O Maracanã não quer a sua presença

Pegue um estádio em que cabiam quase 200 mil pessoas e o reduza para cerca de 120 mil.

Depois, feche-o por quase quatro anos e o reduza, de novo, para cerca de 70 mil assentos.

Destrua com isso o hábito de se frequentar o campo.

Ofereça espetáculos de terceira categoria, com times ruins.

Encareça o ingresso a preços incompatíveis com o salário dos trabalhadores – os verdadeiros torcedores de futebol – e com a qualidade dos jogadores, times e arbitragens.

Coloque as partidas em horários que desestimulem mais ainda a ida do torcedor ao estádio, como por exemplo 18:30 de domingo ou, pior, 22h das quartas-feiras, obrigando os abnegados a deixarem o estádio depois da meia-noite, horário em que nosso maravilhoso sistema de transportes funciona pior do que a porcaria oferecida durante o dia para a população.

O objetivo disso tudo é vender pay-per-view. Mas também podemos transmitir esses jogos ao vivo pro Rio de Janeiro. Com isso, tiramos ainda mais gente do estádio. Coisa mais inconveniente esse povo que teima em vir a esses jogos!

Satisfeito? Não? Podemos piorar!

Toda e qualquer casa de espetáculos sonha com lotação esgotada. Na conjuntura descrita acima, isso é quase um sonho inalcançável. Mas acontece, como numa final de campeonato como a do próximo domingo. Então, o que podemos fazer para atrapalhar ainda mais?

Em nome da segurança, sob argumentos estapafúrdios, encolhemos ainda mais o estádio. Então, ao invés de 68 mil lugares, oferecemos cerca de 55 mil. Tá pra nascer quem explica com coerência a construção de um estádio cuja lotação não pode ser atingida em nome de “segurança”.

Então a empresa responsável pela gestão do estádio – constituída para tal – no qual já foram realizados dezenas de jogos sob o seu controle, tem problemas na venda dos ingressos. São meses de partidas com lotações pífias, nas quais toda a sorte de testes poderiam ter sido feitos para o grande momento da casa: o dia de uma final, jogo lotado. Hora de mostrar toda a modernidade de um estádio “padrão fifa”. Nada disso. Horas e horas de fila por um ingresso, sistema online que funciona de forma mambembe. Cartões recusados. O Andel, que escreve aqui no Panorama, tenta há quase um ano comprar ingressos com seu cartão de crédito. A resposta é sempre a mesma. Existe um problema com a operadora. Ponto.

Então temos gente virando a noite na rua em busca de ingressos. As pessoas querendo comprar seus ingressos e não conseguindo.

Mas ainda dá pra piorar um pouquinho. Estádio padrão fifa, sem grandes barreiras físicas, com as áreas centrais mistas – ou seja, divididas entre as duas torcidas. A torcida do Vasco esgota o seu lado. E o estádio padrão fifa não tem flexibilidade para ampliar o espaço de uma torcida em detrimento da outra. A antiga barreira física conhecida por todos que frequentaram o velho Maraca – duas cordas e duas linhas de policiais separando as duas torcidas, que se moviam para o lado dando mais espaço para a torcida maior – não existe mais.

Resumindo o texto: Encolhe-se o estádio numa obra. Encolhe-se mais ainda numa segunda obra. Reduz-se a carga de ingressos por segurança. Por último, basta espremer a torcida maior num dos lados enquanto do outro sobram ingressos.

Maravilhoso, não? Viva o Maracanã.

Este texto é uma homenagem ao “Movimento pela Verdade no Futebol”.

abraços

Zeh