O Fator Nenê e a Champions League

Pela enésima vez consecutiva, Nenê resolveu os problemas do Vasco e foi protagonista em mais uma maiúscula vitória pelo campeonato brasileiro. Os 4 a 3 no Bahia, um time que eternamente causou dores de cabeça ao Vasco, não refletem a superioridade que o Vasco desfilou em todo o jogo, que teria sido muito mais tranquilo se Jordi, que foi muitíssimo bem nas rodadas anteriores, não tivesse tido uma tarde quase desastrosa. Com isso, pela primeira vez, o Vasco toma três gols em um jogo neste período de invencibilidade. No primeiro gol, a bola lhe passou por sobre a cabeça. Pior, no terceiro gol, conseguiu a proeza de socar a bola para baixo e esta lhe passar sob as pernas. Antes, o Vasco só havia tomado dois gols da poderosa Friburguense, num jogo em São Januário em que, já classificado, Jorginho escalou uma penca de reservas e poupou o time.

Nenhum dos nossos últimos adversários (Bahia, Vila Nova, CRB, Sampaio Correia ou Tupi) soube como parar o craque do Vasco. Alguns tentaram à base de violência, como o Vila Nova, sem sucesso. Outros, como o Bahia, puseram um único marcador a perseguí-lo por todo o campo, com o resultado que todos vimos. Nenê desfilou seu vasto repertório, acertando um lindo chute de fora da área e repetindo a espetacular falta batida em Brasília.

Fato é que Nenê é hoje, de longe, o melhor jogador em atividade no Brasil. Mas isso não é (felizmente, para nós vascaínos) considerado por Dunga, que preferiu chamar Kaká e sua vasta experiência em seleções em vez de apostar num cara que vem arrebentando desde o final do ano passado. São vários meses seguidos de atuações consistentemente boas nos campeonatos mais competitivos do país. Sem contusões. Enquanto isso, Kaká atua no exílio dos Estados Unidos, numa liga com níveis de exigência muito menores que as daqui.

Imaginemos que este mesmo Nenê tivesse apresentado esse futebol jogando pelas cores dos “mais queridos” nacionais, do Rio ou São Paulo. Aqueles amados e incensados pela mídia. Estaríamos ouvindo de dia e de noite a imprensa exigir sua convocação, o que seria o justo, já que, ao menos em teoria, futebol é momento. E o momento do Nenê é de titular da seleção brasileira.

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A final da Champions League é marcada com ao menos dois anos de antecedência. Sabia-se, portanto, há meses, que a final de Milão seria neste 28 de maio, às 16:45, muito antes dos geniais responsáveis da CBF marcarem Vasco x Bahia para o mesmo horário. Vasco x Bahia foi um jogo divertidíssimo, mas certamente teve um público (ao vivo e na tv) muito aquém do que merecia, graças à estapafúrdia ideia de concorrer com o jogo mais esperado da temporada européia.

É incrível, mas parece que as tvs ainda não entenderam que estádios vazios não vão gerar mais compradores de pay-per-view, e sim aumentar o desinteresse dos torcedores – principalmente os menores, o futuro da paixão, no futebol local. É cada vez maior o número de pirralhos que responde Real Madrid, Barcelona, Arsenal ou afins quando perguntado qual o seu time.

Outro dia encontrei um amigo meu, flamenguista de quatro costados, com seu filhinho. Perguntei qual o time do menino. “Paris Saint Germain”. O pai fez um muxoxo. (Pelo menos não é mais um faveladinho. Que bom!)

O que vai ser do futuro do futebol brasileiro com essa quantidade de torcedores de times europeus em 20 anos? Quem irá aos estádios? Ou se pensa nisso agora, ou o problema só vai piorar. Enquanto isso, a dona dos direitos de transmissão e sua parceira cbf marcam jogos em horários estapafúrdios, espantando o torcedor de hoje do estádio. Até quando?