O que mudou, afinal?

Cenário 1: campeonato brasileiro da série B 2009. Ao final de 29 rodadas, o Vasco encontrava-se na primeira colocação, com 57 pontos ganhos: 16 vitórias, 9 empates e 4 derrotas. Sua distância para o quinto colocado era de 8 pontos.

Cenário 2: campeonato brasileiro da série B 2014. Ao final de 29 rodadas, o Vasco encontra-se com 54 pontos, temporariamente (até a Ponte Preta debutar mais logo) líder, com 14 vitórias, 12 empates e 3 derrotas. Sua distância atual para o quinto colocado é de 5 pontos, nesse momento.

Tal como na campanha desse presente certame, em 2009 assistimos a jogos horrorosos daquela equipe do Vasco, formada e treinada na época por Dorival Júnior. Quem não se lembra dos sofríveis empates sem gols em São Januário contra São Caetano (num sábado, às 21 horas, logo após Gaciba ter nos tirado no apito a vaga para a final da Copa do Brasil frente ao Corinthians), contra o Bragantino (o mesmo que há exata uma semana sofremos para empatar com dois gols já nos acréscimos) e contra o Duque de Caxias? Isso somente para citar três, pois até mesmo nas vitórias “magras” (contra o Guarani e o próprio jogo contra o Juventude, ambas com o Maracanã lotado – sendo essa última a que sacramentou a volta à elite) houve sofrimento, e o bom futebol desfilou distante do relvado…

Se considerarmos que os descuidos com os empates já nos acréscimos que sofremos perante Icasa e Sampaio Correia, ambos fora de casa, seriam mais quatro pontos. Com isso, essa conta chegaria a 58 pontos em 29 jogos, média de 2 pontos por jogo e campanha superior, em pontos obtidos, à campanha daquele time formado em 2009, passadas as mesmas 29 rodadas, repito.

Quanto aos times, a mesma mediocridade de quatro anos: NADA evoluiu. A Ponte Preta, no presente momento potencial candidata a esse título, no mesmo quilate de seu rival, Guarani de Campinas, sem tirar nem por. As demais equipes que subiram junto com o Vasco, Atlético-GO e Ceará além do próprio Bugre, todas elas se equiparando ao futebol (ou à ausência do mesmo) demonstrado pela mesma Macaca, Joinville, Avaí e o mesmo Ceará, concorrente direto ao acesso, também na época.

Mesmo com o time praticando um futebol sem brilhantismo, tal como no momento com um monte de jogos horrorosos, dignos de pena para quem ainda é saudosista e preza pelo bom futebol sempre, e alternando vitórias “magras” com empates insossos e uma ou outra derrota apenas.

O que mudou, então?

Em primeiro lugar, toda a atmosfera criada ao redor do rebaixamento em 2008 e em 2013. Se em 2008 a torcida vascaína garantia o “amor sem divisão”, em 2013 um misto de revolta e indiferença marcou nossa queda. Na época, procurava-se dar apoio a quem entrou no poder, inclusive, seis meses antes. Diretoria recém-empossada, ainda com dois anos e meio para mostrar serviço ao clube, e uma dose de MUITO boa vontade da mídia que apoiou a Roberto, sejamos muito honestos, ao não querer lhe imputar a culpa da queda na época por não querer nem ouvir falar, um dia, na possibilidade de Eurico Miranda retornar ao poder do clube.

O contrário de 2013, esse sim, com uma atmosfera totalmente desfavorável: diretoria desacreditada por todos, pelos próprios vascaínos responsáveis por colocarem Roberto e seu grupo no poder inclusive, e por culpa da própria que se mostrou incapaz de gerir uma força como o Vasco na maior parte do tempo ao longo de seus mais de seis anos de mandato; mídia sem dar o mesmo incentivo e, porque não, a mesma “blindagem” que deu a Roberto na época; além da torcida dividida politicamente (em escala muito maior do que foi em 2008). Ao contrário do slogan “amor sem divisão”, a frase tal como foi ouvida no aeroporto em um dos desembarques de um dos muitos jogos pífios desse time, ao longo do certame: “se não subir, já sabe…”.

