O produto é ruim? Vamos piorá-lo com uma crise…

Nasci em 1965. Este ano, faço 50tinha. Ou seja, sou do tempo que título de verdade era o do Campeonato Carioca. Ninguém ligava para Rio-São Paulo, Taça Brasil ou Robertão. Campeonato Brasileiro era tratado quase que como estorvo. Se ganhássemos, como em 1974, ano em que o Vasco se tornou o primeiro time carioca a ser campeão nacional, estávamos diante de um problema: iríamos jogar a incômoda Libertadores no ano seguinte.

E não era só no clube que havia essa mentalidade. Era, também, na imprensa. O Jornal do Brasil do dia 23 de fevereiro de 1975 deu uma página para a briga entre Luisinho Lemos (que estava sendo aliciado pelo clube da Gávea) e o América (sim, acreditem, o América dava página e tinha um timaço…) e o jogo de estreia do Vasco contra o Cruzeiro, ganhou espaço equivalente a meia página, embaixo do noticiário de um amistoso entre Flamengo e Fluminense, e misturado com tudo da Libertadores.

Em 1980, a Libertadores era um incômodo tão grande que, em sua prestigiada coluna Campo Neutro no mesmo Jornal do Brasil no dia 17 de abril de 1980, após a vitória do Vasco sobre os venezuelanos do Táchira por 1 x 0, o cronista José Inácio Werneck (que está até hoje na ativa) escreveu o seguinte: “Acho assim correta a posição de Fantoni. Perdermos a Libertadores não é importante. O importante é preparar o time para o Campeonato Carioca”. A coisa só mudou quando a Flapress quis ungir o “mais beneficiado” com o título de campeão do mundo. Algo que não existia mais, como revela a coluna do Werneck naquele mesmo dia 17 de abril, que dizia que a Libertadores estava desacreditada e que os europeus já tinham matado o Mundial Interclubes: “minha sugestão é que os clubes brasileiros deixem de disputá-la (a Libertadores) a partir do ano que vem”.

Ou seja, quente era o Carioca, que durava até seis meses, como foi o de 1975, com apenas 12 clubes.

Mas tudo muda e o tempo se encarregou, com apoio da mídia e dos péssimos cartolas de todos os times, a desgastar a imagem do Campeonato Carioca. Armações de bastidores, ladrilheiros em campo, papeletas amarelas, mudança de tabela, declínio total das equipes realmente cariocas (Olaria, Portuguesa, América, São Cristóvão e Campo Grande estão fora da primeira divisão há tempos), arbitragens parciais… Tudo isso fez com que um torneio de expressão e importante para os clubes se transformasse em um estorvo. Virou a Libertadores dos anos 70.

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Por isso tudo, acho que é preciso, antes de mais nada, repensar o Carioca. Primeiro, o número de times. Não dá para jogar com 16. Depois, a fórmula de disputa. Hoje é turno único (Taça Guanabara), com semifinais entre os quatro primeiros e finais. São 19 datas no total. Se fossem apenas 10 times, daria para fazer turno e returno de pontos corridos, com final entre os campeões de cada turno, se necessário. No máximo, 20 datas. Campeonato mais enxuto e parelho. Um tropeço contra um time pequeno seria fatal. Fora que todos os grandes jogariam, pelo menos, dois clássicos por ano contra os maiores rivais. Mais renda, produto melhor…

O problema é que, quando se tenta mudar alguma coisa, esbarra-se na velha questão do futebol brasileiro: farinha pouca, meu pirão primeiro. Não vou julgar o mérito de como isso foi feito, nem por quem foi feito, mas sim o que foi feito: a primeira medida em anos que tomaram para resgatar o Campeonato Carioca foi o corte do preço dos ingressos, com a meia entrada (que, reconheçamos, é uma festa neste País e no Rio) irrestrita. A medida colocou o valor em um mínimo de R$ 5 e um máximo de R$ 50 (ou seja, custam, de fato, entre R$ 10 e R$ 100).

O preço é justo? É caro ou barato?

