O problema não é só o Fabrício…

Futebol é bonito demais de assistir, torcer e comemorar. Fazer amigos.

Em seus subterrâneos, a coisa é de apavorar.

Qualquer pessoa que já tenha ultrapassado a distância regulamentar de acesso aos porões do esporte bretão sabe que nada é fácil.

Nesta semana, ficou marcado o destempero do jogador Fabrício, do Internacional, sendo devidamente expulso de campo após ofensas aos torcedores.

Um tema que gera múltiplas interpretações.

Para alguns, será fácil simplesmente enforcar o jogador em praça pública. Para outros, contemporizar.

Nem uma coisa, nem outra. Acho.

Torcer está muito longe de agredir verbalmente, xingar etc. Dizem que é da “cultura do brasileiro”. Discordo veementemente. É falta de conscientização e respeito.

Por outro lado, a cada dia que passa, mais jogadores destemperados ou mesmo desequilibrados pipocam nos grandes clubes brasileiros. Dezessete, dezoito anos, o garoto sai do lençol no chão de cimento para hotéis cinco estrelas, fama, entrevistas, mulheres, duzentos mil por mês e… que se vire, mesmo que seja incapaz de ler a conta do restaurante ou se o cronista o elogiou ou o criticou no jornal.

De forma nenhuma é para se passar a mão na cabeça de bad boys ensandecidos, longe disso. Mas apenas tentar elevar o debate a respeito.

Fazer gols e ganhar títulos dá ao cara o “direito” de quase virar um Mussolini se contrariado por qualquer coisa ou criticado.

Alguns se acertam, outros não.

Pior é quando alguém diz que o jogador ofende porque “tem personalidade”.

Sem contar que, por conta de patrocínios, televisão e outros meios de geração de receita, alguns jogadores entendem que não “têm nada a provar ao clube”, mas sim a “quem lhes paga”.

Poderia aqui elencar seiscentos ou oitocentos casos além deste do Fabrício, em outros diversos formatos. Craques consagrados e indiscutíveis como Romário, Fred e Zico (amplamente defendido pela Flapress, mas uma verdadeira máquina de falar besteiras dos adversários). No passado, Edmundo, Guilherme (Atlético-MG e Corinthians), Serginho Chulapa. Nomes como os de Jobson, Kenedy, Bernardo. Walter. Adriano. Um milhão de outros mais. E os que não deram certo e ficaram pelo caminho?

É uma endemia.

Se vierem gols e títulos, há quem diga que vale tudo, pode tudo, para depois bradar contra a corrupção nas redes “sociais”…

Precisa falar do goleiro Bruno, um sinal claro de que a coisa desandou de vez?

Num país com fúria capitalista permanente, seria fundamental educar e preparar os jovens jogadores, mostrando-lhes que, por mais que o enorme dinheiro no bolso seja merecido e fruto de suor, ele não dá direito a agir como se o mundo não tivesse leis, normas e respeito.

Os clubes ainda tratam os jogadores como mercadorias. “Formar” (fisicamente apenas, é claro), badalar e negociar. Nunca é demais lembrar que 99% da mão de obra do futebol brasileiro advém das classes mais carentes e sofridas do Brasil, muitas vezes com a escolaridade (e a educação) em absoluto déficit. Depois, só o dinheiro basta? Não, lógico que não!

Falta amparo psicológico, cuidado na lida com as pessoas, dignidade. Um mundo do futebol de fantasia, com muita aparência e vísceras comprometidas (às vezes literalmente). Não dá para mudar a torcida do Brasil inteiro, mas quem sabe o começo com os jogadores não serviria de grande exemplo?

Não é exclusividade do jogo de bola. Se houvesse mais seriedade, talvez o piloto com claros problemas psiquiátricos não tivesse assassinado 150 pessoas jogando o avião nas montanhas da França. Mas não custa pensar em casos de jogadores que vivem o glamour efêmero e acabam na rua da amargura, até mesmo os mais afáveis no trato com o próximo, caso de Marinho (ex-Bangu).

http://extra.globo.com/esporte/marinho-escapa-da-morte-luta-contra-alcoolismo-organismo-pede-15718852.html

marinho_principal

Num país onde os campeonatos chamam mais atenção pelas notas oficiais dos clubes, as briguinhas políticas e a violência extracampo, deve fazer sentido que o ser humano seja deixado de lado.

Ainda sobre Fabrício, as palavras lúcidas de Juan, zagueiro do Inter. Criticou claramente (embora menos do que poderia), mas teve a noção de equilíbrio. Ele também veio de lar humilde, mas teve a sorte de uma ótima formação em casa (que os clubes, claro, jamais lhe ofereceram), o que é muito raro no mundo do futebol. O problema vai muito além de um ato de indisciplina.

“Fabrício é muito emotivo. Lembramos de outras situações. Vamos conversar com ele. A torcida vai entender. É um impulso. Ele está sempre doando. Estamos na Libertadores muito em função pelo que ele fez. Ele tem que esfriar a cabeça e pedir desculpas porque errou. Ninguém o segura. Ele é muito extrovertido, brincalhão. Mas também é nervoso. É coisa de cabeça quente. Teve o episódio contra o Palmeiras. O Abel, que era um pai para ele, tentou segurá-lo. É algo que não se pode fazer, ainda mais com a sua torcida. Isso acontece. Não podemos fazer um drama em cima disso. Ele tem que pedir desculpas porque errou.”

Se metade dos dirigentes de futebol entendessem das coisas como Juan, o cenário talvez fosse outro. Sem paternalismos e mais profissional desde o começo. O jogador devidamente tratado na base não vai ter o surto do Fabrício.

Quem se lembra disso em 2010?

Uma excelente entrevista concedida por Rafael Sobis ao globoesporte ajuda a entender o processo. “Jogador gosta de furar fila. Jogador é um bando de mal-educado que ganha dinheiro. Falam palavrão no avião, sentem-se os donos das coisas. E disso tenho muita vergonha”. Confira no link abaixo:

http://globoesporte.globo.com/futebol/times/fluminense/noticia/2014/10/o-fantastico-mundo-de-rafael-sobis-seria-tudo-menos-futebol.html

Será que um dia o futebol evolui social e moralmente falando?

@pauloandel