Em segundo lugar, o projeto no qual se acreditava e as pessoas que lá colocaram sob grande expectativa por algo novo, quando no período de transição de temporada, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009. Se na época, o projeto de profissionalização era bem quisto, aceitado e acreditado pela maior parte dos que apostavam em um trabalho sério, o mesmo não se pode dizer com relação ao ano de 2014. O profissional envolvido como protagonista é o mesmo, porém em condições diferentes. Se em 2009, Rodrigo Caetano tinha autonomia, “carta-branca” para comandar toda uma mudança sem interferências em suas escolhas, em 2014 não se pode afirmar o mesmo. Pequenos exemplos dão a dimensão da diferença: em 2009, Roberto não interviria na mudança de treinador e na contratação de um novo nome. Já em 2014, sabe-se que Joel Santana passou longe de ser uma escolha do próprio profissional. Logo, para quem sabe ler…

Por fim, reparem os contextos dos atos finais que determinaram a queda. Em 2008, sabia-se que as chances de escapar eram reduzidíssimas, pois só em ter que contar com a ajuda do arquirrival (que teria, ao menos, que arrancar um empate frente ao Atlético-PR na Arena da Baixada) já nos dava a exata dimensão do drama, além de ter de depender de mais dois dos três resultados possíveis, onde dois teriam de acontecer em comunhão com uma vitória vascaína, que não veio. Tudo isso na última rodada! O que fez a torcida, então? Lotou São Januário, cantou o tempo inteiro frente o Vitória e, mesmo na derrota, mostrou que estariam todos juntos lá para tirar o Vasco do buraco. E assim fez quando na estreia em São Januário, pela série B, em maio: cantou o jogo todo, e mostrou quem era Gigante naquela hora. Não a toa esse entusiasmo nos levou a vencer nossas três primeiras partidas daquele campeonato.

Em 2013, o contexto foi: queda mal digerida, por atos de violência no jogo no qual (pela covardia e resignação de quem, um dia, colocamos nosso futuro como Vasco em suas mãos) a torcida vascaína como visitante (vejam bem, como visitante!) passou de vítima a vilã. Em uma rodada na qual o improvável aconteceu, e haverá um dia, quem sabe se Deus quiser, a explicação desse surpreendente caso de dois jogadores irregulares escalados em uma mesma rodada, salvando o…preciso completar?! Enfim, enquanto em 2009 fomos para a segunda divisão com o sentimento de grandeza a ser resgatada, em 2013 fomos com o estigma de covardia e resignação que a torcida (Com muita razão. Eu inclusive.) não admite até hoje.

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Dos males, o menor. Ao que parece, nosso acesso (mesmo que tardio), começa a tomar corpo e alma. Se antes pairava a incerteza, a vitória de ontem foi boa (com direito ao trocadilho) para nos dar a convicção de que, ao menos, estaremos garantidos no próximo ano no lugar que nos pertence e que nos foi subtraído durante esse ano. Pensar, então, a partir do momento da confirmação matemática, na vida nova para o Gigante, mesmo que seja com a possibilidade de ser ter “novas-velhas” pessoas ao leme novamente, e 2015.

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semperdao

Sou uma pessoa que prezo o sentimento de justiça. Portanto, cabe a mim fazer essa indagação: estará a torcida do Vasco já preparando sua faixa a ser exibida no jogo que sacramentar o acesso, tal como foi em 2009, com o mesmo sentimento de se responsabilizar a quem nos colocou na segunda divisão? Só resta sabermos a quem agradecer pelo retorno. Como sugestão, deixo que o agradecimento seja aos jogadores e ao técnico, que conseguiram honrar e serem dignos de nos devolver à elite. Mesmo sem comando e sem salários em dia…