Se analisarmos apenas o aspecto técnico, pagar R$ 5 para ver Barra Mansa x Volta Redonda é justo. Pagar R$ 15 para ver Botafogo x Boavista em São Januário, me parece barato. Pagar R$ 20 para ver Cabofriense x Vasco ou Macaé x Flamengo no Moacyrzão chega a ser caro, assim como para assistir Fluminense x Friburguense em Volta Redonda. Já pagar 50 ou 25 paus em um clássico, dependendo da fase dos times, pode ser caríssimo ou dentro do orçamento, de acordo como estão os clubes e a emoção da disputa. E pagar de R$ 10 a R$ 20 em jogos às 22h, que me desculpem os puristas e os críticos de tudo, estabelece um atrativo a mais para o torcedor de verdade, aquele sujeito que vai ao estádio numa hora de cão como essa.

O que eu acho engraçado nesta celeuma toda é que, agora, não dá para dizer que os ingressos estão a preços exorbitantes em um campeonato esvaziado, crítica que foi repetida à exaustão no ano passado, por todos os veículos. Lembremo-nos que a final de 2014 teve ingressos variando de R$ 80 a R$ 300 e levou ao Maracanã pouco mais de 42 mil pagantes. Este ano, terá preços entre R$ 25 e R$ 50, se for jogada no mesmo estádio. Vai dar quanto de público pagante? Mais, com certeza.

Com o corte dos ingressos, a Flapress entrou em desespero e o papo agora é que “cada clube deveria estabelecer seu preço, e não a federação, levando prejuízo se a escolha for errada”. Ou seja, o jornalismo-modinha decidiu que, como o comandante disso é o Eurico, está errado. Mas espera só um instante: esse regulamento foi aprovado em um Conselho Arbitral, do qual participaram todos os clubes. E só dois votaram contra: justamente os que não têm estádio próprio e hoje se submetem a um contrato com a arrendadora do Maracanã. Contrato que cobra uma média de R$ 12 por torcedor, como revelou o presidente rubro-negro na ESPN ontem. E eis aqui o X do problema: como a meia entrada é universal (tal como em vários eventos que pedem o chamado “quilo de alimento”), para fazer valer os direitos programa de sócio-torcedor, a dupla colorida terá de abrir mão de toda a receita deste tipo de associado. Ou seja, pagar para jogar.

Não se iluda: os dois rivais do Vasco não estão querendo moralizar coisa alguma. Só querem pagar a conta do contrato draconiano que assinaram. Para eles, é melhor cobrar R$ 80 a inteira (R$ 40 a meia) para um jogo contra o Bangu e só aparecerem 3 mil. Se metade for sócio-torcedor, a conta do aluguel está paga e pode até sobrar um cascalho. Mentalidade empreendedora? É zero. Fosse assim, a dupla estaria buscando o estádio próprio. Como, aliás, têm todos os grandes clubes do mundo: Juventus, Roma, Manchester City, Manchester United, Barcelona, Real Madrid, Porto, Benfica, Bayern, Vasco, Botafogo, São Paulo, Corinthians (ganhou de presente do povo brasileiro, mas é dele), Palmeiras, Santos, Internacional, Grêmio e por aí vai. Até o Olaria e a Portuguesa têm estádios.

Só a dupla Fla-Flu não tem. Então, os dois alugam. E, o que é pior, alugam de um senhorio que diz que “aqui não tem jogo contra pequeno com este preço”, como fez há dois dias. Mais uma vez, como ocorreu no século passado, depois do campeonato de 1923, a dupla colorida colabora diretamente para a elitização do futebol. Só quem foi ao “Novo Maracanã” sabe como mudou a plateia. Saíram os pobres, entraram os ricos. Saiu a alegria do torcedor, veio o emplumado-modinha-whisky-red-bull. Só não saíram as organizadas sustentadas com ingressos grátis, com seus bandidos no bolo. Mas aí é querer muito de gente tão moderna e empreendedora.

Para estes aí, se o produto é ruim, o melhor mesmo é acabar com ele. Como tentam fazer inventando uma crise de preços no Carioca.

