em Niterói também. Cartão de crédito não servia para pagar. Vivia lotado, com o triplo do que teremos domingo.

A Fifa mandou, o Brasil obedeceu. Nesta cidade, temos quatro times que estabeleceram os paradigmas do futebol no país e contribuíram decisivamente para as cinco estrelas da Seleção Brasileira. Que não se entendem, não dialogam e por isso, domingo teremos um grande campeão, mas o futebol já saiu derrotado desde que perdemos aquele velho clima de preliminar lotada às três da tarde, clássico monumental às cinco e grandes resenhas às nove.

Agora os gênios inventaram a solução: domingo, às onze da manhã, horário simpático, uma bela novidade que já existe em São Paulo há quarenta anos. Da quarta-feira às dez da noite e dos sábados às nove da noite, não se ouve um pio. É claro que a turma do shopping não vai. A gente se vê por aqui.

@pauloandel