O mesmo velho ocaso

 

Num momento em que a cidade e o Estado do Rio de Janeiro passam por um verdadeiro caos em todos os setores, o futebol – este belo esporte bretão que um dia já encantou a dezenas de milhões de brasileiros – bem poderia ser um instrumento de recuperação do nosso alto astral, ao menos uma tentativa.

Neste domingo jogam Fluminense e Vasco, abertura do campeonato, um grande clássico. Tivesse sido feita uma grande promoção da partida, talvez o Engenhão  – agora remodelado e bonito, com a cara de seu locatário – pudesse abrigar um público expressivo, digno do falecido Maracanã onde, em dia de maré baixa, 50 mil torcedores presentes era a conta mínima.

Sim, os tempos mudaram: a TV domina tudo, há muitas outras opções de lazer, a grana e a ganância tiraram o povão dos estádios. Mas qual é o sentido de não se tentar promover uma competição que já foi tão importante, carismática e que agora parece varrida para o canto na condição de obrigação protocolar?

Para os mais novos, é difícil crer que já tivemos jogos em Moça Bonita para mais de 10 mil pagantes, que os clubes grandes jogavam contra os de menor investimento no outrora maior estádio do mundo. E olhe que isso nem faz tanto tempo assim: na virada do século XX para o XXI, um jornal popular do Rio de Janeiro fez uma promoção na venda de seus exemplares, vinculando-os a ingressos de partidas. Resultado: casa cheia.

Muita gente diz que o futebol não é como antigamente, que não há mais atrativos para se lotar um estádio, mas será que isso é um retrato da decadência do nosso esporte ou de sua classe dirigencial? Há trocentos anos o mesmo belo espetáculo dos desfiles de Carnaval acontece na Sapucaí do mesmo jeito, tudo absolutamente transmitido com um milhão de imagens, mas não consta que se espere arquibancadas vazias na Praça da Apoteose.

Ao falarem do clássico, os jornalistas da rede oficial de transmissão deixam claro: “Vasco e Fluminense neste domingo, às cinco da tarde, aqui na Globo”. Esse “aqui” talvez explique muito do que temos visto nos últimos anos, quando o assunto o velho futebol carioca que, tal como o samba, agoniza mas não morre. O resto fica por conta da inacreditável Federassauro.

@pauloandel