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Que ninguém seja inocente. Eurico não fez esta celeuma toda porque é popular ou bonzinho. Ele tem três objetivos: ferrar o programa de sócio-torcedor dos outros, especialmente o do Flamengo, complicando o que for possível a gestão financeira do clube rival; apertar o Consórcio Maracanã para, quem sabe, fazer um bom acordo futuro; e dar uma catucada na Globo, pois a emissora tem ojeriza de certos estádios e, se pudesse, concentrava o produto Carioca (que ainda vende uma quantidade expressiva de PPV) em um grupo de quatro estádios: Engenhão, Maracanã, São Januário e Volta Redonda. Vai ter de colocar o Moacyrzão, Los Lários e Eduardo Guinle na conta.

Agora é bom dizer uma coisa: se a proposta fosse do tal Bandeira de Mello, a Flapress estaria tendo orgasmos múltiplos e saudando o salvador do futebol carioca. E se o programa de sócios do Vasco (que sempre deu meia entrada, no nosso estádio, aos associados) estivesse sendo ferrado, iriam ouvir 10.312 gestores de futebol para elogiar a medida e dizer que o nosso programa era mal gerido e o contrato com o Consórcio Maracanã tinha sido “negociado às pressas”.

Mas é a tal história…

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A nota do Fluminense, que deve ter sido distribuída em caixas bem coloridas e perfumadas, é uma peça de ironia muito bem feita, citando o ilustre torcedor Chico Buarque, um cara chique que é socialista e adora uma piscina e um bom uísque importado. Mas peca em dois detalhes: fala dos campeonatos de 1992 e 1998, alegando que, em um, os clássicos foram disputados fora do Maracanã e o outro foi repleto de W.Os, com um apagão antes do gol que decidiu a competição, sem dizer o porquê.

Vamos esclarecer: em 1992, o Carioca foi disputado fora do Maracanã (à época um estádio público administrado pelo estado, onde Vasco e Flamengo tinham lugar cativo desde a inauguração) porque na final do Brasileirão, em 19 de julho de 1992, Botafogo e Flamengo encheram o antigo Maracanã com mais de 145 mil torcedores presentes (122 mil pagantes). Após uma briga dentro da torcida Raça Rubro-negra, como relata o Jornal do Brasil de 20 de julho daquele ano, houve corre-corre em direção aos degraus inferiores das arquibancadas e a grade cedeu, com dezenas de torcedores caindo de uma altura de quatro metros em cima das cadeiras azuis. Saldo da confusão: três mortos e 84 feridos. O estádio foi interditado e teve a capacidade reduzida para perto de 100 mil, à época. Os clássicos com o Vasco ocorreram em São Januário. Botafogo, Fla e Flu enfrentaram os pequenos em Caio Martins, Gávea e Laranjeiras e houve jogo entre grandes até em Ítalo Del Cima – e hoje eles não podem jogar em São Januário…

Em 1998, é bom que se diga, os jogos foram boicotados por Botafogo, Fluminense e Flamengo, por causa de mudança de datas para adequar a tabela do Vasco no Carioca e na Libertadores, como houve em 1981, quando o Flamengo foi jogá-la. O primeiro W.O. foi dado ao Botafogo, no jogo contra o Vasco. O segundo foi duplo, pois nem Fla nem Flu compareceram à partida marcada para Moça Bonita. E após a definição do título, o Flamengo não foi enfrentar o Vasco. Medrou.

De resto, quem fez a nota já pode preparar a biografia do Fred. O cidadão sabe escrever. Só não sabe apurar direito.

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bapA sonhada profissionalização dos clubes poderia começar pelo Flamengo. Era só Luiz Eduardo Baptista, o Bap, VP de Marketing, deixar o cargo de CEO da Sky (associada à Globo e uma das empresas que detém os direitos de transmissão dos campeonatos de futebol do País) e ficar só no clube. Isso serviria até para calar as bocas mais maliciosas, que veem o dedo dele no expressivo processo de espanholização em curso do futebol brasileiro. Afinal, qual torcedor não gostaria de pagar menos aos rivais e mais ao seu time de coração?

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Desafio final: ache uma foto em que o Bandeira de Mello apareça em pose ridícula ou fazendo uma careta engraçada e poste o link nos comentários.